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A mesma música que toca ao fundo entre passear e vadiar sem fim

A mesma música que toca ao fundo entre passear e vadiar sem fim

Diogo Vaz Pinto 21/12/2018 16:51

Da Grécia de Aristóteles, e dos filósofos que vadiavam incessantemente por Atenas em jeito de provocação, à passeata desta tarde que o leitor vai ser inspirado a dar depois de ler este texto

 

Vem tão lá de trás que neste início de conversa vai parecer que estou “a falar grego com a tua imaginação”, leitor. E nem espanta o balanço que leva, hoje, a noção de que há algo de infeccioso no modo como as redondezas nos absorvem, agitam o nosso pensamento, se lhes dermos a corda das nossas passadas, movendo-nos no mundo segundo um ritmo próprio. Aristóteles dava as suas aulas ao ar livre, e foi porque os portais cobertos do Liceu, em Atenas, eram conhecidos como “perípatoi” que, mais tarde, os seus discípulos ficaram conhecidos como “peripatéticos”, e a palavra ergueu-se do dicionário grego e foi por aí fora, entrou por tantas outras línguas, significando também “ambulante” ou “itinerante”.

Sem nos afastarmos muito, convém sublinhar que, muito antes da figura do flâneur - que surgiria só no séc. xix e que associamos a Baudelaire e Manet, quando as cidades europeias expulsaram a noite, distribuindo candeeiros a gás que vieram permitir a circulação nas principais avenidas e ruas bem depois de o sol se pôr -, já a deambulação carregava um tom desafiador. Os filósofos cínicos da Antiguidade desdenhavam todos os confortos, e um aspeto decisivo da sua crítica estava no efeito corrosivo diário: eram vistos solitariamente ou em pequenos bandos, andrajosos, e, ao invés de cobrir grandes distâncias, circulavam por uns poucos bairros mais movimentados, irritando os outros.

A vagabundagem de que, há não tantas décadas assim, ainda se corria o risco de se ser acusado, quando se podia ir dar com os ossos à cadeia pelo simples ato de andar pelas ruas e estar disponível, se a ocasião o favorecesse, para cair verticalmente no vício, é uma outra coisa, ligada a uma outra linhagem de consciência e rebelião e que não se confunde com os atuais itinerários e percursos à disposição dos amantes das caminhadas. Talvez o elo que, de uma para a outra, não se perde possa ser encontrado no livro do filósofo francês Frédéric Gros “Marcher, une philosophie” (2008), onde defende que o propósito de andar não passa por fazer amigos, mas antes por partilhar a solidão. Isto porque também a solidão pode ser partilhada, como o pão e a luz do dia. Gros lembra Kant e a importância dos seus longos passeios diários, notando que a vida deste filósofo era de tal modo disciplinada que cada um dos seus passos parecia desenhar notas entre as linhas de uma pauta musical. Noutra passagem, o professor de Filosofia que ultimamente se tem aplicado a desmontar o modo teatral como a obediência hoje se nos impõe, silenciando as nossas convicções para nos levar a representar o nosso papel e a engolir o inaceitável, nota que, quando caminhamos, o nosso corpo deixa de estar na paisagem e passa a ser a paisagem.

No tratado que Gros dedica ao tema traçam-se diferentes atitudes e modos de se caminhar, seja simplesmente para espairecer, seja aquele que é próprio dos tunantes, num ato de desprezo pelas convenções e pela sociedade ou de simples abandono, seja como o faziam os peregrinos medievais, esses andarilhos e aventureiros que nos surgem, hoje, pela mão dos mitos e fábulas, em que a caminhada é uma forma de contemplação e destino. Este é claramente o modelo que Gros mais admira e no qual se inscrevem figuras lendárias como Jean-Jacques Rousseau e Henry David Thoreau. Para este académico francês, caminhar tem o mesmo peso na tradição ocidental que a meditação tem no Oriente. “Não estás a fazer nada quando andas, nada a não ser caminhar. E é o não ter nada que fazer senão andar que te permite redescobrir a pura sensação de se existir...”

Thoreau dedicou largas páginas de exaltação e incitamento à caminhada, paixão que elevou a uma das grandes formas de arte, afirmando que se soubermos render-nos à natureza, esta irá confiar aos nossos passos um rumo... “Creio que a natureza encerra um subtil magnetismo que, se inconscientemente nos rendermos a ele, dará um rumo aos nossos passos. Não nos é indiferente a direção que seguimos. Existe um caminho certo; mas somos demasiado propensos, por estupidez ou distração, a seguir o caminho errado.” E lembra-nos que no “canto do tordo dos bosques há certos interstícios que nos levam a fixar numa terra selvagem nunca antes pisada pelo homem”, e que há respostas que só ouviremos “das águas, dos montes e dos vales cobertos de vinhas, como uma música em surdina que relembra o tropel dos soldados de partida para a Terra Santa”...

E para não ficarmos pelo solilóquio, vale a pena recorrer a um seu contemporâneo, o nosso Camilo que, ao tomar uns ares no realismo para dar maior rijeza ao seu rascante romantismo, nas “Novelas do Minho”, notou como dos povoados sertanejos que Portugal tinha andavam já os políticos e os literatos a tirar-lhes umas tontas medidas que não faziam mais do que meter “a riso as coisas e as pessoas de lá”. A conversa do “país real” não era ainda exibida como um osso desenterrado na província, mas já despontavam os sinais de uma mistificação grosseira feita a uma distância citadina e afadigada face ao “país da madressilva e da laranjeira” que, desde então, só raramente tem merecido o papel de musa para ficções e outras obras do espírito, ao invés de ser pespegado num prospeto, servido nalgum catálogo como armadilha para turistas ou emoldurado ridiculamente como museu de antigas tradições que se arrefentam a céu aberto.

Voltando a Thoreau, nas páginas do seu diário ele referia o impulso que retirava de caminhar, dizendo que no momento em que as suas pernas se punham a mexer, os seus pensamentos começavam a fluir. E, em “Caminhada” (Antígona, 2012), adianta: “Quando quero distrair-me, procuro o bosque mais sombrio, o mais cerrado e interminável e, aos olhos de qualquer cidadão, o mais medonho. Entro num pântano como se fosse um local sagrado – um sanctum sanctorum. É nele que se encontram a força e a essência da Natureza. O bosque selvagem cobre a terra virgem – e este mesmo solo é bom para os homens e para as árvores. A saúde do homem requer tantas jeiras de prado para a sua preservação como a sua quinta exige montes de esterco. Existem nelas os fortes alimentos de que se nutre. Uma cidade é salva não tanto pelos seus honestos habitantes, mas pelos bosques e pântanos que a rodeiam. Uma cidade onde uma sobranceira floresta primitiva ondula e onde outra floresta primitiva se decompõe no subsolo tem condições para produzir não só cereais e batatas, mas também poetas e filósofos para as gerações vindouras. Em semelhante solo cresceram Homero, Confúcio e outros que tais, e é dessa natureza selvagem que proveio o Reformador que comia gafanhotos e mel silvestre.” 

Já na tradição do romantismo inglês, o poeta que mais alongou e tornou fabulosa a sombra destes finos vagabundos foi William Wordsworth que, segundo Thomas de Quincey estimou, terá caminhado ao longo de toda a sua vida perto de 300 mil quilómetros, o que dá uma média de 10 quilómetros por dia a partir da idade de cinco anos.

Há exemplos inúmeros de tantos mais artistas que tiraram preciosas lições do hábito de sair para uma caminhada, dissecar as cenas, ver como a luz se distribui e condói nas formas, como seguem os carreiros, as estradas abertas, ou banhar-se nas ruas, experimentando as máscaras dos rostos com que nos cruzamos, e, de noite, agigantar-se agora para a seguir ficar anão conforme a sombra salta de um candeeiro para o seguinte; levar tudo dentro, ao lume no caldeirão do espírito... Tantas artes souberam reformular as suas impressões do mundo através de um hábito tão simples como andar a pé, beneficiando desse efeito de reflexo e eco entre o ritmo do nosso corpo e o nosso estado mental. Como Ferris Jabr notava há uns anos na “New Yorker”, quando caminhamos, o ritmo da nossa passada naturalmente vacila ou acelera seguindo o nosso humor, a cadência do nosso discurso interior; “por outro lado, podemos alterar o ritmo dos nossos pensamentos se deliberadamente estugarmos o passo ou desacelerarmos”.

A sustentar toda esta genealogia e tradição artística que ergueu às cavalitas da arte de caminhar, Jabr refere que há repercussões na nossa biologia quando nos pomos a andar. O coração ganha ânimo e desata a bombear o sangue mais depressa; assim, este leva mais oxigénio não apenas para os músculos mas para todos os outros órgãos, incluindo o cérebro. E há já alguns estudos que têm demonstrado que durante o exercício, e mesmo sem um grande esforço físico, as pessoas alcançam melhores resultados em testes relacionados com a memória e a atenção. “Caminhar com alguma assiduidade também promove novas conexões entre as células cerebrais, atrasa o normal definhamento do tecido cerebral que acontece com a idade, aumenta o volume do hipocampo (região do cérebro crucial para a memória) e eleva os níveis das moléculas que tanto estimulam o crescimento de novos neurónios como transmitem as mensagens entre eles.”

Aí está, para os que nestas coisas não se dão por satisfeitos a menos que se dê à ciência uma última palavra. E se a obsessão destes tempos é a saúde, se, ao invés da mortalidade atingida por meio de obras do espírito, a maioria das pessoas, hoje, estão com Woody Allen quando este disse “não quero atingir a imortalidade através do meu trabalho, quero atingi-la não morrendo”, ainda há muito quem vislumbre na caminhada um rumo em si mesmo e se regozije com esta vantagem de andarmos erguidos, aproximando-nos da altura daquilo que vemos.

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