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As ligações do furto das Glock ao caso de Tancos

As ligações do furto das Glock ao caso de Tancos

Raquel Wise Carlos Diogo Santos e Rita Pereira Carvalho 20/12/2018 10:36

O desaparecimento das Glock da PSP pode estar ligado ao furto de Tancos. Procurador João Melo tem as duas investigações em mãos e todas as informações estão a ser cruzadas

A investigação ao roubo das armas Glock da PSP já dura há quase dois anos, tendo ontem levado à detenção de nove pessoas – incluindo dois agentes da PSP. O inquérito está a cargo do mesmo magistrado do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) que está a investigar o furto das armas em Tancos e isso não será apenas uma coincidência: estas duas investigações podem ter pontos em comum. É que parte das munições roubadas nos paiolins podem ser usadas nas armas que foram roubadas em janeiro.

Dos nove detidos ontem na operação Ferrocianeto, cinco ficaram em prisão preventiva.

Em 2017 desapareceram 57 armas Glock das instalações na sede da PSP. O lote das armas Glock estava guardado numa arrecadação da Direção Nacional da PSP, mas o desaparecimento do armamento só foi detetado quando uma dessas armas foi apreendida no Porto a um jovem de 21 anos, suspeito de tráfico de droga. A arma em questão tinha o dístico da PSP e, na sequência do sucedido, foi feito um levantamento do material, tendo-se concluído que faltava um lote. O Ministério Público abriu um inquérito, mas ainda não tinham sido constituídos quaisquer arguidos.

Os dois agentes detidos durante a manhã de ontem, porém, já eram suspeitos do roubo desde o início da investigação. Trabalhavam no depósito de armas da PSP, ou seja, eram responsáveis pela supervisão da arrecadação – não foram constituídos arguidos por falta de provas concretas. Ainda assim, já em março do ano passado, a então ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, referiu que as conclusões preliminares do inquérito da PSP apontavam falhas na supervisão do depósito das armas.

Faltando as provas necessárias para afastar os dois suspeitos, a PSP aplicou-lhes uma suspensão disciplinar de funções pelo motivo de negligência na guarda das Glock. Com o tempo de suspensão terminado, até ao dia de ontem, os dois agentes da polícia estavam a exercer funções administrativas.

As diligências de ontem – 14 buscas domiciliárias e quatro buscas não domiciliárias que envolveram 150 polícias – aconteceram em vários pontos do país. Fonte oficial da PSP esclareceu mesmo que a operação foi “apoiada pela Unidade Especial de Polícia, Comando Metropolitano do Porto e Comando Distrital de Faro” e que abrangeu “os concelhos de Vila Nova de Gaia, Gondomar, Mafra, Abrantes, Alvaiázere, Sintra, Cascais, Oeiras, Lisboa, Almada e Albufeira”.

Ligações a Tancos Na manhã de segunda-feira, uma operação desencadeada pela Unidade Nacional Contra o Terrorismo da PJ e pelo DCIAP resultou na detenção de oito suspeitos do furto de armas em Tancos. Segundo o i apurou, na noite de terça-feira foi detido um outro suspeito, que é militar.

Os investigadores acreditam que o furto de armas em Tancos aconteceu com ajuda deste suspeito. Ou seja, terá sido este militar que terá passado informação privilegiada sobre o interior da base, nomeadamente sobre o facto de o sistema de videovigilância não estar a funcionar na altura do furto das armas.

Na madrugada de terça-feira foram libertados três dos oito suspeitos, tendo os restantes cinco ficado em prisão preventiva, indiciados dos crimes de tráfico de armas e associação criminosa.

Logo na terça-feira foi ouvido, como testemunha, um outro militar que estava de serviço naquele período e explicou as questão das rondas. Esclareceu ainda o processo da mudança de turnos, disse quais as horas de menor movimento e alertou ainda para as avarias no sistema de vigilância.

Segundo o “DN”, o arguido do caso Tancos António Laranjinha terá sido quem intermediou a venda destas armas Glock a organizações criminosas, nomeadamente de quatro destas armas, que foram apreendidas em Espanha em ações policiais de combate ao tráfico de estupefacientes.

Laranjinha soube da fraude com a PJM Após o assalto a Tancos, com o país em alvoroço e o exército em cheque, a PJ Militar, que considerava que a resolução do crime era da sua alçada, por despacho da Procuradoria-Geral da República fica apenas a coadjuvar a UNCT da PJ. Os problemas começam quando a PJ informa os parceiros que vai deslocar-se ao Algarve, onde residia o informador Paulo Lemos, que terá sido contactado pelo grupo para ajudar no assalto. Enquanto a autoridade militar considera que deve estar presente na diligência, a civil recusa, alegando que, para o efeito, muitos homens iriam inibir o interlocutor.

Contra a lógica da lei, o diretor da PJ Militar, coronel Luís Vieira, que entretanto foi detido, abriu uma investigação paralela. Com boas relações de trabalho com a GNR de Loulé, os seus homens contactam-na para obter informações sobre Paulo Lemos. A sorte parecia sorrir--lhes. Um dos elementos daquele destacamento, Bruno Ataíde, era próximo do cabecilha do grupo de assaltantes a Tancos, o ex-fuzileiro João Paulino, e é precisamente a ele que liga para obter informações sobre Lemos.

Em dois tempos, o ex-fuzileiro, que nunca imaginara as proporções que o caso ia ter, com receio de ser descoberto, acaba por se denunciar, revelando o local onde tem as armas escondidas. O acordo feito com a PJM e a GNR era claro: entregava as armas, mas estas polícias não podiam falar à PJ, que tinha a investigação formal, do seu nome. E assim começou a farsa, que a PJ acabou por desmascarar num inquérito feito para apurar o estranho achamento das armas.

A conversa fatal com Laranjinha A PJ desconfiou desde o primeiro instante da forma como as armas acabaram por aparecer na Chamusca e da chamada de alerta alegadamente feita para o piquete da PJ Militar a dar a localização do arsenal. E as escutas acabaram por confirmar as suspeitas.

Como o i revelou esta semana, numa conversa entre João Paulino e um dos outros membros do gangue, António Laranjinha – um dos detidos na operação de ontem –, é referido o acordo feito com a PJM para ocultar os nomes destes assaltantes. Ao amigo, Paulino é claro: “Eles passaram... a história que passou foi que eles encontraram aquilo numa investigação que tem ligação a outras coisas, completamente... um processo de uns ciganos do Porto.” E Laranjinha mostra estar por dentro: “Sem querer apanharam aquilo...” E quando questiona Paulino se não terão mesmo envolvido o nome de ninguém do gangue, a resposta que recebe também não deixa margem para dúvidas: “Zero... zero...”

 

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