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João Branco. O designer dos contos de fadas
João Branco (à direita)  com Luís Sanchez,  na loja-atelier  dos Storytailors em Lisboa

João Branco. O designer dos contos de fadas

João Branco (à direita) com Luís Sanchez, na loja-atelier dos Storytailors em Lisboa Cláudia Sobral 18/12/2018 20:40

Com Luís Sanchez, fundou um dos mais singulares projetos no panorama da moda nacional - os Storytailors. João Branco morreu na noite de segunda-feira. Tinha 40 anos.

 

“Inundados por um mar de dor e tristeza. Informamos que faleceu na noite passada o nosso querido João Branco.” A causa da morte do designer que fez dupla com Luís Sanchez, a outra metade dos Storytailors, desde o tempo da faculdade, onde se conheceram, não foi divulgada. Nas redes sociais dos Storytailors, marca ímpar desde que há 15 anos começou a fixar-se no panorama da moda nacional, apenas aquela mensagem, com um regresso a Fernando Pessoa, figura na qual se tinham inspirado para a criação da primeira coleção que apresentaram no Sangue Novo da ModaLisboa, em 2001: “Temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância. E a que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa.”

Nesse tempo, em março de 2001, quando faziam desfilar pela primeira vez as suas criações no Sangue Novo, desfile em que a ModaLisboa dá espaço a designers emergentes, numa coleção a que chamaram “Maturação”, não se apresentava ainda como Storytailors a dupla João Branco e Luís Sanchez que, com um projeto construído ao longo dos últimos 15 anos, deram forma a uma das marcas mais singulares no panorama da moda nacional.

À ModaLisboa regressariam depois do Sangue Novo já como Storytailors, em outubro de 2004. Na semana da moda de Lisboa participariam pela última vez em 2006, ano em que abriram na Calçada do Ferragial, em Lisboa, um espaço de loja e atelier. Nos últimos anos vinham apresentando as suas coleções no Portugal Fashion, no Porto, e com o apoio dessa estrutura levaram também por cinco vezes as suas coleções à Semana da Moda de Paris. No dia em que foi anunciado o desaparecimento prematuro de João Branco, o Portugal Fashion sublinhava justamente o caráter “incontornável” da dupla, “não apenas no calendário do Portugal Fashion, como no panorama da moda portuguesa, quetanto ajudou a enriquecer”.

Acrescentava o Portugal Fashion no comunicado enviado às redações que João Branco “será sempre recordado pela criação de uma marca de referência única em Portugal, que reflete a sua forma de ver e trabalhar a moda”. A forma de João era a das histórias e a das metáforas, “a dedicação colocada em todas as peças, em todas as coleções, em todos os desfiles”, que todos recordam. Por exemplo, Joana Jorge, project manager da ModaLisboa e também colega de curso de João e de Luís. “O João sempre foi uma pessoa muito especial. Desde cedo que se percebeu que o João era uma pessoa muito diferente. Tinha imenso talento, imensa vontade de fazer coisas e era extremamente rigoroso. Foi sempre uma pessoa muito dedicada e contagiante. Era uma pessoa muito agregadora e inspiradora para os outros. Todos nós estamos muito saudosos, todos nós tínhamos um carinho muito especial pelo João.”

Ao i, Joana Jorge sublinhava ainda como, com um contributo tão “distinto” e “diferenciado”, a falta de João Branco será “sentida” no panorama da moda nacional.

Nascido em Lisboa em 1978, João Branco ingressou em 1996 no curso de Design de Moda na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, onde conheceu Luís Sanchez, com quem começou já desde aí a trabalhar em parceria e acabaria, mais tarde, por fundar os Storytailors. Um “nome-conceito” que, como explica a dupla no seu site, reflete toda uma forma de ver e de trabalhar a moda, que explicam: “A paixão pela História, por histórias e por metáforas, e o fascínio pela construção do vestuário, a alfaiataria e a moda”, e para isso juntaram duas palavras, em inglês, numa só.

Num processo de criação caraterizado por grandes pesquisas, procuravam criar e contar histórias “ao futuro de uma forma libertadora, assumindo-as em capítulos a cada colecção”. Neste encontro entre a História, a contemporaneidade e o futuro, procuraram sempre um design intemporal, sempre com os caraterísticos espartilhos ao centro. E garantiam que “cada peça Storytailors sobrevive à estação em que foi criada”. Por isso se mostravam disponíveis para as reproduzir em qualquer altura, quer por encomendas, quer em edições especiais”.

Mas não só de coleções apresentadas em desfiles de moda se fizeram 15 anos de Storytailors. A dupla foi desenvolvendo figurinos tanto para espetáculos de teatro e de dança, para produções de teatros como o Nacional D. Maria II e o São Luiz, em Lisboa, e o São João, no Porto, ou a Fundação Calouste Gulbenkian. Ao longo dos anos, construíram guarda-roupas para artistas como Mísia, Yolanda Soares, o projeto Amália Hoje ou os The Gift. Foi depois de assistir a um concerto, conforme recorda a vocalista, Sónia Tavares, ao i, que se iniciou uma colaboração mais longa do que a própria marca.

“Nem os Gift tinham o sucesso que têm hoje nem os Storytailors eram ainda os Storytailors”, conta. “Foi o próprio João que me contactou. Encontrei-me com eles num pequeno atelier que tinham ainda em Benfica, junto à casa do João, e desde aí nunca mais deixámos de trabalhar juntos. Não fazia aí ideia de que iria um dia envergar os vestidos deles com tanta honra.” É reconhecível a marca dos Storytailors no visual de Sónia Tavares, que ao longo de quase duas décadas de colaborações encontrou em João Branco também um amigo para todas as horas. “Tantas vezes me senti honrada por poder também emprestar a minha voz para contar as histórias nos desfiles.”

Para os Storytailors, uma peça de vestuário não era apenas uma peça, muito menos tendência. “O que defendemos é que a roupa enquanto objeto é intemporal”, dizia Luís Sanchez ao i a propósito de uma retrospetiva a assinalar os dez anos do projeto que aconteceu no espaço BES Arte &_Finança, em 2013. “Ao longo destes anos conseguimos desenvolver um ADN de produto, facilmente identificável. Com as histórias assumimos toda uma pesquisa histórica, que gostamos muito de fazer.” Histórias que, já se sabe, nunca foram necessariamente cor de rosa. “As histórias dos Grimm, por exemplo, são mais negras do que imaginamos.” Algumas bem negras. Como foi o dia de ontem.

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