25/8/19
 
 
Alexandra Duarte 17/12/2018
Alexandra Duarte

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O drama dos filhos do meio

No meio está a virtude: aquele que vê o seu futuro projetado no irmão mais velho, mas que é frequentemente recordado do seu recente passado. Não há filho que tenha mais consciência de quem é e de onde está do que o filho do meio

Ter o primeiro filho não levanta muitas questões, a não ser para a vida do casal, que tem de se adaptar a um novo elemento na sua dinâmica, trazendo consigo novos horários e um caderno de encargos imediatos que, nos primeiros tempos, desestabiliza muitos pais. Mas, com o tempo, tudo volta a normalizar-se e os pais lá se conseguem reorganizar com as horas do pequenino e chegam a incorporar o bebé nas suas próprias rotinas, levando-o juntamente, tal e qual os cangurus transportam as suas crias.

A chegada do segundo filho é a confirmação do primeiro, mas com a segurança própria de quem já conhece o caminho e dá passos firmes, mesmo quando se levanta o vento. Já não nos sentimos a caminhar com os olhos vendados, sem enxergar um palmo à frente do nariz, correndo o risco de sermos surpreendidos a cada dia do seu crescimento, como acontece com o primogénito. Não! Com o segundo filho passamos a estar em controlo e a tensão diminui, baixando a pressão arterial que quase nos levou à loucura e ao desespero de quem não tem as respostas necessárias para sobreviver à chegada do primeiro filho. Nem os manuais de instruções assinados pelos melhores pediatras do mundo nos socorrem quando as dúvidas se abatem sobre a nossa capacidade e preparação para sermos pais, assim como as palavras experientes dos avós também não surtem o efeito desejado perante a insegurança evidenciada. Os segundos filhos agradecem esta condição de segundo plano porque pressentem que somos menos exigentes e mais condescendentes em comparação com o irmão mais velho, consequência de recuperarmos a nossa confiança, o que se reflete a favor de toda a família.

E o terceiro? Afinal, o que acontece quando chega um terceiro filho ao equilíbrio perfeito de dois para dois? A dinâmica relacional está matematicamente proporcional à condição de pais e à de filhos. Tudo se encaixa no número par (2): a distribuição pelos quartos da casa; o carro que transporta 3, também transporta 4; as mãos disponíveis para se dar aos filhos numa ida ao parque a solo; os colos prontos para serem ocupados, quando estão cansados ou com uma birra, são os suficientes; a dimensão da cama dos pais ainda permite a visita de um ou dois “forasteiros” do quarto vizinho, etc. Eu diria que a vinda do segundo filho estabiliza todos os elementos da família e acrescenta muito a cada um de nós, principalmente ao irmão, que estava em minoria.

Mas o terceiro… Começa pelo facto de o segundo passar a ser o do meio, algo que começa por afligir muitos pais, que anteveem para ele a síndrome do “filho--sanduíche”, sem compreenderem que muito do que irá definir o crescimento e a personalidade do filho do meio será, à semelhança dos outros dois, o envolvimento dos pais à medida que os anos passam e a atenção que damos à relação entre os irmãos, que nem sempre é pacífica.

Muito se escreve sobre a genialidade deste filho, ou sobre a desgraça que se abate sobre ele quando nasce mais um irmão, ou como os pais se concentram mais nos filhos das pontas do que no do meio, deixando-o à mercê do acaso. Até pode acontecer em certas realidades, mas não nas que conheço. No meio está a virtude: aquele que vê o seu futuro projetado no irmão mais velho, mas que é frequentemente recordado do seu recente passado. Não há filho que tenha mais consciência de quem é e de onde está do que o filho do meio. Por vezes, incorre na tentação de exigir o mesmo tratamento que o irmão mais velho tem e querer usufruir dos mesmos direitos, esquecendo que ainda não os alcançou por direito, mas facilmente irá beneficiar dos mesmos ainda mais cedo, porque já aprendeu a fórmula para os alcançar. Tem no horizonte os direitos que ambiciona, esquecendo que estão associados a deveres que deve cumprir.

Confirma-se o seu espírito voluntarioso para agregar todos à sua volta, simplesmente porque gosta de partilhar a sua satisfação em estar com quem gosta e se delicia com a confusão inerente às multidões, sempre com um sorriso disponível para todos. Ou não conhecesse esta realidade desde que nasceu; afinal, nunca esteve sozinho.

Quando nasceu o meu terceiro filho, dentro da minha cabeça colei milhões de post-its amarelos para não me esquecer do filho do meio. Como se fosse possível esquecer-me de um filho… desdobrava-me em três, como se cada um fosse filho único, tal era o meu receio de não estar à altura de superar um desafio tão complicado pela sua subtileza e discrição. É que os efeitos deste esquecimento só surgem para nos atormentar muito mais tarde, dizem, quando já não podemos fazer nada para alterar o que foi ficando.

Não sei se a prova foi superada, mas todos os dias tenho sentido que este filho, o tal que é o do meio, só tem este título porque nasceu depois do primeiro e antes do terceiro. Acima de tudo, a sua personalidade tem vingado tal e qual uma planta vai fincando as suas raízes na terra, respeitando os que estão à sua volta com uma dedicação e amizade pouco comuns nesta idade. Se ser filho do meio é o que vejo todos os dias, então faz sentido haver um dia consagrado a estes descendentes – 12 de agosto.

Não há favoritismo nestas palavras, há reconhecimento das dificuldades que se superam e que estão ao alcance de nós, pais, quando nos comprometemos em desempenhar a profissão mais árdua desta vida, que é também a mais incerta nos seus resultados. E há agradecimento por ir recebendo o retorno do que fui ensinando, apesar dos erros que se cometem. A vida é isto: a soma do que de bom acontece, subtraindo o menos bom, e ainda assim o saldo ser positivo.

 

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