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Huawei. Proximidade do poder político chinês é vista como ameaça à segurança

Huawei. Proximidade do poder político chinês é vista como ameaça à segurança

Matthew Lloyda / AFP António Rodrigues 13/12/2018 22:29

A filha do fundador da Huawei foi detida em mais um episódio da guerra comercial EUA-China. A empresa tecnológica chinesa é vista como uma das lanças do poder político chinês 

A Huawei representa um perigo para a segurança, assim diz a comunidade de inteligência ocidental. Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia já baniram a empresa de participar na sua rede de 5G, o Reino Unido está a pensar fazê-lo. O chefe da espionagem australiana, Mike Burgess, classificou a empresa chinesa como “um vendedor de equipamento de alto risco”.

A empresa nega a ligação ao governo da China, garante que nunca foram apresentadas provas de que teria funcionado ou poderia vir a funcionar como cavalo de Troia do poder chinês e sempre referiu que o seu fundador, Ren Zhengfei, nunca negando ter sido oficial do exército chinês, não mantém atualmente qualquer ligação às forças armadas.

Só que, depois, veio a detenção em Vancouver da diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, devido a um mandado de captura internacional emitido pelas autoridades dos EUA por violação do embargo ao Irão, e os protestos de Pequim foram de Estado, estridentes, belicosos, referiram a violação de direitos humanos, e o diretor do “Global Times”, jornal público, escreveu em editorial que “podemos certamente encarar a prisão de Meng Wanzhou pelos EUA como uma declaração de guerra contra a China”.

A Huawei tornou-se um gigante das telecomunicações, tendo destronado a Apple do segundo lugar entre as maiores empresas de telemóveis, atrás da Samsung. Os seus smartphones e laptops foram considerados como os melhores em 2018. E está na liderança do desen-volvimento da tecnologia 5G com os seus 80 mil engenheiros e 13 mil milhões de dólares (11,4 mil milhões de euros) de investimento anual em investigação e desenvolvimento.

“Historicamente, protegemos a informação e funções sensíveis no âmago das nossas redes de telecomunicações restringindo os vendedores de equipamento de alto risco às franjas das nossas redes. Mas essa distinção entre o centro e as margens desaparece nas redes de 5G. Isto quer dizer que uma potencial ameaça em qualquer lugar da rede será uma ameaça a toda a rede”, explicou Burgess recentemente, no jantar sobre segurança nacional do Instituto Australiano de Política Estratégica, citado pela imprensa australiana.

O governo da Austrália é um dos que decidiram, em agosto, impedir que a Huawei e a ZTE, outra empresa de telecomunicações chinesa, possam fornecer equipamento para a rede de 5G do país.

A ZTE Corporation - tal como a Huawei, com sede na cidade cantonesa de Shenzhen - aceitou pagar uma multa de mil milhões de dólares (877,1 milhões de euros) nos EUA, no princípio deste ano, por vender equipamento à Coreia do Norte e Irão, violando as sanções norte--americanas. A empresa chinesa mudou o conselho de administração e a direção, permitindo ainda que os reguladores norte-americanos passem a monitorizar as suas operações.

“Há imensas evidências que sugerem que nenhuma grande empresa chinesa é independente do governo chinês e do Partido Comunista - e a Huawei, que o governo e os militares chineses consideram uma ‘campeã nacional’, não é exceção”, afirmaram os senadores norte-americanos Mark Warner e Marco Rubio, numa carta escrita ao primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, em outubro. A missiva pedia ao chefe do governo canadiano que mantivesse a Huawei fora da rede de telecomunicações da nova geração.

“Temos de decidir até que ponto nos sentiremos confortáveis com a propriedade chinesa dessas tecnologias e plataformas num ambiente em que alguns dos nossos aliados assumiram posições muito definitivas”, referiu, na semana passada, o diretor do MI6, os serviços de inteligência externos do Reino Unido. Num raro discurso público, na Universidade de St. Andrews, na Escócia, Alex Younger alertou para a ameaça cada vez maior que a Huawei representa. Sobretudo porque a forma como o executivo chinês encara a questão da proteção de dados mostra “que são capazes de utilizar e manipular conjuntos de dados numa escala que nós nem fazemos ideia”, acrescentou, citado pelo “Business Insider”.

Os EUA encaram a Huawei como ameaça já há algum tempo. No princípio deste ano, a operadora de telemóveis Verizon e a empresa de telecomunicações AT&T recusaram-se a armazenar telemóveis da marca chinesa. Em fevereiro, os líderes das três agências de inteligência recomendaram que o seu equipamento não fosse usado. E, em agosto, o presidente Donald Trump assinou o Defense Authorization Act, que inclui uma cláusula que impede os funcionários da administração norte-americana e os seus empreiteiros de utilizarem smartphones ou laptops da empresa chinesa. 

“A ameaça é legítima, tendo em conta as ligações obscuras entre a Huawei e as autoridades chinesas”, refere Timothy Heat, analista de defesa internacional da RAND Corporation, citado pelo site especializado em tecnologia Tech.Co. “O Estado chinês tem a autoridade de exigir às empresas como a Huawei que entreguem informação útil ou permitam acesso a comunicações e tecnologias detidas e vendidas pela Huawei. As autoridades chinesas podem utilizar esta informação e acesso para facilitar atos de espionagem ou ataques cibernéticos através da tecnologia da Huawei”, explica.

A Huawei é uma das empresas do programa de financiamento 863, criado em 1986 pelo governo chinês para desenvolver as capacidades tecnológicas do Exército Popular de Libertação, e continua a receber investimento público para de-senvolver sistemas aplicáveis a fins civis e militares. Nomeadamente, participa no desenvolvimento da tecnologia 5G pensando em aplicações militares.

A empresa criada por Ren Zhengfei não está só nesta colaboração. Muitas outras do setor tecnológico fazem parte do chamado “triângulo digital” composto pelas tecnológicas, as infraestruturas de investigação e desenvolvimento e de financiamento do Estado e o exército popular.

O “desenvolvimento integrado” tem sido uma das bandeiras do presidente Xi Jinping desde que chegou ao poder, em 2012. A ligação entre a indústria civil e militar tem-se estreitado, fazendo parte de quase todas as grandes iniciativas estratégicas do governo chinês desde então.

Em janeiro de 2017 foi mesmo criada a Comissão Central para o Desenvolvimento Civil e Militar Integrado, destinada a coordenar os esforços de inovação comuns ao setor civil e militar. Na sua liderança, Xi colocou uma figura importante na hierarquia do Estado, o vice-primeiro-ministro Zhang Gaoli, numa demonstração da prioridade que o governo dá a esta ligação. As duas principais lanças deste esforço são dois importantes centros de desenvolvimento militar, a China Aerospace Science and Technology Corporation e a China Electronic Technology Corporation.

É preciso dizer que a China não está sozinha nesta ligação da indústria da defesa a projetos civis, Estados Unidos e Rússia também procuram cada vez mais fomentar o financiamento de projetos com aplicação dual, civil e militar. No entanto, o setor privado na China não funciona da mesma forma que o setor privado no Ocidente. Por exemplo, todas as companhias são obrigadas por lei a integrar comités do Partido Comunista Chinês, que funcionam como elementos de pressão e de monitorização do poder político. Além disso, à Huawei foi dado o título de “campeã nacional”, classificação reservada às empresas “que ajudam a aprofundar os objetivos estratégicos do governo”.

O governo chinês depende de empresas como a Huawei, a ZTE e outras para monitorizar os potenciais inimigos do Estado no exterior, bem como para manter atualizados os seus esforços para controlar a informação que circula internamente, aumentar o seu poder de vigilância e antever possíveis dissidências.

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