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Idles. “A política também é quem somos, como agimos, o que comemos e que bandas ouvimos”

Idles. “A política também é quem somos, como agimos, o que comemos e que bandas ouvimos”

Davide Pinheiro 12/12/2018 23:02

Na banda rock vital de 2018, a visceralidade tanto provém da massa ruidosa de som como do discurso preocupado. Os Idles explicam porquê

Os Idles passaram por Portugal e deixaram um rasto de destruição construtiva. O quê?! Semanas antes de os coletes amarelos rebentarem a bolha da revolta nos Campos Elísios, o centro de uma das velhas capitais de civilização, e expressarem um tipo de violência sem direita, nem esquerda a lubrificar a inquietação, a banda rock desinquietante que no álbum “Joy Is An Act of Resistance” contraria os habituais problemas de primeiro mundo da burguesia reinante na música elétrica e aborda temas como a precariedade, as desigualdades sociais e os vícios sistémicos dos poderes instituídos explicou de onde vem tudo isto horas antes de subir ao palco do Lisboa Ao Vivo para um vendaval de rock de combate que, como raras vezes se ouviu neste século, dá para suar mas também para refletir seriamente. No autocarro que transporta a banda pela Europa, o vocalista Joe Talbot e Mark Bowen, um dos guitarristas, são os líderes desta mensagem. 

O que é que move as canções do “Joy Is An Act of Resistance”?

Mark Bowen - Falamos de coisas que acontecem no nosso dia a dia. Questões que nos afetam e preocupam. Não cantamos sobre futebol porque não estamos interessados. Não temos canções sobre o James Bond porque não estamos interessados. É por isso que as canções são socialmente empáticas com as preocupações das pessoas.

Joe Talbot - Quando começámos a banda, eu e o nosso baixista Devon (Adam Devonshire), apercebemo-nos que, em todas as noites a que íamos, ninguém queria saber da música. E as bandas eram uma merda. Então, começámos uma banda para preencher esse vazio e fazer música que tivesse atitude, intencionalidade e energia. Música humanizada que fizesse a diferença nas pistas de dança e na cabeça. Sentimos que era possível fazer música dançável e racional. 

Inspiraram-se em alguém?

JT - É complicado responder. O nosso ponto de partida foi: após o surgimento de bandas incríveis como os Strokes ou os Interpol, tornou-se tudo muito vácuo e efémero, como em qualquer movimento ou cena musical. Por isso, a inspiração foi o vazio de bandas que nos excitasse e excitasse os nossos pais. Bandas como os Joy Division e os U2 do início.

Bandas como os Strokes vinham da classe média alta nova-iorquina e não tinham “problemas” nas canções. Não é o vosso caso.

JT - A nossa inspiração, se procuras um ângulo lírico ou filosófico para as nossas motivações, são os nossos pais. As nossas filosofias e ideologias vêm de casa. Posso falar por muitos de nós na banda: vimos de um bom ambiente caseiro em que as conversas eram sobre bem-estar e felicidade, como as nossas atitudes influenciam as outras pessoas no nosso país, e por aí fora. A nossa inspiração são as conversas e a aprendizagem. Não estamos interessados em comparações nem em ser os próximos “qualquer coisa” porque somos apenas quem somos. Não nos vejo a ser “a banda do momento”. Somos apenas pessoas a fazer a música que gostam e a falar com honestidade sobre o que nos rodeia no presente. Não que não haja gratificação em música pop que não fala de política - tudo é importante e também há coisas que ouvimos e gostamos.  A política não se resume aos partidos e às decisões que afetam as infraestruturas; a política também é quem somos, como agimos, o que comemos, que bandas ouvimos e as relações com os nossos pares. Estamos a tentar apenas a tentar viver o momento e aproveitá-lo em prol de um futuro melhor. 

Em que ambiente cresceram?

JT - O meu pai é artista. A minha mãe trabalhava num supermercado. Antes, trabalhou no escritório de uma empresa de táxis. Já morreu. Cresci num ambiente estável de classe média. A minha infância foi linda. Divertida. A adolescência péssima. Horrível. Entediante. Cresci numa cidade segura de classe média sem nada para fazer. Nenhum pensamento criativo. 

MB - A minha mãe é professora de arte e o meu pai dentista. Cresci num ambiente muito parecido com o do Joe. Classe média confortável e interessada.

JT - Acho que posso falar pelos dois. O pensamento político dos nossos pais surge do facto de virem de uma classe operária muito dura de sítios desfavorecidos como Newport e Belfast. Cidades onde não se queria estar nos anos 60 e 70. Eles trabalharam muito para dar melhores condições à família. O vir do nada, trabalhar no duro e conquistar alguma coisa para oferecer uma vida melhor aos filhos deu-nos uma perspetiva que nos permitiu compreender quão privilegiados somos e canalizar esse privilégio para algo melhor. E também perceber que há injustiças profundas no equilíbrio socioeconómico do nosso país. Tentar mudá-las vem dos nossos pais. 

Como é que sentem perante o país que votou pelo Brexit?

JT - Como é que me sinto? Assustado. É um país aterrorizador para se viver em termos de incerteza. Sinto que não posso confiar no Partido Conservador e também não tenho a certeza que possa confiar no Partido Trabalhista, em que votei toda a minha vida. O Brexit é insano, inacreditável. A pior decisão.    

Têm alguma explicação?

JT - Muita gente de esquerda subestimou o poder do medo e do racismo. Os meios de comunicação e o Partido Conservador alinharam-se num sentido. As pessoas querem mudar. Há uma grande recessão, o que fez com que as pessoas com menos dinheiro tivessem que trabalhar mais por menos. Há muitas razões, mas a principal é a deceção geral.

Acredita numa reação?

JT - A Grã-Bretanha é muito apática enquanto nação. As pessoas não são muito ativas nos protestos e a esperança também está a desaparecer mas, de momento, não há como agir porque ninguém percebe o que se está a passar. O que é que se pode mudar numa campanha para confundir, baseada em mentiras? É impossível combater mentiras porque são apenas palavras. Ninguém sabe, nem no nosso país na Europa.  

No passado recente, o combate, na música, passou, por exemplo para os rappers e outras vozes fora do rock, até como produtores. Porque é que escolheram ser uma banda de rock?

JT - Porque era o que tínhamos e é o que gostamos. Cresci a ouvir hip-hop mas não quero rappar. Acho que o som das guitarras nos escolheu.

MB - Mais do que [o tipo de] música, o que queremos é uma troca visceral com o público. Não é impossível, mas é mais difícil como DJ ou produtor. Seríamos um terrível coletivo de cinco DJ. Como banda, a troca é muito mais produtiva. Não somos necessariamente uma banda de rock. Somos uma banda. Não é muito útil categorizar-nos. 

Estão a viver o momento mas até onde querem chegar?

JT - Queremos apenas ser melhores. Não ignoramos que estamos a crescer mas o nosso foco é a música. Estamos aqui para mudar a narrativa.
 

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