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Marcelo. 70 anos de vida e outro tantos de política

Marcelo. 70 anos de vida e outro tantos de política

Filipa Traqueia 12/12/2018 14:59

Esperava pelo pai na antecâmara de António de Oliveira Salazar e chegou a Belém para revolucionar a relação do Presidente com a população. Pelo caminho, vai deixando selfies – ou ‘marselfies’.

Dizer que a política lhe corre no sangue não é falso. Marcelo Rebelo de Sousa celebra esta quarta-feira 70 anos. Sete décadas de um presidente que mudou a relação com os portugueses.

Nascido a 12 de dezembro de 1948, filho de Baltazar Rebelo de Sousa e de Maria das Neves Duarte, Marcelo seguia os passos do pai na antecâmara do gabinete de António de Oliveira Salazar quando este governava o país. O pai era então sub-secretário de Estado da Educação e a política terá feito parte da vida de Marcelo desde muito cedo.

E se a política veio do lado do pai, o afeto e o carinho por que hoje em dia é conhecido terá o toque da mãe. Assistente social de profissão, Marcelo recorda-a como uma pessoa “muito inteligente”, “muito intuitiva” e muito próxima das pessoas. Maria das Neves trabalhava diretamente com crianças com deficiência em bairros problemáticos, nomeadamente no Casal Ventoso, o que “fez dela uma pessoa que juntava o abstrato e o concreto, a compreensão pessoal com o sentido comunitário”, contou Marcelo ao Sol numa homenagem no âmbito do dia da Mãe.

Quando Baltazar Rebelo de Sousa foi convidado para ser governador geral de Moçambique, em 1968, os pais e os irmãos mudaram-se para o continente africano, mas Marcelo ficou em Portugal. Seguindo uma formação católica desde cedo – participando até na Ação Católica Portuguesa –, Marcelo acabou por cursar Direito, licenciando-se em 1971 e terminando o doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas, em 1984, pela Universidade de Lisboa. O seu percurso iria trazê-lo, mais tarde, de volta ao auditório antigo daquela que considera a sua universidade, onde este ano deu a última aula.

Foi também na altura de faculdade que Marcelo Rebelo de Sousa travou amizade com António Guterres – que viria a ser um grande amigo e um grande adversário. Conheceram-se através de amigos em comum e chegaram mesmo a fundar em 1970, juntamente com o padre franciscano Vítor Melícias e outros estudantes, o Grupo da Luz – um grupo que se aproximava dos jovens tecnocratas que Marcello Caetano tinha levado para o governo e que mais tarde se havia de juntar na SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, conhecida como uma ‘incubadora’ de políticos.

 

Político, comentador, candidato e Presidente

Depois da revolução do 25 de Abril, Marcelo foi assistindo e comentando um Portugal em mudança: O PREC, o Verão Quente, a chegada de Sá Carneiro a São Bento... Era então colunista no semanário Expresso e aos 31 chegou  à direção do jornal – mesmo depois de ter escrito um artigo de opinião intitulado “Balsemão é lelé da cuca”. No seu primeiro editorial garantiu que “nem um milímetro sequer se afastará o Expresso das linhas orientadoras da sua política editorial”. Foi também colunista no jornal Sol, quando este foi fundado, onde fazia um comentário diário a cada semana.

Apesar de ter traçado um caminho como comentador, a política continuaria a aquecer-lhe o sangue. Marcelo mergulhou na corrida à Câmara de Lisboa e no rio Tejo, num momento que ficou para a história: o então candidato entrou nas águas do rio que na altura era considerado um dos mais poluídos da Europa. O momento foi de tal forma ameaçador para o PS a nível político, que os socialistas chamaram de urgência o candidado do partido à câmara da capital. Jorge Sampaio estava na altura nos Estados Unidos com os filhos e veio para Portugal para fazer controlo de danos na candidatura. As autárquicas desse ano não lhe correram da melhor forma e foi Sampaio quem saiu vitorioso. Mas um novo desafio avizinhava-se. Marcelo como líder do PSD.

“Nem que Cristo desça à Terra!”, tinha dito Marcelo dois anos antes, mas, na verdade, não foi preciso Cristo para que Marcelo assumisse as rédeas dos sociais-democratas. Enquanto líder da oposição apoiou alguns dos orçamento de Guterres, na altura primeiro-ministro, mas tentou criar uma Aliança Democrática 2.0 com Paulo Portas, líder do CDS na altura. A 26 de março de 1999, Marcelo assumia “plenamente” a responsabilidade “pelo fracasso do projeto”.

A sua veia de comentador pulsou mais forte ao decidir entrar para a TVI, pouco mais de um ano depois de ter abandonado a tentativa de parceria com Portas. Esteve dez anos a comentar  atualidade – política e não só – tendo trocado em 2004 o canal privado pela RTP. Voltaria à estação de Queluz de Baixo em 2010, tendo abandonado definitivamente o espaço de comentário a 9 de outubro, três meses antes das eleições presidenciais. Estas, venceu-as com 52%.

Desde então a sua vida não tem parado – e o facto de ter ‘limpado’ a agenda para o dia de aniversário é uma exceção. Esteve nos bons e nos maus momento: em Pedrógão consolou a população, condecorou a seleção nacional depois da vitória do Europeu, manteve-se atento ao caso de Tancos, homenageou Salvador e Luísa Sobral pela conquista do Festival da Eurovisão com a música “Amar pelo dois”. Já este ano, foi a Borba numa visita relâmpago e nem a saúde o fez parar. Quando foi operado a uma hérnia discal, Marcelo aproveitou o tempo de recobro para promulgar quatro diplomas.

“Eu gostaria de ser lembrado por esta ordem: primeiro por ter sido um bom pai, um bom avô. Em segundo por ser um bom professor. Depois, sendo caso disso, ter cumprido esta missão [de Presidente da República] o melhor que me é pedido”, disse Marcelo aos alunos da escola secundária de Camarate, durante uma aula aberta. Sobre o futuro, pouco fala e nem uma possível recandidatura está já posta em cima da mesa.

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