6/12/19
 
 
Maria Helena Magalhães 12/12/2018
Maria Helena Magalhães

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Portugal nos óscares do turismo, e…

Se somos campeões mundiais no turismo, no campeonato da desigualdade social também temos direito a troféu

Portugal foi distinguido, pelo segundo ano consecutivo, como o melhor destino mundial de turismo, e arrecadou mais dezena e meia de prémios, noutras categorias, nos World Travel Awards, conhecidos como os óscares do turismo. Magnífico! A todos nos deve orgulhar, mas…

Neste caso, o “mas” tem a ver com o facto de isso poder ser o melhor do mundo para quem vem de fora, e não tão encantador para quem cá vive. Não que isto valha para todos os portugueses, pois, se somos campeões mundiais no turismo, no campeonato da desigualdade social também temos direito a troféu. O relatório do Observatório das Desigualdades publicado este mês dá conta de que a distribuição do rendimento permanece “bastante assimétrica”: se compararmos os 20% mais ricos com os 20% mais pobres, o nível de desigualdade é significativo; porém, se a comparação for entre os 10% da parte superior e inferior da distribuição, o nível sobe consideravelmente. Ineludível!

Serve este relambório para reforçar a tese de que o plano de recuperação de rendimentos em curso devia estugar o passo. De tão arrastado, começa a gerar sinais evidentes de impaciência: veja-se o crescendo de reivindicações laborais, face visível de um descontentamento popular ainda contido, porém larvar. É aí, nesse espaço embrionário, que começam a germinar sentimentos de insatisfação, quiçá de revolta, e os arautos insidiosos do populismo, e dos extremismos acoplados, acampam. É porque estamos nesse “ainda” que cá não chegou o movimento dos “coletes amarelos”, mas nunca fiar… Por essa Europa fora, a austeridade cavou desigualdades e desilusão. Desilusão dos que perderam regalias e dos que as almejavam, expectável no contexto da mobilidade social a que legitimamente os povos aspiram.

Voltando ao turismo, é óbvio que os prémios que nos têm calhado em sorte não são apenas fruto de políticas acertadas. Os campeões são os portugueses! São as pessoas e a sua bonomia, são as terras e os seus costumes, são os lugares e a sua beleza natural. Não há estrangeiro que, quando interrogado, não refira a simpatia do povo e a gastronomia. Ora, isso é coisa de gente! De gente sem voz, mas com genica e bem amarrada ao seu torrão. É o caso das Terras do Barroso, aquelas que recentemente a FAO classificou como Património Agrícola Mundial, que estão ameaçadas pela corrida ao lítio: uma empresa australiana prepara-se (?!) para iniciar a prospecção de lítio numa mina a céu aberto em Covas do Barroso. O povo anda em polvorosa. Pediram-lhes autorização para entrar nas terras, sem lhes explicarem em rigor ao que vinham, e eles, de boa-fé, assentiram. Eis senão quando os campos aparecem esventrados, há ruído e máquinas em movimento, acaba-se a boa paz. Os aldeãos, nestas paragens maioritariamente idosos, vivem do que tiram da terra e da criação de gado, o famoso barrosão. Gente de parcos haveres, todavia rica em recursos naturais. Aqui, só a passarada corta o silêncio dos dias que se escoam devagar, na cadência de vidas vividas ao sabor do tempo e dos mandos da natureza. Corre online uma petição pública cujo objectivo é exigir dos governantes ponderação e recato na alienação do território e do destino destas gentes.

A bem de todos e do turismo!

 

Gestora

Escreve quinzenalmente, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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