15/12/18
 
 
Marta F. Reis 07/12/2018
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Um unicórnio de 280 euros no sapatinho

Deve fazer parte da magia do Natal achar normal haver publicidade na televisão a brinquedos com preços proibitivos...

Até há brinquedos giros, o problema começa um bocado por aí. Dizemos que não e que vai ser tudo ultrapedagógico mas, depois, aquela cozinha de brincar cheia de apetrechos até ficava bem no quarto, aquela carrinha de fazer glosses é uma delícia, o macaquinho que se pendura no dedo, idem, e vê-los abrir com entusiasmo aquelas gavetas todas das bonecas do tipo “LOL” para ver o que lhes calhou – quem inventou esta moda dos bonecos colecionáveis deve estar milionário – tem alguma piada. Uma vez.

O Natal, com brinquedos por todo o lado, é uma tentação para os miúdos e também é um bocado para os pais. Dito isto, há algo de muito pouco razoável a passar-se com os preços de alguns brinquedos da moda, o que, juntando à competição louca das lojas – que vão brincando aos descontos durante o Advento (e até antes) –, torna esta caminhada até ao Natal mais um desafio para quem tem crianças por perto.

Confesso que nunca me tinha apercebido disto mas, agora que a minha filha mais velha já “escreve ao Pai Natal” – aos três anos, anda há semanas a fazer pela primeira vez um pedido específico de prenda –, acho que podia haver pelo menos algum controlo no tipo de brinquedos que se anunciam na televisão. É verdade que também há anúncios de carros de topo e relógios de luxo, mas, aí, o público-alvo são adultos. Aqui também são, mas através das crianças: as marcas e os canais – sobretudo os infantis – podiam ser um pouco mais responsáveis.

Depois de me ter tornado especialista em descontos e de ter conseguido a boneca “que anda, fala e faz xixi” a metade do preço – não foi assim tão fácil, mas tornou aceitável comprar uma boneca que vimos pela primeira vez à venda no supermercado a 65 euros –, esta semana, a minha filha, que até ainda nem liga muito a publicidade, ficou encantada com um anúncio. Na televisão, uma menina passeava com o seu unicórnio em tamanho grande, de crina comprida e com uma sela. “Já não quero a boneca que fala, faz xixi e anda”, ouvi pela primeira vez. “Quero aquele unicórnio.”

Lá lhe disse que o Pai Natal já tinha comprado a prenda, até porque não me senti particularmente inspirada pela perspetiva de ter um unicórnio em casa. Mas a vida tem destas coisas e, no dia seguinte, esbarrei com o unicórnio no supermercado (felizmente estava sozinha, que esse é outro problema desta altura do ano – e das outras todas em que metem brinquedos na linha das caixas de pagamento para que os pais tenham sempre um potencial motivo extra de birra). Já tinha achado surreal haver brinquedos da Patrulha Pata e afins a centenas de euros, a carrinha de glosses a 50, bonecas a 60 euros (bonecas normais, não é bonecas com inteligência artificial). Mas o unicórnio que nos tinha entrado casa dentro custava nada mais nada menos que 279,99€. Com desconto de 35%, ficava a 181,99€.

Deve fazer parte da magia do Natal achar normal haver publicidade dirigida às crianças com brinquedos a estes preços num país onde o salário mediano anda na casa dos 800 euros. Claro que podemos simplesmente dizer não, explicar-lhes que é caro, mas haverá justificação até para estes preços como ponto de partida, sobretudo depois, quando é possível encontrar os brinquedos à venda com um desconto de quase uma centena de euros?

Estava a minha indignação do unicórnio a serenar quando apanhei outra pérola natalícia nos blocos de anúncios, esta de uma cadeia de lojas. A publicidade parece ser dirigida a familiares de jovens e reza assim: “Nunca fomos tão consumistas, muitos acreditam que o espírito de Natal está algures soterrado numa montanha de embrulhos. Mas não vamos pôr os presentes todos no mesmo saco. Por alguma razão nunca ouvimos dizer: ouvi demasiada música. Este ano dá-lhes mundo com o telemóvel xpto (salto a marca) por 1049,99€.” Se o objetivo for dar mundo, com mil euros já dá para financiar um grande interrail. Se calhar até dois, mas cada um sabe de si.

 

Jornalista

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