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EUA. Descendentes de família judia disputam obra de Pissarro com Thyssen-Bornemisza

EUA. Descendentes de família judia disputam obra de Pissarro com Thyssen-Bornemisza

Mariana Madrinha 05/12/2018 23:52

Há 79 anos, Lilly Cassirer Neubauer viu-se forçada a vender ao desbarato um quadro de Camille Pissarro para escapar ao Holocausto. A pintura acabou por ser adquirida pelo Estado espanhol. Agora, os descendentes da antiga proprietária querem reavê-la

Começa já amanhã em Los Angeles, Califórnia, um julgamento peculiar que opõe o estado espanhol aos descendentes de Lilly Cassirer Neubauer, uma mulher judia que fugiu com a sua família da Alemanha nazi para os Estados Unidos. No centro da disputa, uma obra prima: “Rue Saint-Honoré à Tarde. Efeito da Chuva”, quadro que Camille Pissarro pintou em 1897 e que está há 25 anos pendurado nas paredes do Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, em Madrid.

A história começa a contar-se há 79 anos, quando Lilly foi obrigada a vender o quadro do mestre francês ao desbarato a um oficial nazi para assim conseguir escapar aos campos de concentração. Troca feita, Lilly e a sua família conseguiram fugir para Inglaterra.

Os Cassirer refizeram a vida nos Estados Unidos. E a obra-prima - que originalmente tinha sido adquirida pelo padrasto de Lilly, Julius Cassirer, ao próprio agente de Pissarro um ano após o quadro ser pintado - iniciou uma jornada épica, tendo trocado várias vezes de mãos e chegando, inclusivamente, a ser dada como desaparecida.

Em 1958, treze anos após o fim da II Guerra Mundial, o governo alemão pagou uma indemnização de cerca de 13 mil dólares à família Cassirer que, não sabendo do paradeiro do quadro, estava convicta da sua destruição. Problema: o quadro não só foi reencontrado como acabou por fazer parte do acervo de um dos mais importantes museus espanhóis. E aqui, antes de prosseguirmos com a história, é importante apontar que este é um dos argumentos do museu madrileno, que agora alega que a família, ao aceitar a compensação financeira em 1958, perdeu o direito à propriedade; além disso, afirma que a compra efetuada pelo barão obedeceu a todos os critérios de transparência e foi feita de boa fé. Por sua vez, os Cassirer contrapõem que apenas aceitaram o dinheiro porque lhes foi dito que o quadro se tinha perdido e que, como tal se revelou errado, exigem a sua restituição.

Segundo a “Bloomberg”, que teve acesso ao processo, o quadro reapareceu em “1951, quando um negociante de arte de Beverly Hills e antigo militar colocado na Alemanha o adquiriu em Munique”, tendo depois sido adquirido pelo barão Hans Heinrich Thyssen-Bornemisza em 1976.

 A famosíssima coleção foi depois vendida pelo barão ao Estado espanhol em 1993, dando assim corpo - e nome - ao Museo Nacional Thyssen-Bornemisza. A vista pintada por Pissarro é um dos quadros que, há 25 anos, faz parte da galeria de impressionistas do museu. 

O bisneto de Lilly, que hoje vive em San Diego, na Califórnia, explicou que só em 1999 a família soube do paradeiro do quadro, quando um amigo do seu pai viu o catálogo do museu. Desde então que os descendentes da antiga proprietária tentam reaver o quadro. Primeiro pediram uma devolução, que lhes foi negada. Processaram então o museu espanhol - o caso chegou pela primeira vez à barra dos tribunais em 2005 pelas mãos de Claude Cassirer, neto de Lilly, que morreu em 2010. “Esta questão é de uma importância crítica não apenas por se tratar de corrigirmos erros terríveis que tiveram na sua origem a perseguição nazi aos judeus, mas também porque servirá para estabelecer princípios que são muito importantes para o que se está a acontecer, de momento, no mundo”, disse David Boies, advogado dos Cassirer, citado pela “AP”.

O processo já tinha sido arquivado, por duas vezes em 2012 e 2015, mas foi reaberto à terceira tentativa após uma decisão de um tribunal de recurso norte-americano. O advogado está esperançoso, até porque há precedentes recentes, os dois vindos de França. Em fevereiro, o país devolveu o chamado “Tríptico da Crucificação” do pintor flamengo Joachim Patinir (1483-1524) aos descendentes de Herta and Henry Bromberg, um casal de judeus que também foi obrigado a vender os quadros em 1938 para fugir da Europa. Em 2016, o país já tinha devolvido à mesma família um retrato atribuído a Joos van Cleve (1485-1541) ou ao seu filho. 

“Se os queixosos prevalecerem, será uma das recuperações mais elevadas de sempre num processo de arte roubada”, disse à “Bloomberg” Nicholas O’Donnell, advogado especialista em disputas de arte. E não é para menos: por estes dias, o quadro está avaliado em 30 milhões de dólares.

Em tribunal, a família terá que provar esta quinta-feira que o barão Thyssen-Bornemisza estava ciente da proveniência do quadro quando o adquiriu. O que não será fácil: o barão, que morreu em 2002, era um dos mais respeitados colecionadores de arte do mundo. Por outro lado, há provas que talvez consigam furar este colete - e talvez o mais gritante seja parte de um carimbo da galeria da família Cassirer, nas costas do quadro, o que prova que a pintura esteve em Berlim. 
 

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