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Bahrein. A indisfarçável pobreza do futebol dos Jardins do Éden

Bahrein. A indisfarçável pobreza do futebol dos Jardins do Éden

Afonso de Melo 05/12/2018 22:04

Um campeonato desinteressante de uma ilha minúscula do golfo Pérsico (706 km2) não deixou de atrair jogadores e treinadores portugueses, como foram os casos de Russiano, José Coelho, Jaime Bragança ou José Garrido

 

MUHARRAQ - Estranhos são os ritmos árabes deste futebol que não consegue deixar de estar marcado pela divisão entre xiitas e sunitas, aqui onde Camões descobria a luta pelo brilho das pérolas.

“Ali do sal os montes não defendem/ De corrupção os corpos no combate/ Que mortos pela praia e mar se estendem/ De Gerum, de Mazcate e Calaiate/ Até que à força só de braço aprendem/ A abaxar a cerviz, onde se lhe ate/ Obrigação de dar o reino único/ Das perlas de Barém tributo rico”. Ah, pois! As pérolas. Sempre nos deixámos atrair por elas até fundarmos, no delta do Rio das Pérolas, a Cidade do Santo Nome, lá nos confins da China. 

Numa sociedade maioritariamente xiita, não deixa de ser curioso que a família real seja sunita. Mas o Bahrein, como o mundo o conhece, ou o Barém, como os portugueses conheceram nos primórdios de 1500, é um país pequenino mas que não foge às suas especificidades que lhe alimentam a independência.

Estamos a falar de uma ilha com 706 quilómetros quadrados. Nada que permita que os campos de futebol ou de râguebi - outro dos desportos preferidos dos locais por evidente influência de uma certa classe de ingleses mais abastados que para cá vieram fazer as perfurações para a busca de petróleo e de gás - surjam por toda a parte como cogumelos ou como as torres metálicas que fazem esguichar o tal ouro tão negro como líquido. Basicamente, há três estádios que servem de palco aos jogos da Premier League, composta por dez equipas, o que já de si parece uma enormidade: o Estádio Nacional, situado em Riffa, junto à baía de Tubli, com capacidade para 30 mil espetadores (isto é, cerca de 20% da população do reino), o da ilha de Isa e o de Muharraq, verdadeiramente o bairro que é preciso visitar para quem quer levar daqui umas imagens minimamente românticas do pequeno porto de pescadores de peixes e de pérolas que era ao tempo em que os portugueses construíram o forte que ainda por cá sobrevive à custa de maiores ou menores intervenções de maquilhagem.

Mas não se reduza Muharraq apenas a modelo de fotografias e postais por via das suas casas antigas que destoam da invasão desenfreada de enormes arranha-céus espelhados que dominaram o centro de Manama. Afinal, e porque é de futebol que falamos, Muharraq é sede do Al Muharraq Sports Club, o grande açambarcador de títulos de um campeonato que teve o seu início na época de 1956-57. Como não poderia deixar de ser, o açambarcador cedo começou a sua tarefa de açambarcar. Venceu as duas primeiras edições da competição e, depois de um ano de interregno, tratou de somar mais oito títulos consecutivos. No total tem 34. 

Fundado em 1928, é um dos mais antigos clubes “jizari” (expressão que engloba a totalidade dos naturais do golfo Pérsico, agora prosaicamente Arábico), primeiro a abrir uma academia - que forneceu alguns dos nomes maiores do pobrezinho futebol nacional, como o atual capitão da seleção, Mohamed Salmeen - e pioneiro em contratar estrangeiros, embora não francamente expressivos, caso do brasileiro Dias da Silva, da Portuguesa, mais conhecido por Rico, e do bósnio Adnan Sarajic. 

Mas os portugueses não ficaram imunes ao chamado do canto das pérolas. Cá jogaram Pedro Russiano (Al Riffa), José Coelho (Al Hala), Romeu Torres (Al Hala) e Jaime Bragança (Al Riffa), e treinaram José Garrido (Al Riffa) e Bernardo Tavares, que fez parte da equipa técnica do Al Hidd.

Orgulham-se os súbditos do rei Hamad Bin Isa Al Khalifaa de serem descendentes dos Dilmun, aquele que habitavam o Jardim do Éden e são descritos na maravilhosa Epopeia de Gilgamesh, a saga poética mais antiga que se conhece. Mesmo na razoável placidez de Muharraq, cada vez mais incomodada pela proximidade do aeroporto, custa entender que tanta aridez tenha escondido, nem que fosse há milhões de anos, um paraíso luxuriante de árvores e de flores. Mas o Canto x dos Lusíadas também traz em si um ligeiro som de flautas mágicas: “Olha o Cabo Asaboro, que chamado/ Agora é Moçandão, dos navegantes/ Por aqui entra o lago que é fechado/ De Arábia e Pérsias terras abundantes./ Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado/ Tem das suas perlas ricas, e imitantes/ À cor da Aurora; e vê na água salgada/ Ter o Tígris e Eufratesũa entrada.”

A gente espreita para lá da fileira das autoestradas que se cruzam sem descanso e não pode fazer mais do que imaginar.
 

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