16/12/18
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 05/12/2018
Eduardo Oliveira e Silva

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Attention: há em Portugal muitos potenciais coletes amarelos

Os coletes amarelos não são um grupo de arruaceiros. São a classe médiae média baixa cansada de ser enganada, explorada e de sustentar marginais

1. Dá um jeitão lançar a ideia de que o movimento francês dos coletes amarelos é apenas um bando de arruaceiros. Mas não é. É verdade que o movimento popular de gente simples, normalmente honrada e trabalhadora foi infiltrado por extremistas de direita e de esquerda que originaram as cenas de recorrente violência que vimos. Mas isso é a espuma e o resultado de uma hipermediatização que tem aspetos negativos, mas sem a qual não se teriam verificado as cedências governamentais já obtidas. O que se está a passar em França não é um novo Maio de 68, à Cohn-Bendit. É o resultado de frustrações de gente que trabalha, que se esforça, que paga impostos e que é, depois, espoliada dos seus direitos por um bando de governantes que os iludiram com as suas falsas promessas. Depois de palermas como Sarkozy e Hollande, Macron é a nulidade que se segue. São protagonistas da mesma demagogia política, do discurso oco e vazio e das soluções que falham sempre. Os coletes amarelos são pessoas saturadas de ver os ricos enriquecerem, de ver os marginais beneficiados e de terem de pagar tudo. Esta Paris a arder mostra que o povo explorado, pacato, de classe média e média baixa está farto de ser penalizado e de constatar que o que lhe dão com uma mão lhe tiram a dobrar com a outra em impostos, nomeadamente indiretos, diretos e cativações (onde é que já vimos isto?).

Em Portugal há quem acredite nos permanentes brandos costumes. São os que acham que, no fundo, Salazar e a democracia que temos nos transformaram num povo dócil que ou não se pronuncia por medo ou se limita a votar de vez em quando e a achar que políticos, banqueiros, jornalistas, etc. são todos uma corja, mas nada faz em termos de contestação coletiva.

Mas cuidado com as ideias feitas. A classe política tem de ter consciência de que, por cá, também há limites que convém respeitar. Apesar de não termos as fraturas de xenofobia, racismo e marginalização que há em França, temos um país de gente triste e explorada a torto e a direito por empresários e pelo Estado. E, um dia, o barco pode virar. O final da monarquia e a i República mostraram um Portugal violentíssimo. Este povo manso também se rebelou no 25 de Abril, depois de ter sido um colono de grande dureza, por muito que queiramos aliviar as consciências. Hoje somos, em regra, pacíficos, mas quando a violência começa é difícil travá-la. Quem anda na política, na vida pública e tem responsabilidades sociais e económicas tem a obrigação de saber isso e, portanto, de evitar que haja razões para que as frustrações descambem como está a acontecer com Macron, que manifestamente é mais um erro de casting francês.

2. Já há uns tempos que não havia nota de uma argolada do ministro Siza Vieira. Pois a coisa está composta. A semana passada soube-se pelo “Observador” que o Ministério Público quer ouvir o recém-nomeado secretário de Estado Correia Neves, que trabalha junto a Siza. Isto porque a criatura foi chefe de gabinete do ministro Manuel Pinho e, como tal, é bem possível que saiba umas coisas sobre os recebimentos de 15 mil euros/mês de que este beneficiou por parte do Grupo Espírito Santo enquanto estava no governo, o que é um crime gravíssimo. Com tanta gente com capacidades para ir para o governo, logo Siza foi escolher alguém que esteve junto de Manuel Pinho, o qual ainda soma a este outros casos controversos, como o das negociações com a EDP.

3. Paulo Sande foi uma escolha surpreendente para cabeça-de-lista às europeias pela Aliança. Este assessor do Presidente Marcelo (o que está a causar algum mal-estar) tem em conhecimentos o que lhe falta em notoriedade. A campanha política ficará, pois, a cargo de Santana Lopes, que costuma ser forte no terreno. No PSD e no PS, os candidatos só serão conhecidos em janeiro, sendo certo que as cadeiras europeias são as mais disputadas da política. Potencialmente, as europeias facilitam o voto de protesto, o que as torna uma verdadeira carta fechada e perigosa para as direções políticas.

4. A campanha de Natal do Banco Alimentar foi um sucesso de solidariedade, batendo recordes. Nas iniciativas anteriores sentia-se uma tendência de ligeira queda ou estagnação. Mas desta vez foi notável. Certamente que para tal terá também contribuído o exemplo do Presidente Marcelo, que foi o primeiro a aderir à campanha, de forma generosa e arrastando consigo dezenas de jornalistas que geraram imagens que foram decisivas. Há exposições mediáticas que são altamente desejáveis e pedagógicas. E há ausências que são desoladoras, como as de António Costa, que se especializou em desaparecer e desvalorizar todos os problemas graves, como os de Borba ou os de Pedrógão, a seguir aos quais partiu para férias.

Jornalista

 

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