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4 de dezembro de 1968. E o pianista cego viu o Campo Pequeno, tijolo a tijolo

4 de dezembro de 1968. E o pianista cego viu o Campo Pequeno, tijolo a tijolo

DR Afonso de Melo 04/12/2018 23:20

Joaquín Rodrigo, compositor do “Concerto de Aranjuez”, gostava de perguntar: “Que hay de toros?” Não havia touros no Campo Pequeno, mas ele insistiu na visita. Tinha uma curiosidade fervilhante pelo local. Foi. E viu tudo como costumava fazer: pelo tato. Perdera a visão aos três anos

Aranjuez é de uma dignidade própria de um grande de Espanha, estendendo-se à beira do Tejo e do Jarama, cidade de reis e príncipes, a 50 quilómetros de Madrid, com direito a palácio real e tudo e tudo pelo meio dos campos onde florescem os morangos. Mas não, por acaso não “Strawberry Fields Forever”, antes “Concerto de Aranjuez”, escrito em Paris num poço nostálgico de um homem cego.

Eu vi Paco de Lucía agarrar-se à viola com os olhos raiados de sangue ao mesmo tempo que as batidas do seu coração iam baixando até ao ritmo do adágio. E vi aquele documentário já cinquentão de Salvador Dalí com Manitas de Plata.

Em 1939, Rodrigo estava em França, e a ii Guerra Mundial quase no fim. Ansiava sentir de novo o cheiro das hortênsias e dos gerônteos. E daquelas rosas pequeninas às quais chamam rosas de Santa Teresinha. E receber de uma brisa aquele calor seco que perpassa pela pele como um carinho de mão suave. Por isso compôs. Compôs o que estava dentro de si, da mecânica das colcheias ao que havia de tão fundo para exprimir. Compôs o “Concerto de Aranjuez”. Nunca mais voltou a ser o mesmo. E o mundo também não.

Franco, acabado de sair da Guerra Civil, sentiu que a obra de Rodrigo servia perfeitamente para fins políticos. Ora, aduelas! Uma peça dedicada aos jardins de um palácio mandado construir por um Habsburgo não iria certamente provocar a revolta de quem quer que fosse. Por isso deu-lhe aquela aura de emblema da composição musical espanhola. Como se ele precisasse. Mas ao caudilho dava jeito.

Joaquín Rodrigo dedicou o “Concerto de Aranjuez” a um virtuoso da guitarra: Regino Sainz de la Masa. Depois saiu para a rua de mão dada com a sua mulher, Victoria, e caminhou nostálgico pelas margens do Sena.

Rodrigo era um aficionado. Como Ortega y Gasset, não perdia a hipótese de questionar: “Que hay de toros?”

No final de novembro, princípio de dezembro de 1968, estava em Lisboa. E perguntou: “Que hay de toros?” Parece que não havia nada que valesse a pena ver. Bem, no caso de Rodrigo, tomara ele ver qualquer coisa, mesmo que não valesse a pena. Afinal, era praticamente cego na totalidade desde a idade dos três anos. O que não o impediu de ver os jardins de Aranjuez e de nos explicar tudo ao pormenor, nota a nota.

A verdade é que Joaquín Rodrigo teimou em visitar o Campo Pequeno. Tinham-lhe dito que a sua arquitetura era suficientemente estranha para encantar o seu espírito inquieto. Que havia no edifício uma certa dignidade. Aquela dignidade que brotava aos borbotões na sua Aranjuez.

Diz quem foi ao Campo Pequeno com o compositor, nesse Dezembro de 1968, que ele se emocionou. Com os dedos bem tratados de pianista que sempre foi, tocou nas paredes, tijolos e argamassa, vincos e junções. A imagem não pode ter deixado de parecer grotesca para os incautos visitantes que se cruzavam com ele. 

O segundo movimento do “Concerto de Aranjuez” é o mais famoso de toda a partitura. Joaquín e Victoria nunca desmentiram que houvesse sido composto como protesto contra o trágico bombardeamento de Guernica. Mas Victoria também nunca desmentiu que tinha saído da dor da perda da filha de ambos, precisamente na mesma altura.

Rodrigo podia ser um homem com muitas dores por dentro. Mas era um daqueles cegos iluminados que, por sua vez, iluminam o mundo.

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