16/12/18
 
 
Olivier Rolin. “A literatura é uma forma de fazer sobreviver as coisas que morrerão connosco”

Olivier Rolin. “A literatura é uma forma de fazer sobreviver as coisas que morrerão connosco”

Carlos Álvares Diogo Vaz Pinto 04/12/2018 11:10

Não é difícil escolher um parágrafo de Olivier Rolin que nos convença mais do venéreo encanto da sua escrita do que algum desses elogios babados que, hoje, qualquer livro exibe. O escritor francês, de 71 anos, é o primeiro de cinco grandes autores convidados para as residências literárias internacionais de Cascais

A juventude cheira-se nos homens que a tiveram: um desesperado heroísmo capaz dos maiores sacrifícios e que, em épocas purulentas de cinismo, nos torna carne para canhão. Olivier Rolin (Paris, 1947) tem as marcas, as histórias, os fantasmas, a deceção, mas conquistou também a “simpatia irónica” de quem não precisa esquecer ou trair-se para se libertar do passado. Mais do que a consciência de que a literatura não vive de boas intenções, a sua escrita traduz aquela noção de que, para se produzir uma obra viva, é preciso um “coração devorador” (Henry Miller) que não se fique pelas largas rondas, mas vá até ao âmago das coisas. Rolin passou parte da infância em África, andou pelas filas do maoísmo francês e teve um papel nos acontecimentos do Maio de 68. Mas a utopia mostrou-se uma amante dissoluta, um tanto imbecil, e com não menos fervor entregou-se aos sonhos a dois, ao perfume das noites atrozes que se seguem àquelas que, de tão felizes, não nos perdoariam se as insultássemos trocando-as pela literatura. 

Poeta por extenso, não está entre esses que, por amor à literatura, vivem num assédio incontinente às suas mitologias, nem se deslumbra com os seus poderes. Não publicou muito, e felizmente quase tudo foi traduzido e publicado entre nós. Escreve como quem recuperasse de uma espécie de ressaca, perdoando à literatura os excessos a que se entregou na noite anterior. E se pode esperar-se que qualquer infâmia produza os seus heróis, também a dor de corno e a mágoa têm os seus intrépidos exploradores.

“Porto-Sudão”, o livro que, em 1994, lhe valeu o Prémio Femina, acaba de ser reeditado, desta vez na singelíssima e acessível coleção miniatura da Livros do Brasil. Uma das mais espantosas e tocantes obras breves que alguma vez se escreveram, lê-se repetidas vezes como um desses discos de jazz (estou a pensar em Billie Holiday) que fazem a felicidade dos tristes. Um mestre na arte de perder, ao invés de se furtar à dor, Rolin inclina-se para o que há de absoluto e de calamitoso quando, do amor, apenas fica uma sufocante ausência, “e tal é o hábito da alma que ela continua maquinalmente, como uma besta ébria de maus tratos, a esperar consolo daquilo que, sendo seu sustento e alegria, se transformou agora em seu carrasco.” (“Porto-Sudão”, pp.64).

O romancista francês é também o primeiro de cinco autores que estarão em Cascais para participar no programa de Residências Internacionais de Escrita da Fundação Dom Luís I. Chegou a 17 de outubro e no próximo sábado, dia 8, participa no festival literário Branco no Tinto, em Viseu, para uma conversa de vida. Partirá a 15 de dezembro, mas é provável que volte e já é certo que Portugal e Cascais terão algum protagonismo no seu próximo romance.

 

Como está a correr a residência em Cascais? O que está a escrever?

Estou a escrever um livro bastante difícil de definir. É uma espécie de mosaico composto de uma infinidade de cenas, experiências que tive um pouco por todo o mundo. Seja com pessoas, lugares, alguns escritores que li… Nada se passou em França, foi tudo nas minhas viagens pelo estrangeiro. Logo, trata-se de um retrato subjetivo do mundo e, por isso, também um retrato meu, mas a partir do que vivenciei. Tenho de citar um texto de Borges, bastante breve, a que cheguei e que se tornou importante já depois de ter iniciado a escrita do livro. Este define precisamente aquilo que eu gostava de fazer. “Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.” No meu caso, e espero que isto não seja indício de que tenho pouco tempo para viver, o meu objetivo não é tanto o de fazer o meu retrato – não tenho o menor interesse na autoficção, nem nada que se pareça –, mas, forçosamente, em todas estas cenas que testemunhei haverá qualquer coisa de mim mesmo.

Sentiu-se inspirado a escrever sobre a cidade ou este país?

No outro dia estava a pensar que talvez venha a chamar ao livro “Peregrinação”. É uma hipótese, não sei se me ficarei por este título. Mas, para responder à pergunta, neste livro há uma série de cenas que têm lugar em Portugal. Isto porque estive cá muitas vezes. E há até cenas passadas aqui [Pestana Cidadela Cascais Pousada & Art District]. Quando escrevo gosto de dizer onde estou e mostrar aquilo que tenho diante dos olhos.

Saiu recentemente no “Le Monde” um manifesto de alguns autores jovens em que traçam um diagnóstico terrível da literatura e, particularmente, da ficção francesa, como estando limitada ao modelo do romance reality-show... Eles propõem que o romance se afirme como uma forma de arte contemporânea e, em face de tempos monstruosos, reclame poderes monstruosos.

A primeira coisa que lhe posso dizer é que nunca me senti parte de nenhuma escola, de nenhum grupo. Até tenho muito bons amigos que são escritores, como Jean Echenoz, que ainda na semana passada aqui esteve comigo, e outros como Emmanuel Carrère, também Antoine Volodine, que é um escritor pouco conhecido por cá, Pierre Michon também… Gosto do que eles fazem, mas o que eu faço não se assemelha em nada àquilo que eles escrevem. Portanto, esse esforço de buscar linhas entre as quais encaixar a ficção francesa não é coisa que me preocupe. Já é suficientemente difícil fazer uma boa ideia do que faço eu próprio…

Não acompanha o que escrevem os seus contemporâneos?

Leio os outros, mas não busco teorizar sobre aquilo que eles fazem. Além do mais, não tenho como analisar a relação entre a literatura francesa e outros produtos mediáticos, nomeadamente televisivos, porque, desde logo, nem tenho televisão. E mesmo quando fico num hotel, nunca me lembro de a ligar. Não sei, por isso, do que estão a falar. E peço perdão se parecer que estou a rejeitar a sua pergunta, mas não sou um crítico literário – eles, sim, têm de ter um ponto de vista sobre a ficção literária, eu não –, não sou um professor universitário e não posso falar sobre a literatura francesa atual, apenas posso falar de alguns escritores. Por exemplo, posso falar-lhe daquele que me parece ser o mais importante escritor francês da minha geração, e que é justamente Antoine Volodine, mas, de qualquer modo, ele não é, como eu não sou, representativo de uma escola.

E em relação a esta ideia de que estamos a viver tempos monstruosos? Tempos em que talvez até os temores apocalípticos se justifiquem?

Não é por desejo de entrar em contradição que lhe digo isto, mas não estou de acordo com essa ideia de que vivemos tempos apocalípticos. De resto, no período em que eu nasci julgo que se viviam tempos bem mais apocalípticos. Apesar de tudo, vivemos num período de paz, de relativa prosperidade… Falo de nós, escritores europeus. É evidente que há hoje problemas graves, mas não me agrada a forma como alguns escritores se posicionam diante de um horizonte absolutamente terrível e ainda creem que devem assumir uma enorme responsabilidade perante isso. Não acredito que os escritores sejam profetas, também não acredito que sejam faróis em termos políticos.

Não lhe parece então que uma visão social forte seja um bom ponto de partida para se escrever literatura?

É claro que podemos escrever sobre os problemas do nosso tempo. Hoje, um em cada dois escritores franceses escreve sobre os migrantes, mas também não é algo que me convoque muito. Não vejo os escritores como uma espécie de supersociólogos, ou sociólogos-artistas. Não acho que tenham de se ocupar daquilo a que chamamos “os problemas da sociedade”. Que o façam se querem, mas que imponham isso aos demais não me parece interessante.

O seu passado maoista comparece em alguns dos seus livros, seja neste “Porto-Sudão” ou, mais ainda, em “Tigre de Papel”, a memória das lutas estudantis do Maio de 68… Em Portugal tem sucedido um fenómeno que julgo que em França terá ocorrido muito antes, que é vermos alguns pensadores conservadores que saíram do armário a proceder a uma espécie de revisionismo que balança entre um certo menosprezo ou até ressentimento, num tardio ajuste de contas. De resto, o protagonista de “Porto-Sudão”, referindo-se a esses acontecimentos, às ilusões que teve na juventude, diz: “Jamais desprezarei esses tempos, ou me associarei aos que riem deles. Apesar das coisas graves ou dolorosas que soubemos ver depois, ignorávamos o medo, a inveja, a cobardia (…) Éramos extremamente audaciosos e ternos. Isso basta para que não insultemos a nossa juventude.” Uma vez que a sua obra tantas vezes se debruçou e reviu esses tempos, volvidos 50 anos do Maio de 68, como é hoje a sua relação com esses eventos?

Nunca fui – com exceção daquilo que vivi nessa época – um admirador incondicional nem do Maio de 68 nem do meu próprio passado ou do passado da minha geração. Acreditámos numa série de imbecilidades – por exemplo, pensar que a China poderia trazer a libertação para o mundo; sermos a favor da violência política; sermos contra as eleições... Enfim, lembro-me das tantas e tão perigosas cogitações a que nos entregávamos e não posso ter uma atitude de admiração incondicional pelo espírito de que estávamos tomados naqueles dias. É claro que foi um momento grandioso para a libertação do pensamento... Apesar de tudo, representou uma grande mudança no mundo ou, pelo menos, do nosso mundo.

Destacaria algum aspeto?

O país em que eu havia crescido, em que passei a infância, era um país muito arreigado às suas tradições e um páis que não tinha mudado quase nada desde o início do séc. XX, e o modo de vida que é hoje o nosso começa aí, nos eventos do Maio de 68. Portanto, a influência que teve foi enorme. Mas como não gosto do mundo em que vivemos hoje, não estou muito satisfeito com essa herança. Se acho que as relações entre os homens e as mulheres ou entre os pais e os filhos estão um pouco mais equilibradas do que naqueles tempos – e reconheço que houve a esse respeito algum progresso –, em compensação, parece-me que a minha geração contribuiu grandemente para a destruição do ensino, por exemplo. De resto, esse era precisamente um dos nossos objetivos e, pelos vistos, fomos bem-sucedidos. Não é, no entanto, uma coisa de que me orgulhe particularmente.

E como encara o seu próprio papel nessa mudança?

Como o de um soldado raso. Tenho uma leitura um pouco herética do Maio de 68. Um pouco herética e um pouco marxista, também. Penso que podemos analisá-lo como o momento em que o velho capitalismo deu lugar a um novo capitalismo. No velho capitalismo, o que se produzia eram bens materiais: fossem os caminhos--de-ferro, os comboios, carros, barcos, edifícios... Já no novo capitalismo, o que se fabrica é apenas vento. Instituiu-se esta ordem publicitária que abarca tudo e cria os fenómenos de massa, através de meios como a televisão, a internet, e em que o desporto, a moda, uma série de outras manifestações, no fundo, não passam de vento. Este grande corte foi um prenúncio de uma passagem de um capitalismo material a um capitalismo virtual. Tudo isto leva a que só guarde simpatia por uma parte das coisas que vivi; desde logo, pela juventude, que é uma coisa em relação à qual sempre guardamos alguma nostalgia, mas, por outro lado, também olho para ela com uma certa frieza. No meu livro “Tigre de Papel” parece-me que consegui expressar esta ambiguidade e os sentimentos contraditórios em relação ao passado e ao seu legado. De um modo geral, gosto de assumir por esse período uma simpatia irónica.

Em “Porto-Sudão”, à semelhança do que acontece noutros romances mais ligados a uma vivência intimista, parece que, através da dor e da perda, e face a mulheres que se tornam tão mais presentes ao arrasar os seus personagens pela ausência, é quase como se tocasse um requiem, uma literatura em memória daquilo que se perdeu, e como se, testemunhando a perda, a literatura fosse uma forma de redenção. Este livro lê-se como uma balada redentora, um prémio ao alcance daqueles que têm a coragem de aceitar a derrota.

Sim, concordo. Vou citar novamente Borges... (É um autor que estimo muito, ainda que não seja o meu autor de eleição.) “... um número infinito de coisas morre com cada agonia (...) O que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo?” Penso que a literatura é uma tentativa de resposta a esta pergunta. Entre outras coisas, é uma forma de fazer sobreviver as coisas que morrerão connosco. Logo, os escritores tendem a ter uma relação privilegiada com o passado e ponderam incessantemente sobre aquilo que se perderá para sempre.

A sua escrita é sobretudo memória?

Podemos escrever ficção científica, podemos voltar-nos para certos aspetos da História, no sentido de tentar guardar uma memória de certos incidentes que quase imploram para não serem apagados, mas penso que devemos escrever sobretudo sobre as coisas que nós conhecemos e que, para os outros, são desconhecidas. Acho que essa é a nossa matéria de trabalho. Por isso, é verdade que há esse sentido de requiem na minha obra, e isto não se deve a que o meu temperamento seja particularmente triste, mas porque entendo que essa é a matéria de que somos feitos: o passado e as coisas que irão morrer com cada um de nós.

Sei que não está muito preocupado com o destino da literatura nem com as escolhas dos seus contemporâneos, mas gostava de saber se assume que o que escreve está do lado do desejo mais do que da busca do prazer. Num livro como este, é evidente a condição erótica da sua escrita...

Para ser franco, nunca escrevi para cumprir com um plano qualquer, para conduzir o leitor ao longo de uma história, mas o que diz é verdade. Descreveu bem o que acontece nos meus livros. O desejo, se o tomarmos de uma perspetiva proustiana ou mesmo freudiana, é aquilo que nos escapa, que não conseguimos nunca atingir. O prazer ocupa-se da satisfação de certos impulsos ou necessidades, ao passo que o desejo é uma via através da insatisfação, o que nos ensina é a persistir em direção a algo inatingível. A insatisfação motiva-nos. Há uma distinção que Roland Barthes faz entre os livros que nos dão prazer, dentro dos quais nos sentimos consolados, e aqueles que nos perturbam e se colocam do lado do desejo, livros que nos põem num estado de insatisfação e perda. Aquilo que, inconscientemente, tento fazer, e que me parece que a literatura faz, ou até a arte em geral, é tomar esta segunda opção, que provoca um estado de desorientação, de dúvida...

Há aqui páginas que dirão mais à poesia do que a quem busca ler uma história romanceada. Quem tenta aqui puxar pelo fio da história dá com uma frase que parece querer marcar um tempo próprio e impedir o leitor de prosseguir. Páginas que não se deixam voltar... Chegamos ao fim de um homem, só temos o seu rastro, e dentro dos seus passos, das pegadas que deixou, vamos recolhendo souvenirs daquela mulher que o deixou e o condenou, assim, à morte.

Se não posso sempre atingir esse nível, creio profundamente, como foi defendido já por tantos escritores – como Flaubert, ou também, à sua maneira, Mallarmé –, que não há uma diferença fundamental entre prosa e poesia. Flaubert defendia que devemos buscar a frase perfeita, exata, bela em si mesma. Há uma antiga forma da escrita e da leitura, que alguns ainda hoje praticam, que passa por querer saber o fim da história, como se saldam os elementos da intriga, e, depois, uma forma moderna, que surge com alguns autores do séc. xx, que pretende, pelo contrário, interromper o curso das coisas; o texto deve obrigar o leitor a ficar parado diante da frase. Quando leio um livro que realmente me impressiona, que se me impõe, paro e penso: “Cabrão... como é que fizeste isto? Que maravilha!” Não me interessa tanto, por isso, aqueles que me fazem virar as páginas para saber o que vai acontecer a seguir, mas aqueles que me fazem ajoelhar no caminho, diante da beleza de uma frase. Aqui vemos bem a ligação que pode haver entre a prosa e a poesia.


Há ainda uma bifurcação na sua obra, em que de um lado temos obras absolutamente ambiciosas, quase megalómanas, como “A Invenção do Mundo”, e depois, do outro lado, temos romances testemunhais e reflexivos, como “Tigre de Papel”.

Quando escrevi “A Invenção do Mundo”, um amigo poeta disse-me que pus a fasquia demasiado alto: “e, naturalmente, passaste por baixo”, disse-me ele. “Mas foi bom que tenhas sido suficientemente audaz para te colocares um desafio perante o qual não podias senão sair frustrado”. Logo, o que eu escrevo não me surge na busca daquilo que sei ser capaz mas daquilo que gostaria de ser capaz de fazer.
 

Algo que se sente em “Veracruz”, ou muito e antes em “O Bar da Ressaca”, e em que tantos dos seus livros reincidem, é este olhar sobre a mulher que é alguém que passou e provocou danos. O leitor apaixona-se pela perda dos seus protagonistas, pela mulher que se tornou uma terrível ausência. As mulheres são como fantasmas na intimidade destroçada dos seus protagonistas. Como é que o amor ou as mulheres, na sua vida, o levaram a esta poética da deceção?

O que posso dizer sem ser demasiado indecente? (Ri-se) O amor teve realmente um papel muito importante na minha vida. [Subitamente amiudado, nervoso, hesitante...] Tive relacionamentos que acabaram algumas vezes de forma dramática. Assim, a perda e o luto foram também vivências decisivas para mim. Por exemplo, escrevi “Porto-Sudão” depois de uma perda amorosa e há muitas coisas autobiográficas nesse livro. Também o “Veracruz” foi escrito em circunstâncias algo parecidas. Mas neste livro existem, em compensação, momentos de alegria, ainda que seja na sequência de uma perda. Creio que não me seria possível escrever num estado de plenitude, e só posso fazê-lo depois de a ter perdido. Assim, posso dizer que há alguma correspondência entre aquilo que escrevo e a minha vida íntima.


E o que lhe parece que têm estas mulheres que o seduzem?

Estou a escrever o tal romance que se organiza como um mosaico e, de repente, põe-se-me o seguinte problema: tenho uma centena de pequenos retratos de mulheres, mas de que me ficaram apenas impressões colhidas de relance. Uma empregada num bar em Helsínquia, uma outra com que me cruzei numa rua em Xangai... e tiveram em mim um efeito suficientemente forte para que eu tenha ido ao ponto de tomar algumas notas. E pergunto-me o que irei fazer com estes retratos. Gostava de ter um capítulo composto por estes pequenos esquissos de mulheres, mas, ao mesmo tempo, tenho medo que isso pareça uma coisa meio donjuanesca. Não é, porque nem as conheci. Há um poema célebre de Baudelaire que descreve bastante bem uma parte de mim. Chama-se “A Une Passante”. Ele descreve uma mulher que por ele passa na rua com o vestido esvoaçante e diz às tantas: “Un éclair... puis la nuit! - Fugitive beauté/ Dont le regard m’a fait soudainement renaître,/ Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?” (“Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade/ Cujos olhos me fazem nascer outra vez,/ Não mais hei de te ver senão na eternidade?”, na tradução de Ivan Junqueira)... E no último verso diz: “O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!” (“Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!”). Isto descreve uma parte de mim, porque há, por outro lado, uma parte de mim que precisa cumprir o amor na carne. Não sou apenas um sonhador que vagueia pelas ruas e se contenta com estas divagações. Mas que tudo isto teve um papel importante na minha vida e naquilo que escrevo, disso não duvido.
 

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