16/12/18
 
 
António Rodrigues 03/12/2018
António Rodrigues
Política

antoniorodrigues@newsplex.pt

Importância do “já” no futuro da humanidade

A telenovela de Rui Vitória, como outras sagas jornalísticas antes, mostra-nos mais uma vez o gelo fino em que os jornalistas deslizam para cumprir a única regra da informação atual: a velocidade

A saga em torno da não saída de Rui Vitória de treinador do Benfica, esta semana, trouxe-nos mais um capítulo da transformação da informação em telenovela, preenchidos os requisitos do entretenimento e desdenhadas algumas das regras fundamentais do jornalismo, sem as quais a sua mera existência se torna questionável.

Durante uma manhã inteira foram transmitidas informações, analisados cenários, comentadas razões para uma dita notícia. No monotonismo habitual dos canais televisivos, o tema foi tão dissecado que se tornou o único acontecimento a merecer referência, como se o país, o mundo tivesse parado para assistir na bancada ao drama benfiquista – acredito que há adeptos do clube convencidos disso.

Por volta da hora do almoço, ponderados todos os cenários possíveis, devidamente enterrado Rui Vitória, trazido para a ribalta Bruno Lage (que ninguém antes conhecia, mas que estava a orientar o treino e, como tal, passava a ser o coprotagonista da manhã noticiosa), colocado Jorge Jesus no avião para regressar ao comando do Benfica, eis que surge um pequeno desenvolvimento: afinal, não há despedimento nenhum, Rui Vitória fica, Jorge Jesus sai do avião, Bruno Lage entrega-se ao anonimato e a “notícia” passa a ser outra.

Afinal, aquele “já” na frase “Rui Vitória já não orientou o treino” lido no rodapé das televisões e nos títulos dos jornais online, e que transformava a frase banal certa “Rui Vitória não orientou o treino”, facilmente constatável, na frase extraordinária que garantia a notícia e todo o frenesim à sua volta, estava a mais, tinha sido incluído, transformando o jornalismo em ficção.

José Saramago, na sua “História do Cerco de Lisboa”, pode pôr os cruzados a dizer não ao pedido de ajuda de D. Afonso Henriques para conquistar Lisboa e contar a história dessa perspetiva, como se tivesse acontecido, porque Saramago era escritor e o seu livro era uma obra de ficção.

No jornalismo, não se pode noticiar algo, analisá-lo, perspetivar o futuro e, de repente, passar a noticiar o seu oposto e seguir para a análise exaustiva deste contrário como se nada tivesse acontecido, como se não tivessem sido gastas horas com um erro, com um engano, um embuste. E ainda para mais sem uma explicação pública, um mea culpa. Por mais que um presidente de um clube mude de ideias, dê o dito por não dito, os jornalistas não podem dar uma coisa e o seu oposto sem explicar muito bem a razão pela qual induziram o ouvinte, o espetador, o leitor em erro.

Estas coisas não ficam impunes. Já nem sequer a longo prazo. Aqui e agora, o jornalismo definha porque se deixou seduzir por outras luzes que não são as suas, pelo glamour do entretenimento, pela velocidade da transmissão – porque alguém se lembrou que o rigor não vende.

Se muita gente aceita e partilha notícias falsas como se fossem verdadeiras, se o público coloca os jornais e as televisões no mesmo patamar de blogues, de páginas de Facebook, de sites de duvidosa proveniência, se os políticos podem ser eleitos gritando fake news em relação às notícias que não lhes agradam, é também porque o jornalismo aceitou que havia outras regras além do código deontológico a que devia obedecer.

Enquanto o jornalismo continuar seduzido pela velocidade em vez do rigor, numa eterna comparação de tamanhos com a concorrência; enquanto não percebermos que o velocista não corre a maratona e insistirmos em sair esbaforidos a contar coisas antes de estarem devidamente confirmadas, só estamos a colocar obstáculos à nossa própria sobrevivência.

É certo que há quem defenda que uma notícia errada e o seu desmentido são duas notícias, mas isso é a história de Pedro e o Lobo em versão informativa: há de chegar uma altura que o consumidor de informação perderá o respeito pela fonte por falta de credibilidade.

O jornalismo não é ciência, mas também não é ficção. Está balizado por regras para transmitir a quem recebe a informação a garantia de que se trata da verdade ou, pelo menos, da verdade até onde foi possível apurar.

Sem essas regras, que não são muitas mas foram especificamente delineadas para reforçar a credibilidade, a informação expõe-se, fragiliza-se e coloca os jornalistas sob uma pressão adicional que os empurra para o erro, para a mentira, para a ficção.

Sem essas regras, não admira que já haja pivôs de noticiário de realidade virtual na China e que se desen-volvam programas de inteligência artificial para escrever notícias.

Se os jornalistas aceitam que o jornalismo se torne acéfalo, guiado pelas regras do entretenimento e conduzido sem o rigor do código deontológico; se a informação passa a ser um eterno última hora de rumores transformados em notícias, de notícias que não passaram pelos crivos da confirmação, de crivos que se vão abrindo até deixarem passar tudo como verdadeiro; chegará uma altura em que deixarão de ser necessários e as máquinas farão melhor. Guiadas por um argumentista qualquer, inserindo dados que se transformam em “notícias”.

Para quem quiser ter a sensação do futuro deste caminho por onde estamos a seguir, basta ler os jornais e assistir aos noticiários em países com ditaduras ou regimes autoritários: uma pessoa ri para não chorar.

 

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