16/12/18
 
 
José Paulo do Carmo 30/11/2018
José Paulo do Carmo

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Inveja de Palha

O que aconteceu na última semana entre a Júlia Palha e a Joana Latino é muito mais revelador do caráter da segunda e do que encontramos por aí em cada esquina

Cada vez acredito mais que o grande freio que impede uma maior ascensão de algumas mulheres na nossa sociedade é precisamente… as outras mulheres. Antes de mais porque sou completamente contra esta perspetiva de dividir a sociedade entre homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, brancos e pretos. De colocar rótulos em pessoas e de as analisar à sombra disso e não das suas características, da personalidade , das atitudes de cada um e dos resultados que daí emanam. Porque ninguém é mais igual ao outro por causa do sexo, da cor ou das suas opções sexuais. É o que fazemos e o rasto que deixamos que nos identifica e não uma “prateleira maior ou mais pequena”.

E é isso que causa grande inveja nos outros. Essa, infelizmente, assume papel central nos dias que correm. Para cada um que atinge, que luta, que faz e que vai atrás dos seus sonhos e convicções existem outros cem que ficam sentados a invejar, a criticar e a rogar pragas. Por cada um que acredita em si e que assume as suas características, o seu corpo e a sua estrutura emocional e que singra existem mil que metem defeitos, que acham injusto só serem dadas oportunidades aos outros, que passam a vida ressabiados a olhar de alto abaixo, à espera de qualquer coisa que possam apontar para satisfazerem a sua ânsia de rebaixar os outros sem sequer levantarem o rabo do sofá.

O que aconteceu na última semana entre a Júlia Palha e a Joana Latino é muito mais revelador do caráter da segunda e do que encontramos por aí em cada esquina. No fundo, um mercado português tão curto para tantos canais e meios de comunicação, acaba por não conseguir produzir conteúdos de qualidade em quantidade. É por isso que proliferam programas e figuras para “encher chouriços” e para “chouriços verem”. E essas pessoas que por aí vão saltitando precisam de se agarrar às polémicas e às piadolas para serem notadas, porque infelizmente é isso que vende. Neste caso, no entanto, o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Não está em causa o humor – todos gostamos de nos rir –, está em causa a crítica mordaz subjacente, pejada de má intenção e de vontade aparente de denegrir e achincalhar.

Estes não são mais do que resquícios do Portugal dos Pequeninos que ainda podemos vislumbrar em alguns. Esta veia brejeira e mais popularucha, em que vemos o pé fugir para o chinelo. Temos muita dificuldade em ver alguém dar nas vistas. Singrar pelos seus próprios méritos e sentir-se confortável na pele dos seus próprios atributos. Custa a muita gente olhar para pessoas cheias de personalidade, de bem com a vida , jovens e carismáticas, mas têm que se aguentar. Qualquer dia ser gira e fisicamente bem constituída é razão para ir à igreja confessa-se e pedir desculpa. Menos. Muito menos. Admiro mulheres assim, “com pelo na venta”, que seguem as suas convicções, vão atrás das oportunidades – e vão com tudo. Caráter é isso mesmo: firmeza nas atitudes e coragem para ultrapassar os nossos próprios limites, nos quais estão incluídos as vozes bacocas que nos tentam puxar para baixo.

Devemos apoiar o crescimento desta nova geração de valores. Completa, sem tabus e sem preconceitos, de pessoas cheias de si e com vontade de conquistar o Mundo. Nós por cá teremos orgulho em aplaudir. Na linha da frente. A nossa sociedade precisa de mulheres e homens que não tenham medo de se assumir como são. Já chega dos coitadinhos, de termos que ser discretos e envergonhados – e se tiver que ser de peito cheio, que seja mesmo. Não se preocupem, que “vozes de burro não chegam ao céu”. Nem a comer inveja de Palha…

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