24/8/19
 
 
Maria Helena Magalhães 28/11/2018
Maria Helena Magalhães

opiniao@newsplex.pt

Um país, várias realidades, uma certeza: mudança

Se para o campesinato alentejano a vida foi madrasta, para o minhoto não foi mais generosa

Dos tempos salazarentos aos nossos dias, a sociedade portuguesa percorreu um longo caminho, não sem escolhos e tropeções, que nos arrancou do (sub)desenvolvimento atávico em que o país estava atolado. O que, na esteira da tese de Rutger Bregman – in “Utopia para Realistas” – sobre estádio de evolução e bem-estar alcançado nos países ditos desenvolvidos, permite afirmar que o Portugal de hoje também se aproxima da “Terra da Abundância”, terra do leite e do mel, a utopia medieval. Mas também há, ainda, territórios e gentes deixados nas margens. Disto é lamentável exemplo, entre tantos outros, a luta dos estivadores do porto de Setúbal, onde uma anacrónica “praça de jorna” assentou arraiais: cerca de 90% dos trabalhadores da estiva são precários, contratados ao dia! Longe vai (?) o tempo em que trabalhadores assalariados, v.g. camponeses do Alentejo, despidos de qualquer protecção laboral, subsistiam à míngua, mirrados pela fome, sem direito ao trabalho e empurrados para persistentes surtos migratórios. E a pobreza em roda livre, à toa!

Se para o campesinato alentejano a vida foi madrasta, para o minhoto não foi mais generosa. As marcas da emigração ilegal, anos 60 e 70, forçada pela fome e pela miséria ainda hoje são patentes por esse Minho adentro. Desde logo a “casa do emigrante” que veio introduzir uma nova linguagem, algo distópica, na arquitectura e na paisagem. Mas há mais: do contrabando e da saga dos contrabandistas podemos ouvir relatos de quem os viveu. Em Melgaço, terra raiana, o Espaço Memória e Fronteira, núcleo museológico instalado no edifício do antigo matadouro municipal, faz-nos mergulhar no mundo vivo da emigração e do contrabando. Testemunhos, documentais e em vídeo, do que era passar a fronteira “a salto”, por montes e valados, com o medo, o frio e a fome a roerem os ossos. Ou dos que, teimando em ficar, arriscavam atravessar o rio em simples batelas, noite fora, ou se atreviam a forçar caminho pela raia seca. E sempre o terror de serem apanhados, se não alvejados, pelos guardas-fiscais, do lado de cá, ou pela Guardia Civil, do lado de lá. Almejando chegar às “franças” da abundância uns, outros remendando o parco salário, sempre curto e incerto. Depois do Brasil, nos anos 50, a Europa a que, sendo europeus, não pertencíamos passou a ser destino de eleição. E em primeiro lugar a França, país onde estes portugueses pobres se fizeram notados: pelo trabalho sem lei e pelos bairros de lata, os famosos “bidonvilles”, musseques brancos, onde acampavam. Triste memória!

Curiosamente, do contacto com esses imigrantes do cinéfilo francês Jean Loup Passek viria a nascer o Museu do Cinema de Melgaço, criado, no edifício da antiga Guarda Fiscal, para albergar o espólio doado ao município pelo dito francês. Reza a história que num desses bidonvilles terá travado amizade com uns melgacenses que o convidaram a visitar a terra. Veio e ficou embeiçado. Voltou e comprou casa para morar. E por cá ficou. E deixou acervo e boa memória. Memória que a vila honrou, dando-lhe o nome ao museu, que é um dos espaços museológicos que tem para oferecer a quem a visita. Além do Solar do Alvarinho, o vinho da região. Orgulhosamente, Melgaço!

Gestora, Escreve quinzenalmente, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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