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A Febre Ferrante. A mulher que não importa conhecer

A Febre Ferrante. A mulher que não importa conhecer

DR Cláudia Sobral 23/11/2018 21:51

Em simultâneo com a edição em DVD, chega à sala o filme em que Giacomo Durzi dá vida ao universo da autora da tetralogia napolitana. A partir de Nova Iorque e com figuras como Roberto Saviano ou Jonathan Franzen

“Escrevo para testemunhar o facto de ter vivido e ter procurado uma forma de me examinar a mim própria e aos outros. A única possibilidade é aprender a pôr-se a si próprio em perspetiva, a pôr-se dentro do trabalho e depois afastarmo-nos, considerando a escrita como aquilo que se separa de nós no momento em que fica completa. É por isso que ou continuo Ferrante ou deixo de publicar.” O final de “A Febre Ferrante” leva-nos de volta ao início. Quem é Elena Ferrante, a escritora italiana que apesar de ter já sido considerada uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela “Time”, não importa. Vamos à obra então. Ao seu universo.

Por aí, e por “Escombros” (Relógio d’Água, 2016), uma recolha de escritos, cartas e entrevistas datados desde 1991, o ano em que publicou o seu primeiro livro, que decidiu oferecer aos seus leitores, Giacomo Durzi começou este filme. Daí é retirada aquela citação final de “A Febre Ferrante”. Um título que não é original, que havemos de descobrir na montra da McNally Jackson Book Store, uma livraria independente de Nova Iorque, a cidade onde a obra de Ferrante se fez sucesso internacional assim que começou a ser traduzida e publicada a famosa tetralogia napolitana.

Estarão lá todos – de James Wood, que assinou a recorrentemente citada crítica “Women of the Verge”, na “New Yorker”, que começava por apresentar a escritora como “one of Italy’s best-known least-known contemporary writers”, à sua tradutora para inglês, Ann Goldstein, escritores como Roberto Saviano ou Jonathan Frazen ou ainda o realizador Mario Martone, responsável pela adaptação ao cinema em 1995 do seu primeiro livro, “L’ Amore Molesto” – “Vítima e Carrasco”, o título em português do filme que pode, aliás, ser revisitado neste sábado, às 16h30, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, com a presença do realizador, no âmbito do Leffest – Lisbon & Sintra Film Festival.

Adaptada também de uma obra de Ferrante, “A Amiga Genial”, primeiro volume da tetralogia napolitana, mas com a colaboração da escritora, acabou de estrear na HBO, ainda sem data prevista para a chegada a Portugal, “My Brilliant Friend”. Da força da escrita de Ferrante, destaca Martone a sua ancoragem no real. “Transforma-se em fantasia,transfigura-se, mas partindo da realidade. Da experiência real, de imagens concretas. De sons concretos e emoções daquilo que se viveu e sofreu. Numa cidade como Nápoles tudo é possível. Como pode um escritor ser universal? Quando fala sobre questões que nos dizem respeito. Ela não fala tanto para nós como fala de nós.”

Depois de Roberto Saviano, também o colosso Jonathan Franzen é apresentado como um dos rendidos a esta “febre”, que levou já a “Time” a considerar Ferrante uma das 100 figuras mais influentes do mundo. Daí virá também o boom no turismo em Nápoles ao longo dos últimos anos. “A febre ferrante transforma a ‘perigosa’ Nápoles num centro de turismo”, titulava o “Guardian” num artigo publicado há dois anos. Elena Ferrante publica livros desde 1991 mas o seu sucesso demorou, nota James Wood, 12 anos a construir-se nos Estados Unidos, e a partir daí a fazer o seu nome crescer também em Itália. Não é por acaso que começa com uma gravação de uma voz que se reconhece de imediato como de Hillary Clinton, num podcast gravado antes das presidenciais de 2016.

Perguntaram-lhe o que andava a ler e Clinton deu uma lista. Mas depois: “O que comecei a ler e é realmente hipnótico é a série napolitana de Elena Ferrante”. “As pessoas começam a ler esses livros e ligam para o trabalho a dizer que estão doentes”, contrapunha o entrevistador. E respondia a candidata: “Max, tive de me interromper. Comecei o primeiro e não conseguia parar. Depois, antes do segundo, pensei ‘não posso, tenho que racionar. E é o que estou a fazer agora, a racionar’.”

Não foi o que aconteceu com Jonathan Franzen, que não conhecia aquele nome, Ferrante, e que antes de uma viagem agarrou no primeiro livro da tetralogia, avaliou a primeira página, e julgou que serviria para o acompanhar nas semanas seguintes. Não chegou. Leu-os a todos de uma vez. “Estamos a ler e parece que jorra, como lava. Que saiu derretido e cristalizou naquelas páginas. Levei muito tempo a começar a perceber ‘espera, isto é uma história inventada’ porque ela vende tão bem a ideia de que isto é um mega-romance autobiográfico de quatro volumes. Não fui pesquisá-la, não sabia nada sobre ela, apercebi-me a partir do próprio livro que não poderia ser de facto a vida real. Era demasiado bom.”

Regresso às palavras de Ferrante, que se vão cruzando com as dos entrevistados, e que ajudarão a explicar parte do seu sucesso: “Se publico um livro, faço-o para que seja lido. É o que me interessa. Não renuncio a nada daquilo que possa dar prazer ao leitor, nem mesmo àquilo que é considerado antiquado, banal ou de mau gosto. Utilizo todas as estratégias que conheço para capturar a atenção do leitor, para tornar a página o mais densa possível. E o mais fácil possível de virar.”

 

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