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Tragédia em Borba. Responsáveis? “Todos têm culpa”

Tragédia em Borba. Responsáveis? “Todos têm culpa”

Mafalda Gomes Rita Pereira Carvalho 22/11/2018 13:34

A história está longe de terminar e o tempo passa. Para alguns, é só mais um dia de trabalho na pedreira, para outros, é mais um dia para acumular questões que têm de ser resolvidas. No fim há uma certeza: as pedreiras continuam a trabalhar e o município sem capacidade para resolver todos os problemas

No outono, o Alentejo é tipicamente gelado, e faz ainda mais frio se caminharmos entre o mármore das pedreiras que ficam entre Borba e Vila Viçosa, onde desabou a antiga nacional 255 na passada segunda-feira. À temperatura sobrepõe-se o som das máquinas que ecoa nas pedras. Mas por estes dias não é o som habitual dos trabalhos diários, são mesmo as máquinas que, desde segunda-feira, operam nas buscas de resgate dos corpos que ficaram sob as pedras. 

Mesmo à frente do cenário montado pela equipa da Proteção Civil, bombeiros e três mergulhadores, ontem foi só mais um dia de trabalho para os trabalhadores da pedreira Mar Metal. 

E voltando à meteorologia, foi exatamente o céu escuro e a previsão de mau tempo que levou António a pensar “que era um trovão”. “Vi um clarão e nem liguei, mas o barulho foi uma coisa brutal”, disse. A memória que o trabalhador guarda da tarde de segunda-feira é de pó: “subiu uma nuvem de terra, não se via nada”. No momento do desabamento da estrada que liga a cidade de Borba a Vila Viçosa, a queda de um poste de eletricidade apagou as luzes às pedreiras envolventes e até a entrada de Borba ficou às escuras. “Parámos de trabalhar, mas a luz foi logo reposta pela EDP”, relembrou o trabalhador da pedreira. Apesar de tudo, o dia continua, igual a tantos outros. Apenas com uma diferença: agora têm de dar uma volta maior e seguir pela variante.

 

A curva de que todos falam

As más notícias correm depressa, sobretudo em zonas pequenas, como Borba, Vila Viçosa, ou Bencantel. Quando a novidade chegou ao centro das cidades mais próximas, a primeira reação foi: “Olha, foi na curva”. É transversal e, apesar de alguns afirmarem que já estavam à espera, a verdade é que todos passavam na estrada municipal 255, ao invés de utilizarem a variante, com cerca de mais cinco quilómetros. E porquê? Porque nunca imaginaram que a estrada por onde passavam pudesse ruir um dia. O dia chegou e o destino foi cruel. A questão apontada por Domingos Calhau, que levou o i até ao local, é a curva que fica depois do pedaço de estrada que já não existe. Muitos moradores apontam esta curva como potencialmente perigosa. De facto, é possível perceber que existe um pedaço da estrada ligeiramente abatido. 

Surge novamente a questão: porquê? Há cerca de quatro anos ficou apenas um buraco no lugar da estrada. O percurso esteve interrompido durante cerca de três meses e para tornar a estrada novamente operacional, Domingos Calhau garante que “até mármore foi para o buraco, mas aquilo era tudo engolido, dizem que passa um braço de água”. Para provar, o morador mostra um exemplo ao lado da estrada. De facto, ao longo dos terrenos que percorrem o que um dia foi o cordão umbilical das duas cidades, existem vários buracos, e um deles até “engoliu uma oliveira”. 

A mesma ideia é também defendida por alguns funcionários da Câmara Municipal de Borba. Garantem que sempre passaram por aquela estrada e que agora só ficam as memórias. “Sempre passei lá. Todos os dias usávamos aquela estrada, a única preocupação era a curva”. 

 

Culpado? Talvez seja o mármore à flor do chão

Apurar responsabilidades depois da tragédia que invadiu as cidades do distrito de Évora é fundamental. Mas até agora é necessário olhar para os dois lados da moeda. O tema “estrada municipal 255” domina a conversa do almoço de quatro funcionários da Câmara Municipal de Borba. “É preciso as tragédias acontecerem para as coisas virem ao de cima”, conta um deles ao i. 

“Aquelas pedreiras são antigas, mas já existem há mais de trinta anos nas condições que apresentam hoje. A estrada está no município desde 2005. Ora, se as pedreiras existem há trinta anos, tiveram vinte e tal anos sem dizer respeito à Câmara Municipal. Nessa altura não havia responsabilidades?”, questiona. Aqui, a questão do mármore e do dinheiro que esta pedra envolve é um ponto fundamental, garantem os funcionários que, numa primeira abordagem, atribuem as culpas à indústria que explora grande parte do território da cidade. “Vão escavando, vão escavando, vão ganhando dinheiro com isso, e quando a situação está insustentável, dizem assim à Câmara: agora toma tu conta disto“. 

O município tem obrigações, mas neste momento não existe capacidade para as cumprir, existem poucos recursos técnicos e humanos. E os exemplos são reais: “a Câmara Municipal tem dois engenheiros e para fazer uma fiscalização a todas a estradas, um de nós tinha de parar durante um ano para fazer o levantamento do estado da estrada do município de Borba”, dizem. 

No entanto, a 19 de fevereiro de 2014, de acordo com a ata ordinária da Câmara Municipal de Borba, o vereador Joaquim Serra, “quis saber quais foram, na altura, os impedimentos referidos pelo Senhor Presidente na abordagem que fez em relação às empresas Novamármores e Italmármores, bem como as soluções encontradas”. Ao que o senhor presidente respondeu que iria disponibilizar toda a documentação relativa a estes processos a cada um dos vereadores. Logo a seguir entra em cena Benjamim Espiguinha, expressando “preocupação relativamente ao estado em que se encontra a estrada Borba/Vila Viçosa”, acrescentando que “teve conhecimento que houve uma reunião com alguns desses empresários (das pedreiras), e com representantes da Direção Geral de Energia sobre esse assunto, pretendendo saber concretamente o que se passa”. Aqui, António Anselmo, presidente da Câmara, informou que seria criado um grupo de trabalho e que iria ser nomeado um técnico que estivesse “obviamente dentro do assunto”. No fim, “a opinião foi unânime, aquela estrada é muito perigosa sendo urgente que se encontre uma solução”. Foi em 2014, mas hoje, em 2018, há pelo menos cinco mortos confirmados e, como afirmou uma das funcionárias da Câmara Municipal, “todos têm culpa”.

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