19/12/18
 
 
António Cluny 20/11/2018
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

Para que o novo discurso sobre direitos não se torne odioso

“Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação…”

A ascensão da extrema-direita, mais ou menos fascizante, e a análise das suas causas terão porventura revelado que muitas das democracias têm sido incapazes de dar uma resposta capaz às contradições sociais essenciais que impedem a maioria das pessoas de ter uma vida digna.

Em vez disso, foram-se contentando em minorar outras, criando novos e cada vez mais particulares direitos, os quais, embora sendo relevantes para a vida de muitos, não podem, contudo, responder aos problemas vitais da grande maioria.

É esta portanto que, apesar dos novos direitos, se sente hoje arredada das preocupações políticas e sociais de muitos democratas e inclusive abandonada por muitos dos que se indignam publicamente com a ascensão dos fascismos.

O problema não está, é certo, na afirmação dos novos direitos; está antes no facto de eles se terem constituído em foco principal da ação política dos democratas, desviando-lhes a atenção das questões principais que, independentemente da afirmação daqueles, condicionam diretamente a vivência e sobrevivência de cada vez mais gente.

É, pois, a falta de coragem ou de vontade política de muitos democratas para enfrentar as desigualdades crescentes e as condições de vida precária que lhes estão associadas que leva, hoje, muitas pessoas a ouvir mais atentamente os discursos milagreiros e do retorno aos “verdadeiros valores” dos novos caudilhos.

Contra os novos direitos que os democratas exibem como troféu, os populismos e fascismos vários erguem assim, por outro lado, os valores “verdadeiros e vetustos” que, dizem, hão de resolver as injustiças que aqueles, de facto, não souberam ou não quiseram erradicar.

Para que falar de direitos a quem mais sofre e luta para sobreviver dignamente não se transforme, pois, num discurso que lhes é odioso, é necessário, antes, agir coerentemente para resolver os seus problemas essenciais.

Recordo a canção já antiga de Sérgio Godinho: “Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação…”

Quando hoje nos indignamos, por exemplo, com os discursos securitários dos candidatos a ditadores, não podemos deixar de lembrar também que são as pessoas que lutam diariamente pelo pão de cada dia, por uma casa digna e pela saúde e educação dos filhos que são, afinal, os mais afetados pelos problemas de segurança: a falta de paz que aflige hoje tanta gente que reside em áreas degradadas e afastadas dos lugares de trabalho.

Esquecer isso, abrigado num condomínio fechado ou numa universidade de elite, pública ou privada, não ajuda a reforçar a credibilidade da democracia nem a isolar os discursos fascizantes.

Virarmo-nos tão-só para os direitos particulares, de grupo ou de tribo, esquecendo-nos de que, não muito longe, a vida continua dura e a sobrevivência diária se faz impiedosamente à margem de tal tipo de preocupações, ou esmagando-as mesmo, contribui decisivamente e apenas para acalentar os discursos oportunistas dos populistas e fascistas de todo o tipo.

É importante, por isso, compreender e fazer compreender que as contradições que esses outros direitos visam ultrapassar não se resolverão verdadeiramente se as outras, as que afetam transversalmente a maioria – as pessoas que enfim sofrem as desigualdades mais cruas e primárias –, não forem igualmente fortemente reduzidas.

Olhar de frente para a realidade e, serena mas firmemente, colocar de novo o foco na busca da resolução das desigualdades sociais mais gritantes é, pois, o único caminho seguro para reduzir todas as outras e impedir o avanço dos fascismos.

 

Escreve à terça-feira

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