27/6/19
 
 
Alexandra Duarte 19/11/2018
Alexandra Duarte

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“Ride slow, nigga” – um pouco menos, por favor

A música portuguesa deve ser acarinhada e incentivada por todos nós, até porque se faz muito boa música em Portugal e para todos os gostos.

Oito da manhã. O carro está cheio de miúdos, prontos para irem para a escola. As caras são de sono e estão meio adormecidas. A qualquer momento pode ocorrer uma explosão de energia que torne uma viagem curta numa viagem intergaláctica, que parece demorar anos. Liga-se o rádio e o meu primeiro pensamento é desejar que não discutam sobre a estação em que deve ficar ou a música que está a dar. Todos estes podem ser ingredientes explosivos para começar a manhã, associados à chuva, ao trânsito caótico a que esta cidade está condenada, não obstante os quilómetros de ciclovias que surgiram e a quantidade de árvores que foram plantadas nas estradas de Lisboa. 

Com sorte, acaba por ficar na primeira estação de rádio, que tanto pode ser a CidadeFM, a MegaHits, a RFM ou a Comercial. Quando estou distraída tentam a Orbital mas, ao fim de pouco tempo, percebo que a música e a batida são sempre as mesmas e demasiado eletrónicas para aquela hora, em que ainda estou entre o encanto da lira de Orfeu e o chamamento para o mundo real.

Dias há em que estão tão ensonados que nem dão conta de que o rádio está sintonizado na “estação da mãe”, a Smooth FM, garante de uma viagem calma e silenciosa, como se estivessem embalados pelos blues. Raramente acontece e, por isso mesmo, todos os dias da semana entro no carro à espera que ninguém queira mexer naquele botão que inicia um outro capítulo do dia que está a começar.

Cada um dos meus filhos tem os seus gostos musicais mas, na generalidade, partilham grande parte dos mesmos, ainda que, por vezes, as vontades de ouvir determinadas músicas sejam diferentes.

Estamos a falar de rádio, de músicas, de um meio de comunicação que faz parte integrante dos dias de todos nós, tenhamos a idade que tenhamos.

De tanto ouvir repetidamente certas músicas, acabo por trautear aquelas de que mais gosto e até decorar, inadvertidamente, a letra de muitas outras. Há músicas que nos ficam no ouvido, quer queiramos quer não. Ou porque mexem connosco, ou porque são engraçadas de tão populares que se tornaram, ou pelos intérpretes com quem simpatizamos, etc. 

E depois há aquelas músicas que passam a fazer sentido. Que sempre ouvimos, mas nunca atentámos no seu significado, e que até entravam para o nosso top de preferências até ao dia em que conseguimos, por fim, entender aquilo de que falam, e aí consciencializamo-nos do sentido real da mensagem que está a ser transmitida ou da história que estão a recontar em forma de música.

Um dia destes, às oito da manhã, apanhei como que um choque elétrico quando finalmente dei conta da música que estava a ouvir, em português, de um grupo que passou o verão a percorrer as discotecas do país, levando atrás de si jovens que os seguem pelas músicas que entoam. Não há dúvidas que o ritmo é desconcertante e nos faz bater o pé, acompanhando o compasso, e que às tantas já estamos todos a cantarolar o refrão. O pior é quando, embalada pelo bom momento que se vivia naquele início de dia, continuo a tentar acompanhar a música e começo a ouvir a descrição de uma história que num videoclube iria, sem dúvidas, para a secção dos filmes para maiores de 18 anos, com conteúdos pornográficos.

Olhei para os meus filhos e tentei perceber se eles tinham noção do que tinham acabado de ouvir. Os mais novos não estavam nem ali, acho mesmo que cantam por cantar, o mais velho continuava impávido e sereno, perdido nos seus pensamentos. Eu fiquei incomodada.

A música portuguesa deve ser acarinhada e incentivada por todos nós, até porque se faz muito boa música em Portugal e para todos os gostos. Ainda esta semana, Tony Carreira celebrou os 30 anos de carreira, enchendo a maior sala de espetáculos do país.

Da mesma forma que jovens promessas como, por exemplo, os D.A.M.A, que este ano conquistaram o primeiro prémio nos Los Angeles Music Video Awards na categoria “Best Feel Good Video” e ainda o prémio do público, “People’s Choice”, com o vídeo “Era Eu”. 

Não há censura nestas palavras que aqui deixo, nem crítica à criatividade destas bandas mais recentes que abusam dos palavrões para captarem a atenção dos mais novos, e, em simultâneo, adornam as suas letras com episódios vulgares e chocantes que roçam a obscenidade e induzem os mais novos a uma normalidade de expressões que podem ser ofensivas em contextos reais. 

Num tempo em que somos obrigados a ter tanto cuidado com o vocabulário que usamos para não ferir suscetibilidades que se prendam com as questões raciais, com a igualdade de género ou com a hipersensível ideologia das minorias, não compreendo como há tanta tolerância com músicas que beliscam todas as sensibilidades que acabei de referir.

Só há uma justificação. É tudo uma questão de agenda, e não estou a referir-me às músicas, porque os mesmos que andam por aí a clamar igualdade, censurando os livros de atividades para os meninos e para as meninas, e a acusar a sociedade de intolerância no seu discurso são os mesmos que toleram este género de manifestações culturais que induzem os mais novos a uma aceitação errada de ditas normalidades que não o são.

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