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Walid Raad. Partilhar a desconfiança dos nossos fantasmas

Walid Raad. Partilhar a desconfiança dos nossos fantasmas

Diogo Vaz Pinto 16/11/2018 11:38

Numa das mais desconcertantes sessões do Fórum do Futuro, Walid Raad apresentou no Teatro Rivoli uma obra que cruza diversos planos, pondo em causa a veracidade dos documentos e testemunhos na era pós-internet, mostrando como “a paisagem dirige as próprias imagens” e refletindo como o acesso fácil à informação significa também um maior risco de manipulação.

Como responde a arte quando os factos se tornam indecifráveis? E o que se pode esperar dela quando a torrencial abundância da informação produz um efeito de histeria, convidando-nos a deixar de lado os aspetos inconvenientes, os contornos mais ásperos, a abdicar de padrões intricados e a construir narrativas muito parciais, tão crédulas quanto confusas, excessivamente ligeiras ou exageradamente supersticiosas?

O artista conceptual libanês Walid Raad tem desenvolvido uma obra em que a linha entre ficção e realidade não só se esbate como cria um novo plano de reflexão.

Já algumas vezes foi apontada a ressonância da obra de W. G. Sebald neste trabalho, e, como veremos, Raad parece investir as suas criações da “escrupulosa incerteza” que o crítico literário James Wood detetou na obra do escritor alemão. Numa época em que a própria noção de verdade parece ter sido volatilizada, aparecendo-nos cada vez mais como uma miragem, este artista – que no passado dia 7 realizou uma espécie de palestra-performance perante uma audiência no Teatro Rivoli, no âmbito do Fórum do Futuro, no Porto – surge como um criador de instigantes fábulas, servindo-se de documentos reais ou fabricados e causando um efeito de desorientação e vertigem na relação que o público cria com as suas propostas. Mais do que um percurso alimentado por intervenções pontuais, mais do que um efeito de narrativa mirabolante, e até paranoica, os projetos de Raad apontam para uma forma de autorreflexão que procura desembaraçar-se da própria confiança nos factos, abandonar essa religião e avançar para um território muito mais nebuloso e desafiante.

Entre o público da sessão da passada quarta-feira, quem não estivesse de sobreaviso em relação às “liberdades” que este artista toma deu por si empolgado com o relato de peripécias que os alunos de Raad, na Cooper Union School of Art, em Nova Iorque, enfrentaram depois de, em consequência de uma gestão catastrófica dos administradores, terem sido forçados a pagar uma educação até ali gratuita, ou escutando num contido fascínio as suas lembranças de adolescente na zona leste de Beirute, capital de um país dilacerado pela guerra civil, ou mesmo quando, já adulto, depois de ter emigrado para os EUA – onde concluiu o liceu para, em seguida, estudar fotografia e fazer a licenciatura em Estudos sobre o Médio Oriente no Instituto de Tecnologia de Rochester, doutorando-se em Estudos Visuais e Culturais na Universidade de Rochester –, começou a desenvolver projetos artísticos que exploram a história contemporânea do Líbano e, por extensão, de toda aquela região. Tão astuto quanto delirante, Raad lembra uma aranha tecendo uma teia de uma amplitude extraordinária, estabelecendo relações entre o recente surgimento de ostentosas infraestruturas artísticas no mundo árabe, sejam galerias, feiras de arte, museus ou bienais, e os conflitos geopolíticos, económicos e militares que assolam a região.

Raad apresentou projetos artísticos contínuos como “The Atlas Group (1989-2004)” e “Scratching on things I could disavow” (2007-), que no fundo são os dois capítulos centrais de uma elaborada ficção em que semiobscuras organizações ou grupos se dedicam à investigação, preservação e produção de documentos, sejam eles fotografias, vídeo ou textos, pretensamente históricos, misturados com outros pura e simplesmente fabricados, originando arquivos espetrais que oferecem uma outra história das últimas décadas no Líbano, ecoando os efeitos traumáticos da destruição causada pela guerra.

Num ensaio sobre este modo de pensar a realidade com base numa teia em que cada ilusão reforça aquele odor temível de humanidade dos grandes relatos históricos, Alan Gilbert nota que, em face de experiências traumáticas, frequentemente se produzem amnésias individuais e coletivas, a par de sintomas psicológicos que sinalizam acontecimentos demasiado dolorosos para que se possa lidar com eles a um nível consciente. “Neste sentido, os sintomas funcionam como estranhos documentos. E são muitas vezes sinónimo de uma narrativa – ainda que fraturada, distorcida e irreal – que procura fazer sentido de um evento que carrega algo de fundamentalmente inexplicável”, diz Gilbert, adiantando que “boa parte do trabalho de Walid Raad investiga, não o fracasso das imagens para representar acontecimentos traumáticos, mas a recusa do real em ser inscrito como uma imagem legível”.

Ao descrever o procedimento de Sebald, James Wood opõe-o à “banal leveza ‘faccional’ de escritores como Julian Barnes e Umberto Eco, que pegam nos factos e os desestabilizam superficialmente dentro da ficção, que os agitam um pouco, mas cujas obras são, na verdade, um tributo à religião dos factos”. Num ensaio que dedica ao autor de “Os Anéis de Saturno” – incluído em “A Herança Perdida” (Quetzal, 2012) –, Wood diagnostica àqueles escritores uma forma de “neurose informativa” que torna as suas ficções ruidosamente inofensivas: “Para estes escritores, os factos são um desporto, acessórios semióticos e são, em última análise, de fácil interpretação”.

À semelhança do que acontece na obra de Sebald, Walid Raad não vê a ficção como algo que corre paralelamente à verdade, mas como um método de incidir sobre ela, interpretá-la e conferir-lhe um significado profundo. Como Orit Gat escreveu na sua crítica da grande retrospetiva que lhe dedicou o MoMA, há dois anos, o resultado é uma seleção de documentos que, “essencialmente, narra uma experiência do lugar; que esta seja apresentada como experiências íntimas de pessoas que não existem apenas as faz parecer mais universais, uma vez que nada nestas histórias se dá a ler como falso – exceto o facto de serem falsas”.

Retomando a comparação com Sebald, diz-nos o crítico da “New Yorker” que este escritor “transforma os factos em ficção entrelaçando-os tão profundamente nas suas formas narrativas que nos dá a impressão de nunca terem pertencido à vida real e de apenas na prosa de Sebald terem encontrado a sua verdadeira existência”. Wood acrescenta que “é este o movimento de qualquer ficção poderosa, por muito realista que seja: inserido na ficção, o mundo real ganha contornos mais fortes, mais ásperos, porque recebe um padrão intricado que não existe na vida real”. E a razão por que esta obra teve um impacto tão revigorador para a arte do romance, nomeadamente pela superação do relativismo e dissolução próprias de muito do pós-modernismo, foi, como o crítico lembra, porque nesta “os factos tornam-se ficção não no sentido de passarem a ser mentira ou de serem distorcidos, mas no sentido de adquirirem uma nova realidade, através de um processo que parasita e, ao mesmo tempo, rivaliza com o mundo real”.

Ao cair da noite do passado dia 7, entre a confusão e o deslumbramento, o público que assistiu à palestra-performance de Walid Raad terá estranhado a desenvoltura expressiva, mesmo carismática, de alguém que se mostrava nervoso, com o rosto velado pela sombra que a luz do projetor adensava ao bater na pala do boné. Pediu desculpas, explicando que o uso do adereço se devia a uma superstição, ajudando-o a lidar com a angústia de falar perante uma audiência tão numerosa. Isto de um homem que, além de realizar este género de apresentações da sua obra em grandes museus por todo o mundo, dá aulas há 27 anos numa elitista escola de artes nova-iorquina, tanto serve para ganhar a empatia do público como para ativar a sua suspeição. E se, no início, o tom era o da habitual reportagem neutra, aos poucos, a narrativa ia alcançando notas cada vez mais dissonantes. Com cada desvio ficávamos mais próximos de admitir possibilidades que, não sendo já verdadeiras, não poderiam ser tidas como mentiras. Como elementos vivos de realidades ficcionais, pareciam exemplificar como o que parece falso, e pode até soar a teoria da conspiração, acontece amiúde, ao passo que aquilo que nos encanta, porque mais ressoa intimamente, nasce de um balanço produzido pela ficção ao rivalizar com a vida real. Como a consciência que nasce a partir de tudo o que se perdeu. Essa dor própria dos fantasmas de tudo o que podia ter sido. Fantasmas que duvidam de nós, como nós deles. 

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