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Startups. “Não há cidade na Europa tão aberta como Lisboa”

Startups. “Não há cidade na Europa tão aberta como Lisboa”

Mafalda Gomes Filipa Traqueia 15/11/2018 20:57

Uma semana depois do evento tecnológico, a questão impõe-se: o que recebeu Lisboa com três edições de Web Summit? Miguel Fontes dá a resposta: “O mundo está a redescobrir Lisboa”

Aos seis anos de atividade, a Startup Lisboa já pôde experienciar a era pré e pós--Web Summit. Miguel Fontes, CEO da incubadora, usa os números para mostrar que a capital portuguesa passou a atrair muito mais empresas estrangeiras depois de a cimeira criada por Paddy Cosgrave se ter instalado no Parque das Nações. Enquanto o Padrão dos Descobrimentos vai lembrando a época em que Portugal “descobriu o mundo”, a tecnologia fez com que os papéis se invertessem e é agora o mundo que está a descobrir Portugal.

 

O que retira da edição da Web Summit deste ano?

Acho que é possível fazer uma comparação entre a Web Summit e a vida de uma startup. O que uma startup tem de fazer primeiro é a chamada prova de conceito - o produto mínimo viável (MVP na sigla em inglês) - e eu acho que foi isso que aconteceu nestes três anos. Este ano, a cimeira saiu do early stage, em que o investimento é só capital, e passou a preparar-se para um crescimento rápido. Isso é visível no número de participantes, de stands e de entidades. A segunda parte tem a ver com a ideia de maturidade. As pessoas já aprenderam e já perceberam que, para tirarem verdadeiro valor da Web Summit, têm de fazer o trabalho de casa. E isso varia em função do perfil de cada um: se sou uma start-up e o que me move é procurar parceiros para o meu projeto, é um trabalho; se o que me move é fazer algum trabalho de mapeamento da concorrência, é outro; se procuro investidores, é outro; e assim sucessivamente.

E para quem não está ligado diretamente à tecnologia, o que traz a cimeira?

O cidadão comum é quem tira mais proveito. Não anda atrás de ninguém, não anda preocupado com agendas, não anda à procura de reuniões e tem todo o tempo para pegar na sua aplicação, escolher o que quer ver e acompanhar as sessões. Pode ainda perceber como a digitalização está a ter impacto no setor da saúde, da mobilidade, dos média, todos os setores. Eu acho que isso é brilhante. Nós às vezes não temos a noção de que, durante estes três dias, convergem nesta cimeira vários players relevantes que estão a fazer o mundo mudar. Eu tive a oportunidade de jantar ao pé de um senhor que foi responsável por fazer a arquitetura da Netflix e que hoje está no Amazon Web Service. É evidente que estas pessoas não estão acessíveis a toda a gente, mas estão acessíveis a muita gente da sociedade portuguesa.

E o impacto para Portugal? Desde que a Web Summit veio para cá tem havido maior procura de startups estrangeiras para se fixarem em Lisboa?

Claro que sim. Cada vez somos mais procurados de fora para dentro por empreendedores que querem vir desenvolver as suas startups em Lisboa. A Startup Lisboa passou de uma percentagem de 20% de startups estrangeiras para perto de 50% no espaço de três anos. Isso significa que o mundo está a descobrir Lisboa como o local certo para empreender, construir e investir. Mas não são só as startups. De repente, nós temos aqui o hub digital da Mercedes, a Volkswagen abriu esta semana o centro digital, a Google vem para cá. Estamos a viver a era do digital, que está a criar oportunidades como nunca tivemos. Portugal foi sempre prejudicado, enquanto país, por ser uma economia pequena com um mercado muito limitado e com muita dificuldade em ser competitivo. Isso acabou com o digital. O que é relevante é ter o talento e a qualidade, e isso, nós temos. 

O que tem Lisboa em concreto para ser tão atrativa para as startups?

Às vezes não temos noção, mas somos altamente inovadores. O multibanco foi das tecnologias mais sofisticadas das fintechs que o mundo conheceu. Tratamos o multibanco há 20 anos por tu e há países que ainda hoje não têm uma rede tão sofisticada de serviços financeiros. Temos uma rede de acesso à banda larga absolutamente notável, do ponto de vista tecnológico. A capacidade de termos acesso ao tal talento, às pessoas que saem das nossas universidades em quantidade e qualidade, é muito relevante. E depois somamos a isto tudo aquilo que sempre tivemos: um país de gente simpática, que sabe acolher, aberta ao mundo, à diferença, onde não há conflitos étnicos, religiosos. Não há nenhuma cidade na Europa tão aberta como a capital portuguesa. As praias e o sol, sempre tivemos. É a cereja em cima do bolo. Mas o bolo foi construído pela inovação, pela tecnologia, pelo empreendedorismo. Há dez anos contavam-se pelos dedos de uma mão as empresas nascidas em Portugal que fosse referências internacionais no seu setor de atividade. Hoje temos variadíssimas.

Temos até três unicórnios...

Mais relevante do que ter três unicórnios - não estou a tirar nenhum valor a quem o é - é termos, logo a seguir, um conjunto de empresas que estão a dar cartas no que estão a fazer. Estão a trazer valor, a trazer inovação.

Podemos dizer que somos novamente os descobridores do “mundo novo”, sendo o mundo novo a tecnologia?

Gosto mais de dizer que, desta vez, é o mundo que nos está a descobrir a nós. Acho que isso está inscrito no nosso ADN enquanto país. Estamos a redescobrir o mundo e o mundo está a redescobrir-nos a nós.

A uma pessoa que queira ser empreendedor e criar uma startup, que conselhos daria para ser, quem sabe, o próximo unicórnio português?

O primeiro conselho é que não pense nisso. Pode ser altamente inspirador, mas não acredito que seja a motivação certa. Há muito trabalho e é preciso falhar muitas vezes antes disso. Temos de ter a noção de que vivemos num mundo altamente competitivo e ser unicórnio significa estar na liga onde estão os melhores dos melhores. Se uma pessoa tem a motivação para ser empreendedor, acredito que há três condições muito simples: é preciso querer, saber e poder. Querer, porque tem de pensar bem o que quer da sua vida. Nem toda a gente tem as características necessárias para ser empreendedor e isso não tem nada de mal. Saber, porque convém que a pessoa desenvolva uma ideia numa área onde tem skills particulares e onde está disponível para aprender e crescer muito. Ninguém vai desenvolver uma ideia de negócio numa área em que manifestamente não tem competências. E, em terceiro lugar, poder, porque - e não gosto de fazer poesia com isto - é muito dura a vida de empreendedor. Até receber investimento, há um custo de oportunidade. A pessoa não está a receber o salário de ninguém, significa que está a trabalhar horas e horas numa luta contra o tempo para conseguir fazer a tal prova de conceito até estar em condições de ter um mínimo para mostrar a um investidor que acredite no projeto e que nele invista. Exponham-se, aprendam, participem no máximo de coisas possível, é a minha sugestão.

Sobre a Startup Lisboa, qual é o papel de uma incubadora?

A nossa missão resume-se a duas áreas. A primeira é ajudar os empreendedores a desenvolver as suas ideias de negócio e a crescerem; a segunda é fazer com que Lisboa seja reconhecida como uma cidade empreendedora, criativa, inovadora e tecnológica. Ajudar as startups e os seus empreendedores passa por cinco eixos: primeiro, uma rede de mentores. Estamos permanentemente a identificar pessoas de altíssima qualidade, com a expertise técnica de mercado que, numa determinada fase do processo de desenvolvimento de um negócio podem fazer a diferença promovendo networking a esses empreendedores. A rede de parceiros - tecnológicos mas não só, parceiros legais ou estratégicos - que trazem valor àquilo de que as startups precisam na fase de arranque é o segundo eixo. Em terceiro lugar trabalhamos a dimensão de reconhecimento e de comunicação. Fazemos aquilo a que gosto de chamar a função de eco das startups, ou seja, não nos substituímos ao trabalho de promoção que elas têm de fazer, mas ampliamos através da marca da Startup Lisboa - e serem reconhecidas não é só pelo grande público, é também junto dos players que são relevantes. E esse é o quarto vetor: fazer o cruzamento com os investidores, sejam eles business angels ou capitais de risco. Por último - o mais importante para nós -, dinamizamos a comunidade. Acreditamos que os empreendedores, mesmo trabalhando em modelos de negócio e áreas diferentes, enfrentam o mesmo tipo de problemas e podem partilhar muitas experiências. A melhor estratégia para acelerar a sua ida para o mercado e queimar etapas é aprendendo com os insucessos dos outros. Quando as pessoas julgam que incubação é só um espaço físico, estão enganadas. É esta proposta de valor que faz a diferença.

Quantas empresas têm atualmente e como é feita a seleção?

Temos neste momento incubadas quase uma centena de empresas precisamente nessa dupla modalidade e em fases diferentes de desenvolvimento. Preferia dizer que temos 100 projetos connosco.

Temos um processo de candidatura sempre aberto. Recebemos cerca de 100 candidaturas a cada três meses e escolhemos entre 20 e 25 de cada vez para irem fazer o famoso pitch em frente a um júri constituído por pessoas externas à Startup Lisboa - investidores, outras incubadoras, antigos empreendedores e pessoas próximas deste ecossistema que nos ajudam nesse processo. No fim escolhemos cinco a seis startups para entrar. Somos muito seletivos, mas não é para dizer que somos difíceis. Temos uma capacidade instalada limitada.

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