15/11/18
 
 
José Paulo do Carmo 09/11/2018
José Paulo do Carmo

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Segurança, o cartão-de-visita português

 Já sabemos que não é só na economia, mas muito do que se passa na nossa vida é sujeito à lei da oferta e da procura, e quanto mais escasso se torna algo, conjugado com a subida da sua procura, maior valor tende a ter

A par da saúde, penso ser hoje em dia a segurança o “bem” mais procurado do mercado, quer seja profissional ou pessoal. Já sabemos que não é só na economia, mas muito do que se passa na nossa vida é sujeito à lei da oferta e da procura, e quanto mais escasso se torna algo, conjugado com a subida da sua procura, maior valor tende a ter. Esta recente variável, que não pode ser considerado um bem transacionável mas acaba por entrar na equação das opções que são tomadas, vem criar um novo paradigma na sociedade e alterar substancialmente aquilo que eram, até há bem pouco tempo, as tendências de mercado e, consequentemente, os seus valores.

Se voltarmos à pirâmide das necessidades de Maslow, frequentemente usada na psicossociologia e ainda tão atual, conseguimos perceber isso mesmo. A seguir às nossas necessidades fisiológicas, em que a saúde é transversal, a segurança aparece logo a seguir, mas com um fator fundamental que as distingue. Enquanto na primeira, por muito que o dinheiro possa comprar o acesso aos melhores médicos e aos tratamentos mais inovadores, sabemos que a lei da vida é mais forte e muitas vezes incontornável, já na segurança podemos perfeitamente, através da nossa riqueza, reduzir ao mínimo os riscos, controlando os passos que damos e escolhendo os sítios mais seguros para viver ou desenvolver os nossos negócios.

Isso tem sido preponderante para o crescimento de Portugal como destino sob as suas mais diversas formas, quer no turismo quer na captação de investimento que possa alavancar a nossa qualidade de vida. Basta estarmos um pouco atento às notícias para perceber o fluxo crescente que temos tido de pessoas que nos procuram seja porque vivem em países europeus mais expostos ou simplesmente porque têm capacidade financeira para optar por sair de países mais inseguros que o nosso. Porquê? Porque nem nós às vezes temos noção do quão valioso pode ser podermos sair à rua sem risco iminente de assaltos ou raptos ou não estarmos sujeitos à volatilidade de regimes políticos altamente inconsistentes e, por isso, instáveis.

A questão é que, nas zonas do planeta mais expostas, pelas mais diversas razões, para recuperarem essa mesma segurança, as pessoas têm de chocar de frente com uma série de liberdades que as pessoas de bem deram como adquiridas, o que acaba por as levar a um dilema. Queremos viver numa sociedade mais livre ou mais segura? Essa seria, em primeira instância, uma opção que ninguém deveria ter de tomar porque ambas são fundamentais para a consolidação da nossa forma de estar e para o que entendemos ser um crescimento sustentado. O problema é que, para recuperar certas seguranças, estas infligem fortes danos ao que tantos séculos demorámos a conquistar. Moral da história: em muitos sítios ou em quase todos, não é compatível ser-se livre e estar seguro ao mesmo tempo, e essa discussão vai acabar por tomar lugar de uma forma direta ou indireta naquilo que são as nossas opções políticas e nos caminhos a seguir, e que já muita celeuma têm estado a levantar.

Nós, por cá, continuamos a ser nesse aspeto um paraíso na terra. Porque, com todas as desvantagens de sermos pequeninos e estarmos cá no cantinho, acabamos por conseguir ser, de uma forma bastante abrangente, quer uma quer a outra. Conseguir continuar com esse razoável equilíbrio por entre os tempos difíceis em que vivemos será porventura o maior desafio neste século. É fundamental que não o descuremos sob pena de, quando for tarde demais, termos de tomar medidas drásticas (como outros ) que nos castrarão uma das duas opções. As pessoas têm de ter essa consciência porque o nosso futuro estará umbilicalmente ligado a este novo paradigma. Se assim o conseguirmos manter, inconscientemente estaremos a construir os alicerces necessários para sermos um país mais rico e com mais oportunidades para as novas gerações.

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