14/11/18
 
 
Maria Judite de Carvalho. Tanta gente e ninguém

Maria Judite de Carvalho. Tanta gente e ninguém

Teresa Carvalho 08/11/2018 16:15

A Minotauro prossegue a publicação das obras completas da autora de “Tanta Gente, Mariana”, vinte anos depois da sua morte. As figuras que habitam os livros que compõem o  2.º volume continuam a ocupar aquele plano inclinado que as conduz à invisibilidade e ao desespero surdo

Deixemo-nos de histórias: antes mesmo de a Minotauro (grupo Almedina) se ter abalançado na reedição das obras completas de Maria Judite de Carvalho, não estava a escritora “completamente” indisponível, “absolutamente” esgotada, ausente, sumida ou em parte incerta do território nacional. Quem foi ao seu encontro sempre deu com ela - arrumada nos recônditos de algumas livrarias, em alfarrabistas, nas bibliotecas, nas estantes dos bons leitores. Quer dizer: Maria Judite de Carvalho nunca faltou a quem a quis ler, a quem não a esqueceu, a quem sempre guardou na retina uma Mariana à beira-lágrima, bebendo, desesperadamente e até à última gota, pela taça milenar da solidão; a quem não conseguiu soltar-se da imagem de Dora Rosário, “viúva de carreira”, póstuma de si mesma, sem dramatismos espetaculares. 

Há que reconhecer, no entanto, que esta iniciativa da Minotauro representa um impulso louvável na divulgação da obra da escritora junto de novas gerações de leitores. A sua escrita, centrada no existir quotidiano (de que Maria Judite era espectadora céptica e desencantada), construída com implícitos e insinuações, lances não revelados, silêncios elevados à dignidade das melhores palavras, desafia estes tempos que a tudo pedem legibilidade máxima. 

Maria Judite de Carvalho surge-nos como um daqueles raros casos em que o retrato promocional - quantas vezes distorcido, piamente aumentado, alindado e até farsante (acontece com enervante frequência) - se não acerta aqui com o real perfil literário que descreve é apenas por pecar por defeito. Anunciá-la como “uma das vozes femininas mais importantes da literatura nacional do século XX” desconforta o ouvido dos seus leitores mais constantes. O selo, velho e carcomido, da “escrita feminina” é tão redutor e desajustado como escusado será o prefácio que Urbano Tavares Rodrigues, com quem a escritora foi casada, assina no primeiro volume, saído em maio deste ano, e em que se reuniam os dois primeiros livros de contos da escritora, “Tanta Gente, Mariana” (1959) e “As Palavras Poupadas” (1961), um título que quadraria bem a toda a sua obra. Se, por um lado, esse prefácio faz entrar pelo século XXI a sombra a que a escritora sempre se terá acolhido, por outro, ele ressoa como uma oração fúnebre, precisamente num momento em que ela mais desconvém, em que mais interessaria trazer Maria Judite de Carvalho à atualidade literária. 

Caso diferente é o prefácio que abre este segundo volume, onde se agrupam mais três títulos originalmente publicados ainda na década de 60: o emblemático “Paisagem sem Barcos”, “Os Armários Vazios” e “O seu Amor por Etel”. Batista-Bastos, o autor deste prefácio, começa por assentar-lhe os pés na tradição dos grandes contistas portugueses - Branquinho da Fonseca, José Cardoso Pires, Irene Lisboa, José Rodrigues Miguéis, entre outros - e termina com o justo selo: “Maria Judite de Carvalho, sobre ser uma das maiores escritoras da literatura de língua portuguesa, é uma leitura permanentemente renovada, a constante aparição de um setor novo, de áreas diferentes, originais. Um sussurro, uma voz em surdina, uma cumplicidade mais proposta do que imposta”. 

Se é certo que o reconhecimento da qualidade admirável dos seus livros nunca tardou, também o é que esses livros não vendiam, que os leitores nunca abundaram. E a autora de “Tanta Gente, Mariana” também não se pôs a correr atrás deles - feiras do livro, sessões de autógrafos, beberetes, numa perpétua gincana (de resultado tantas vezes inane) à qual era congenitamente avessa. Os seus contos tinham pernas para andar por si mesmos, fariam o seu caminho discreto. Num atípico posicionamento institucional, cultivava uma atitude reservada, distanciada dos mecanismos convencionais da afirmação literária. Raramente consentia em aparecimentos públicos, raras vezes dava entrevistas, não participava em sessões literárias ou lançamentos dos seus livros. E quando aparecia, como aconteceu por ocasião da entrega dos mais altos galardões literários com que foi distinguida, recusava o papel de mera fabricadora de discursos expectáveis. Esta discrição terá contribuído para que M.ª Judite de Carvalho tivesse passado pelos olhos do público devagarinho, sussurradamente. Ficou apenas nos olhos daqueles para quem o escritor é mais que um prosélito de lançamentos e escaparates e a vida literária mais que um projeto de visibilidade. 

Mas haverá razões de maior peso. Não é a sua uma ficção de saciar estantes nem de aquecer invernos; despreza, aliás, o bom tempo e os caminhos fáceis, explicadinhos, pede corta-ventos, agasalhos e guarda-chuvas para as bátegas que não param de cair sobre uma superfície textual densa de sentidos, com uma sóbria margem metafórica: “O pior é a chuva. Que tempo! Há quinze dias…” Faz-nos atravessar “dias escuros, sem sol, ou de sol molhado e hesitante”, “dias pequenos como que mirrados pelo frio”, um frio que passa de uns livros para os outros, desce sobre o corpo, percorre-o e entra pelos ossos, num envolvimento de desolação que nos põe diante de uma fundamental descoberta: estamos sós no mundo. Chegará o dia em que, para onde quer que nos voltemos, daremos apenas connosco. É o caso das muitas mulheres que, no seu comum existir, povoam a ficção de Maria Judite de Carvalho, na aprendizagem contínua dessa solidão angustiada, no seu desencanto calado. Mas também o caso do homem que no conto “A Flor da Vida” (“O Seu Amor por Etel”) procura um lugar onde não faça frio; acabará, sem réstia de azul, “a sorrir em frente a coisa nenhuma e contínua, fustigado pela chuva, fatigado pelo peso da mala, o seu caminho incerto.” Situa-se agora no mesmo plano inclinado da Jô de “Paisagem sem Barcos”, conduzidos ambos à inércia do conformismo e à cedência. Nada mais podem fazer senão constatar que o amor é apenas ansiedade desfeita, conjetura e desencontro, normalidade ameaçada, frio agudo a penetrar no corpo. 

O vento também sopra nesta ficção, atravessando de ponta a ponta alguns contos. Se acontece soprar com força agreste de escavar entranhas, o mais comum é aquele furor ameno, subtil mas cortante, que, como escreveu Herberto Helder, distingue o grande escritor do pequeno movimentador de correntes de ar. A escrita terá sido para Maria Judite de Carvalho rebelião e abrigo.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×