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Benfica-Ajax. Os cinco golpes de navalha do assassino silencioso

Benfica-Ajax. Os cinco golpes de navalha do assassino silencioso

DR Afonso de Melo 07/11/2018 11:43

Maio de 1980. No Torneio de Paris, Benfica e Ajax encontraram-se. Vitória dos portugueses por 5-1. Imponente, apesar de não ser um jogo oficial. Mas imponente mesmo foi Nené! Marcou por cinco vezes

Nas touradas anunciar-se-ia: Cinco-Golos-Cinco! Cinco golos do Benfica; cinco golos de Nené. Há que convir que não é proeza que se assine todos os dias. O jogo não foi oficial, é verdade, mas contava para um dos mais prestigiados torneios internacionais: “Tournoi de Paris”.

Foi nesse torneio que Eusébio se deu a conhecer ao mundo após um extraordinário Benfica-Santos. Isso em 1961. Os cinco golos de Nené foram em 1980: 22 de maio.

As coisas nem correram por aí além para os encarnados, afastados da final pelo Standard Liège depois de um empate (1-1) e grandes penalidades (4-5). Curiosamente, o penálti decisivo dos belgas foi apontado por Norton de Matos, que tinha jogado no Benfica. Já Preud’homme defendeu o remate de Shéu. Quanto ao golo português, teve lugar à passagem do minuto 20. Autor? Nené, pois claro!

Tamagnini Manuel Gomes Baptista estava numa forma endiabrada. Devia gostar dos ares parisienses. No jogo que decidiu o terceiro e quarto classificados foi por aí fora, imparável: 18, 36, 63, 65 e 76 minutos. Os minutos de Nené! 

O primeiro golo começou num livre de Carlos Manuel. Bola impecavelmente colocada na cabeça do homem sem contemplações. O segundo veio de um passe de Humberto para as costas da defesa. Como gostava Nené desses lances... O terceiro foi totalmente de Carlos Manuel, que desatou a fintar adversários até dar a bola para o lado. O quarto e o quinto pareceram repetições do segundo.

Piet Schrijvers, aquele guarda-redes ligeiramente arredondado que esteve nos Mundiais de 1974 e 1978, andava com a cabeça num sino. Que diabo! O assassino silencioso marcou-lhe golos de todas as maneiras e feitios: dois deles fantásticos de oportunidade, a desferir aqueles pontapés em arco que deixavam qualquer keeper sem resposta. Nené era assim mesmo: ia a passar e marcava um golo. Com o desplante de um rapaz que andasse às papoilas num campo de gipsofila.

A dose podia ter sido mais bruta se o árbitro francês Riffaud não tivesse anulado um golo ao avançado do Benfica, aos 44 minutos, num movimento em que Reinaldo foi considerado impedido a despeito de não ter participado no lance.

Se o meio-campo do Ajax, com Lerby (reduziu para 1-5 aos 87 minutos), Arnesen e Tahamata, ainda se afirmou com classe, a defesa nunca se entendeu com a marcação ao endemoninhado Tamagnini. Jensen, o capitão, via-o passar como se estivesse a ver passar comboios. E Nené ia, ia e marcava golos.

Robert Vergne, um dos grandes nomes da “France Football”, escreveu: “O Benfica, por si só, conferiu ao Torneio de Paris o nível que ele está obrigado a assegurar.” Já Nené estava a renovar o contrato com o Benfica. Gaspar Ramos esclarecia: “Nené continuará no Benfica por mais dois anos. A menos que surja uma verba que nos faça modificar por completo a nossa visão do problema.” Não ficou mais dois, ficou mais seis. Sempre a marcar golos!

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