15/12/19
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 07/11/2018
Eduardo Oliveira E Silva

opiniao@newsplex.pt

Fake promessas geram fake news

Se houvesse menos gente defraudada nas suas expectativas devido às falsidades com que lhes acenam, haveria menos pasto para a circulação de “fake news”

1. Um dos temas atuais é a invasão e multiplicação das chamadas “fake news” que em tempos não longínquos se espalhavam numa forma que se designava de boatos credíveis. Portanto, hoje, estamos fundamentalmente confrontados com uma nova roupagem e novos veículos para uma prática antiga. Claro que a existência de redes sociais, a falência dos jornais, a morte do jornalismo de rigor e o facilitismo com que as pessoas procuram informar-se estimulam enormemente o papel dos produtores de notícias falsas, mas credíveis.

A multiplicação desta praga não tem apenas a ver com o definhar dos média impressos e audiovisuais clássicos, nem com a sofisticação comunicacional proporcionada pelas redes sociais e o seu acesso, sem hipótese nem vontade de escrutínio por gente mais impreparada.

Esta nova realidade advém de grupos de interesses diversos que aproveitam a desinformação geral e o estado de desânimo e desinteresse das populações para fabricar “fake news”, a fim de alcançar os seus propósitos, manipulando a opinião pública e desvirtuando a verdade.

É preciso, no entanto, ter a capacidade de reconhecer que, em grande medida, as “fake news” são uma óbvia decorrência de uma prática que hoje está cada vez mais generalizada: “as fake promessas”, ou seja, a mentira, a demagogia e a corrupção de toda a espécie que mancha, nomeadamente mas não só, a atividade política por todo o mundo, seja em democracia ou em ditadura. Se houvesse decoro em áreas como a política, os negócios, o comércio, o mundo financeiro, a religião, a cultura e os espetáculos também haveria menos pasto para as campanhas de calúnias. Isto sem esquecer o campo da inveja pessoal, um mal tão antigo como a própria humanidade.

O sucesso das falsidades resulta muito do clima de hostilidade dos povos em relação aos políticos e às suas mentiras que são cada vez em maior número e cada vez mais sentidas pelo cidadão comum, que espera uma coisa e recebe exatamente o seu contrário, depois de ter eleito fulano ou beltrano.

Também não vale a pena falar só de países como os Estados Unidos, o Brasil ou o Reino Unido para estudar este fenómeno. As “fake news” estão por toda a parte, dos grandes estados aos pequenos universos tipo freguesia. As falsas promessas e falsas expectativas dadas às pessoas são devastadoras da credibilidade política, do sistema democrático e da justiça. São elas, as falsas esperanças e as tiradas demagógicas, que, em primeiro lugar, destroem e a confiança. São elas que alimentam as mentiras que, hoje, atingem proporções inimagináveis há poucos anos.

As “fake news” não são exclusivas da política. Multiplicam-se em todos os setores da atividade humana. Mas é obviamente no campo político que as falsidades são mais perigosas porque influenciam diretamente a vida quotidiana de milhões de cidadãos. Essas mentiras são e serão cada vez mais possíveis, cada vez mais numerosas e cada vez mais credíveis, quanto mais se verificarem discursos de “fake promessas” deliberadas, frustrando expectativas e destruindo a credibilidade que ainda resta. Objetivamente, só há uma forma de minorar o flagelo devastador das “fake news” e os danos que ele causa. É através da eliminação e denúncia das “fake promessas”. É preciso criar uma prática em que só passa, só cresce, só é reconhecido quem falar verdade e cumprir a maioria das coisas que prometeu, sabendo explicar com frontalidade porque falhou num ou noutro ponto.

Nos Estados Unidos, deu-se agora início à transmissão dos últimos episódios de “House of Cards”, uma série emblemática que lançou o Netflix. Há quem assegure que foi o comportamento devasso e amoral de Kevin Spacey que precipitou o fim da série. Talvez não. Porventura a razão está na circunstância da mentira, dos jogos de bastidores e das jogadas baixas da vida real terem ultrapassado aquela ficção. E não só nos Estados Unidos. Há também muita coisa parecida ou pior na nossa Europa e pelo mundo fora.

2. Num mundo político onde se multiplicam escândalos, há uns quantos cidadãos que merecem referência pela seriedade e decoro que mantêm. António José Seguro é um deles. Desde que foi apunhalado por António Costa, o ex-líder socialista tem-se remetido a um silêncio profundo, apesar de pontualmente surgirem afirmações a seu respeito nem sempre abonatórias. Seguro passa sobre isso, sem vir à liça esclarecer e rebater, como seria seu direito. Num certo sentido, Seguro assumiu a mesma postura que Fernando Nogueira, desde que deixou a liderança do PSD. Seguro refez a sua vida e demonstra ser um homem sério e, quer ele queira quer não, uma referência no seu campo político e não só. Mário Soares contava com admiração que, em dada altura, Seguro não hesitou um minuto em deixar o parlamento europeu onde recebia um mais do que chorudo vencimento e regalias adjacentes para aceitar ser ministro de António Guterres, quando já se percebia que esse primeiro-ministro não ia durar muito tempo. Quantos fariam o mesmo? Ontem poucos. E hoje...? E quantos resistiriam a manter-se em silêncio?

 

Jornalista

 

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