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Roberto Arlt. Literatura e ressentimento, ficção e farsa

Roberto Arlt. Literatura e ressentimento, ficção e farsa

Diogo Vaz Pinto 01/11/2018 14:35

Saiu há semanas um livro de contos do escritor a quem Bolaño se referiu, "modestamente", como Jesus Cristo. Neste prodigioso volume, sobressai aquele que lhe dá título: "Escritor Fracassado". Uma ficção para humilhar tantas outras que não passam da sopa requentada de frívolos egos

Por duas vezes, Arlt pegou fogo à sua residência nas malogradas tentativas de fazer nome como inventor. Chegou mesmo a patentear uma meia com reforço de borracha no calcanhar, e se foi dar à literatura, não foi tanto por uma devoção à arte, mas do mesmo modo que se meteu em tantas outras empresas insensatas procurando ganhar uns cobres. Passou a vida endividado, e nem é a lenda que o reza, é sabido de toda a gente que começou a escrever aceitando o desafio de um amigo que lhe acenou com uma qualquer soma caso escrevesse um conto. Se outros poderiam ter recuado divisando não só o esforço como o risco, obrigados a despirem-se diante do espelho cruel de uma narrativa, tentando firmar alguma consequência para uma série de frases e páginas de texto, Arlt não só aceitou como não perdeu tempo. E não foi apenas por o amigo se ter surpreendido com o vigor da primeira tentativa, mas a noção de que ali estava uma forma de sacar algum dinheiro à sua imaginação.

Ricardo Piglia traçou de forma mais do que convincente a importância que o dinheiro assume nos textos de Arlt, e conclui a entrevista em volta dele, incluída no volume "Crítica y ficción", notando que para ele, no fundo, a ficção é essa "máquina de fabricar pesos" (a moeda é claro) da qual fala numa das suas "água-fortes" – uma série de textos breves que escrevia para um jornal argentino. "A máquina polifacética de Roberto Arlt" é o nome que lhe dá. E o que está subjacente a esta geringonça é ainda aquele vento frio que nunca cessa de escavar o íntimo de quem passou mal, essas agruras a que antes tantos escritores chegavam a expor-se voluntariamente com o fito de terem depois matéria em que assentar as suas ficções.

De resto, esta inquietação com a matéria deixou-a Arlt expressa noutro dos textos daquela sequência, publicado em 1941, um ano antes de lhe ter falhado o coração, reformando-se precocemente e levando o escritor aos 42 anos. "Enquanto o romance moderno tem procurado determinar os mais subtis movimentos atómicos da alma dos personagens... os físicos, tentando determinar a arquitectura do átomo... vivem aventuras materiais... cujas consequências nenhum romancista até aqui foi capaz de deslindar, ou de transformar em romance... A aventura seria... descobrir o modo de subtrair um electrão de um átomo de hélio ao mesmo tempo que se beija uma mulher".

É fácil hoje, como sempre, aviltar e causar uma forma ou outra de urticária aos leitores que estão mais do que bem servidos pelas ficções que se atêm às convenções literárias e aos lugares comuns ideológicos, que em geral, como sublinha Piglia, costumam andar de mãos dadas. Mas deve ser-nos permitido fazer a defesa de uma literatura que surja como crítica cerrada a todos esses produtos culturais que seguem a trote na linha "da produção imaginária de massas". E nessa forja, tanto cabe o cinema, como esse romance atinadinho que os grupos editoriais mais impingem e que cumpre hoje as funções dos antigos folhetins, como, sobretudo, os novos meios de comunicação, que exponenciam o modelo do jornalismo enquanto meio difusor dessas pragas sociais, as ilusões em larga escala e os modelos limitados da realidade.

Para Piglia um dos aspectos que tornou tão pregnante a literatura argentina do século passado foi o modo como "trabalha a política como conspiração, como guerra; a política como grande máquina paranóica e ficcional". E no caso de Arlt, o carácter dos seus textos emerge da forma como toma "a falsificação e o crime como a essência do poder". E no muito que fez para se virar, Arlt partilha com alguns dos mais fulgurantes génios da literatura mundial – seja Balzac ou Camilo –, aquela visão tão corrosiva quanto esclarecida da forma como as sociedades modernas se organizam e como o dinheiro nela otorga "um poder infinito e é a única lei e a única verdade". Há um ar de denúncia que percorre as "utopias negativas" de Arlt, uma espécie de quixotismo negativo, na definição de Piglia, e isso leva a que os seus textos respirem a haustos de condenado, perturbando o leitor, alimentando as suas piores intuições sobre as ficções sociais em que a nossa sociedade assenta.

Na sua oficina, Arlt tem boa parte dos ideais que traficavam esperança nos seus dias degolados, um trilho nefando espalhado pela sua obra. Como observa Piglia, é um escritor "demasiado excêntrico para os esquemas do realismo social e demasiado realista para os cânones do esteticismo". Assim, não há nenhuma defesa do proletariado, nem muito que aproveite à noção da luta de classes; antes um diagnóstico sem apelo, considerando que "o trabalho só produz miséria e é essa a verdade última da sociedade". Ou seja, que os assalariados não têm outra coisa para contar a não ser o dinheiro que ganham. "Não há ficção possível no mundo do trabalho para Arlt", remata Piglia.

"Escritor Fracassado", o conto que dá título ao volume publicado há algumas semanas com selo da Snob e tradução de Miguel Filipe Mochila, merece ser tratado isoladamente, pois é não só o mais fulgurante momento daquela recolha que, originalmente, tinha o nome de outro conto ("El jorobadito"/ "O corcundinha"), como uma das mais arrasadoras reflexões sobre as pretensões que levam tantos escritores de segunda, terceira (e assim sucessivamente...) a porfiar entre os salões literários buscando consolo para as necessidades do ego. O conto é um massacre exercido pela consciência de um autor que, precocemente revelado, convida os juízos em redor a tomá-lo como uma grande promessa, acontece que, com o passar do tempo, começa a dar-se conta, da forma mais amarga (entre o trágico e o patético, antes de chegar à resignação), de que não tem nem o talento nem a convicção para criar uma obra de génio. É, em certo sentido, um desdobramento – cambaleando entre as profundezas da angústia e a mais selvagem sátira que se possa imaginar – do poema de Leminski, que nos fez rir tanto da primeira vez, mas que, com o passar dos anos, se faz sentir como a mão calorosa sobre um ombro muito em baixo: "um dia/ a gente ia ser homero/ a obra nada menos que uma ilíada// depois/ a barra pesando/ dava pra ser aí um rimbaud/ um ungaretti um fernando pessoa qualquer/ um lorca um eluárd um ginsberg// por fim/ acabamos o pequeno poeta de província/ que sempre fomos/ por trás de tantas máscaras/ que o tempo tratou como a flores".

Do fundo do seu poço, o protagonista do conto de Arlt dá-nos um auto-retrato do artista quando estão mortas já todas as ilusões: "Era evidente que já não despertava interesse em ninguém. Recebiam-me afectuosamente onde quer que me apresentasse, mas recebiam-me com aquela cordialidade que se oferece aos cadáveres vivos. Não suscitava aquele cochicho curioso, aquelas torções de pescoço, aqueles ‘ah!’ sufocados, aqueles olhares insistentemente cravados que outros artistas a sério provocam com a sua presença mesmo quando considerada odiosa e inoportuna."

E este momento prossegue no registo de uma interioridade turbulenta entre o amanhecer e até ao sol se pôr do outro lado do ego. O conto é um esplendoroso manifesto que não se detém no clímax, mas continua e leva as suas ambições e o que têm de farsa até ao fim: "Também eu queria ser odioso para alguém. Escrever páginas malditas que os outros lêem resguardando-se dos seus semelhantes por julgarem ver nelas uma alusão à sua fisionomia espiritual, e depois, raivosos, indignados ou enjoados, deitam ao caixote do lixo, fingindo à frente do autor nunca as terem lido.
À minha frente, o vazio, a tolerância ou a simpatia."

Eis a mais inelutável das calamidades. O escritor que se ficou pelo sonho mas não alcançou a loucura. E é preciso aqui entender a loucura como “ruptura do possível”, já que, "para Arlt, estar louco é cruzar o limite, é escapar do inferno da vida quotidiana”, diz-nos Piglia. “No fundo, a loucura arltiana é uma forma da utopia popular. Sai-se da pobreza também por meio da ficção”, acrescenta.

Mas agora falta o outro lado. Falta perceber como se constituiu este “clássico sem legitimidade”, como foi possível a Arlt ver-se investido nesse contra-senso de um escritor que está mais vivo que nunca e que se furtou à canonização. A leitura de Piglia permite-nos perceber como, mais do que pungente, com todas as suas nódoas, as frases mal escritas, os exageros, o modo como tresanda aos desacertos da vida de Arlt, esta adquire uma força profética. Piglia diz que isto ocorre porque ele não trabalha com elementos conjunturais, mas com as leis de funcionamento da sociedade. Portanto, a raiz não está tanto na genialidade do escritor, mas na sua coragem e desatavio. “Arlt parte de certos núcleos básicos, como as relações entre poder e ficção, entre dinheiro e loucura, entre verdade e complô, e converte-os em forma e estratégia narrativa, converte-os no fundamento da ficção".

Se é certo que a literatura vive normalmente num estado de impasse, há também casos que têm provado à saciedade como os abalos profundos à volta dos quais depois se encasula essa grande e prestigiada malha das figurinhas de segunda ordem, que se deleitam ou esforçam por se fazer notar dando provas de sofisticação, surgem dos fundos da cozinha. É muitas vezes o ajudante que consegue um pequeno soldo a cortar batatas e a fazer outros trabalhos menores quem, alheio às especificidades e ao gosto do palácio, com o seu treino feito ao acaso entre a azafama do restante pessoal no esforço de satisfazer os caprichos do chef, acaba por experimentar às escondidas uma receita que, num desenlace típico de romance, conquista o paladar do rei e das cortes.

E, neste ponto, chegamos ao problema de dolorosa indefinição em que se encontra a ficção portuguesa, desde há algumas décadas, essa água-chirla que não escalda nem nos traz visões proféticas. Com excepções demasiado raras para aqui se lhes dar destaque, deve notar-se que não só os nossos ficionistas não parecem dar-se conta do quanto a sociedade é ela própria uma tremenda ficção, como não sentimos, ao lê-los, esse debate que distingue a literatura dos bordados (por mais criativos e mais úteis na decoração que se mostrem) e que passa por questionar a capacidade que tem a ficção de transmutar a realidade.

Chegados aqui, seja-nos permitido estabelecer um arco deste desfasamento entre a nossa ficção e a das literaturas  de outros países (algumas não menos periféricas) que têm mostrado um outro empenho, no que toca a reafirmar a ficção literária como uma forma avançada, não apenas de denúncia mas de especulação, face às ficções que somos forçados a engolir enquanto membros desta sociedade. Para esse arco, vale a pena também desmontar esse complexo que vê na crítica uma forma literária de segundo plano, assistencial no máximo, quando é evidente que, face ao enfraquecimento do papel social da literatura, a crítica tem a obrigação de criar condições para o reconhecimento das obras de excepção, ao invés de continuarmos neste atraso de vida, muito contentinhos e a celebrar as fórmulas bacocas que representam um estilo médio, e que resultam em obras irmãs da tal “produção imaginária de massas”.

“Não há nada mais terrível dentro de nós e sobre a terra e, talvez até, nos céus, do que aquilo que ainda não foi dito. Só ficaremos de todo tranquilos quando tudo tiver sido dito, dito duma vez para sempre; só então tudo estará em silêncio, ninguém mais terá medo de se calar”, isto afirma a certa altura Ferdinand Bardamu, o protagonista-narrador da “Viagem ao Fim da Noite”, de Céline. E é Luiz Pacheco quem fez o sublinhado em 1966 – ou seja, há mais de meio século –, na página 85 do seu livro “Crítica de Circunstância” (ed. Ulisseia). E, partindo dele, oferece “uma lição que o leitor de romances portugueses decerto gostaria de ver adoptada mais vezes e mais vezes conseguida pelos nossos ficcionistas. Lição árdua, ninguém o duvida; implicando uma coragem firme, uma lucidez sem peias ou, então, aquela dose de folia interior de que o génio caprichosamente se avizinha, e com a qual não poucas vezes clinicamente se confunde e o confundem”.

Se se tem falado aqui do triste estado em que se encontra a nossa crítica, incapaz de guerrear minimamente para impor algum entendimento que não seja a conveniência com o mercado, subjacente a isso está a irrelevância e, até, a frivolidade para a qual caminha cegamente a nossa ficção. “Mas uma literatura regrada, pautada por convenções e limites por de mais nossos conhecidos; uma literatura que se repete, glosando-se, de autor para autor e de época para época, não tem, nem é justo que tenha, grandes possibilidades de influência e de sobrevivência. Daí, a penosa sensação do ‘já lido algures’ quando folheamos uma obra portuguesa recente; daí, também, a quantidade de autores nossos, esquecidos e amortalhados na cinza do tédio que provocam no leitor de hoje e tiveram no seu tempo, quantas vezes por circunstâncias fugazes e alheias ao seu mérito criador, a aura suficiente para os elevar a esses museus da literatura que são os manuais onde ela se aprende e decora como ciência morta, e ali se nos revelam como mero índice de nomes sem nenhum significado nem grandeza, autores de obras afinal inúteis, vazias de qualquer conteúdo humano – sem uma personagem, um tipo, uma intriga, uma anedota, uma moralidade, uma frase feliz ou conceito que valha a pena fixar. Tudo morto, tudo literatice!”

 

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