23/8/19
 
 
Maria Helena Magalhães 31/10/2018
Maria Helena Magalhães

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Entregar o ouro ao bandido?

O Barrocal é quinta e mercado abastecedor do Algarve, tantas são as hortas e os pomares: laranjeiras, figueiras, amendoeiras

Na passagem do Barlavento para o Sotavento algarvios, o FIESA – Festival Internacional de Escultura em Areia é paragem obrigatória. Anualmente (vai na 15.a edição), de março a novembro, na vila de Pera encontra-se o recinto a céu aberto do FIESA, onde um naipe de escultores nacionais e estrangeiros dão corpo a magníficas esculturas de areia, gigantes, agrupadas em núcleos temáticos. Imperdível!

Depois, à medida que se avança, vai-se penetrando no Barrocal algarvio, que faz transição entre a faixa costeira e a serra, e observando curiosas mutações na paisagem. Desde logo, um Algarve mais bem preservado, que conserva povoados de traça mais original, e que parece mais imune à voragem turística desenfreada. Ele são aldeias brancas tradicionais, núcleos urbanos em que a definição de cérceas máximas contraria o desvairado crescimento em altura. Tavira é, porventura, o melhor exemplo disso. A cidade é encantadora, orgulhosa da sua história, que vem dos tempos da Reconquista, e do seu perfil tradicional: castelo, belos edifícios apalaçados, monumentos, igrejas – a Igreja de Nossa Senhora das Ondas é preciosa! Atravessada pelo rio Gilão e ataviada com graciosa ponte pedonal, no coração da cidade reina animação e uma babel de gentes. Mas Tavira também tem um pé na ria, a Ria Formosa; tem salinas brancas a brilhar ao sol; tem belas praias e duas ilhas, a homónima e a de Cabanas. Vale a pena dar um salto a Santa Luzia, típica vila piscatória, conhecida como “capital do polvo” dada a principal arte, com alcatruzes, dos pescadores da terra; e por arrasto veio o jeito especial de preparar o dito e, claro, uma catruzada de restaurantes para o servir. Bonito mesmo é pousar o olhar na imensidão de azul, céu e mar, que nos rodeia. Barcos e lanchas de pesca descansam por ali atracados no entardecer alaranjado, e uma infinita tranquilidade rasa-nos os sentidos. E pensar no que vai por esse mundo fora…

Já no concelho de Vila Real de Santo António, a pitoresca aldeia de Cacela Velha, branca e florida, e encimada por uma pequena fortaleza, oferece uma esplendorosa vista sobre a Ria Formosa! Um pouco mais adiante, no Sítio da Fábrica, um areal despido, um braço de ria e um barqueiro que, paulatinamente, vai atravessando quem vai à praia do lado do mar. A paisagem, naturalmente, é de pasmar! E o sossego, de espantar!

No mais, o Barrocal é quinta e mercado abastecedor do Algarve, tantas são as hortas e os pomares: laranjeiras, figueiras, amendoeiras… e, com sainete, romãzeiras já enfeitadas com os frutos redondos e rubicundos.

A tranquila beleza destes lugares visitados em dias outonais ainda soalheiros e quentes – que entretanto se esfumaram –, todavia, não chegou para arredar do pensamento a sombra das nuvens carregadas que vinham ensombrando o Brasil, anunciando borrasca e fazendo temer o pior; coisas de irmandade… E o pior aconteceu. Cansados de décadas de corrupção e violência, os brasileiros decidiram escolher uma suposta mudança mas, muito provavelmente, o que mudaram foi o paradigma democrático ao eleger Jair Bolsonaro, um extremista, para presidente do Brasil.

Oxalá os brasileiros não tenham entregado o ouro ao bandido. Oxalá!

 

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