07/07/2022
 
 
Juventus. O mês em que a Velha Senhora assassinou dois vizinhos ingleses...

Juventus. O mês em que a Velha Senhora assassinou dois vizinhos ingleses...

DR Afonso de Melo 30/10/2018 18:52

O recente Manchester United-Juventus trouxe à memória o primeiro confronto europeu entre ambos os clubes. Foi em 1976, para a Taça UEFA, e a Juve tinha acabado de eliminar o Manchester City 

Na passada semana o Manchester United-Juventus como que suscitou a atenção geral dos apaixonados pelos grandes confrontos europeus. E com razão. Muitas razões, até, e não apenas a de se poder ver José Mourinho contra um Cristiano Ronaldo que regressava a uma das suas mais carinhosas casas. Vitória da Juventus emOld Trafford, por 1-0, golo de Dybala, nada de inédito mas também nada de vulgar. Os dois gigantes já se defrontaram por 13 vezes para as competições europeias, todas elas, aliás, e o registo é equilibrado quase ao milímetro: cinco vitórias para a Juve, seis para o United, dois empates. Acrescente-se que apenas por uma vez os italianos tinham ganho em Manchester e já lá iam uns anos: 20 de Novembro de 1996, igualmente para a Liga dos Campeões, com o mesmíssimo resultado: 1-0.

Por curiosidade, registem-se os confrontos que se disputaram em Old Trafford: 1976 - Manchester United, 1 - Juventus, 0 (Taça UEFA); 1984 - Manchester United, 1 - Juventus, 1 (Taça dos Vencedores de Taças); 1996 - Manchester United, 0 - Juventus, 1 (Liga dos Campeões); 1997 - Manchester United, 3 - Juventus, 2 (Liga dos Campeões); 1999 - Manchester United, 1 - Juventus, 1 (Liga dos Campeões);2003 - Manchester United, 2 - Juventus, 1 (Liga dos Campeões); 2018 - Manchester United, 0 - Juventus, 1 (Liga dos Campeões). Não restam dúvidas que se transformou num clássico. E, já agora, ao correr da pena, vamos ao primeiro de todos.

Primeira! 1976-77 foi uma época verdadeiramente histórica para a Velha Senhora. Comandada por Giovanni Trappatoni, esse filho dilecto da vitória, como Napoleão chamava ao seu general Massena, com Zoff, Scirea, Causio, Cuccureddu, Tardelli, Bettega ou Boninsegna, conquistou a sua primeira taça uefeira, precisamente a Taça UEFA. Na final, ainda a duas mãos, superou oAthletic Bilbau com um muito renhido 1-0 (em Turim) e 1-2 (no San Mamés). Era a terceira vez que se apresentava numa final da prova, apesar de nas duas anteriores, perdidas para o Ferencvaros e para o Leeds United, respetivamente em 1965 e 1971, a competição levar o nome de Taça das Feiras.

Mas eu queria mesmo era ir ao início dessa cavalgada juventina até ao triunfo derradeiro. Porque aí sim, aconteceu algo muito pouco vulgar que só a impertinência dos sorteios pode ditar: nas duas primeiras eliminatórias, a Juventus afastou os dois clubes de Manchester, o United e o City.

No dia 15 de Setembro de 1976, em Maine Road, um golo de Brian Kidd, que por sinal também vestiu a camisola do Manchester United, deixou tudo em aberto para a segunda mão. Não se pode dizer que o City tivesse um conjunto fantástico. Destacavam-se o escocês Asa Hartford, no meio-campo, o guarda-redes internacional inglês Joe Corrigham, e outros nomes menores como Dave Watson, Tommy Booth, Gary Owen e o curioso Peter Barnes que viria acabar a carreira a Portugal, ao Farense, certamente para aproveitar umas tardes de praia depois de ter andado a correr de clube em clube. 

Tommy Booth queixou-se amargamente de um pontapé nas costas aplicado por Tardelli. “Tipicamente italiano”, diria no final. “Voou para mim a pés juntos e fez-me um risco de sangue ao longo da espinha. Podia ter-me dado cabo da vida profissional”.

Geralmente pouco dados a sentimentalismo desses, os italianos resolveram a questão no Comunale no dia 29 de Setembro. Sem alardes. Scirea igualou a eliminatória aos 36 minutos e os ingleses tremeram. Não tinham a classe suficiente para aguentar o pragmatismo da Senhora. Na segunda parte, limitaram-se a tentar que o jogo não desse mais nada, talvez convencidos de que o prolongamente seria vantajoso para a sua melhor condição física. Puro engano. Roberto Boninsegna, recém transferido do Inter de Milão, o homem que marcara o único golo da Itália na final do Mundial de 1970, no México, acabou com as dúvidas ao minuto 69. A Juventus esperava pelo adversário seguinte e ele não se fez esperar.

Um mês e cinco dias depois de ter ido a Maine Road (Manchester) a equipa de Trappatoni apresentou-se em Old Trafford (Manchester). A história iria repetir-se? Repetiu, sim senhores! Perante cerca de 60 mil entusiásticos adeptos, o United, treinado por Tommy Docherty, que chegou a trabalhar no FC Porto, chegou à vantagem por Gordon Hill, aos 37 minutos. O ambiente fervia. O meio-campo britânico era forte. Tinha Lou Macari, Steve Coppel, Brian Greenhoff, Sammy McIlroy. Mas o seu futebol era demasiado previsível. O excesso de bolas pelo ar para a área italiana não fez mexer o resultado.

Na batalha de Turim (o jogo foi quezilento até à brutalidade), Boninsegna voltou a ser decisivo. Aos 29 minutos pôs tudo como no início. Stepney, o guarda-redes do United, batia-se como um leão contra as ondas ofensivas italianas. Docherty iria cometer o mesmo erro do que o seu colega Tony Book um mês antes: confiou na sua defesa. Mas ela iria abrir brechas a partir da hora de jogo. Boninsegna fez o 2-0 aos 63 minutos com um toque precioso de calcanhar. Nada faria parar a Velha Senhora. Aos 85 minutos, foi Benetti: 3-0. Era o fim das esperanças inglesas. Os rapazes de Turim caminhariam orgulhosos em direção à sua primeira conquista na Europa.

Ler Mais

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline