15/12/18
 
 
Alexandra Lucas Coelho. Uma fantasia sazonal

Alexandra Lucas Coelho. Uma fantasia sazonal

DR Teresa Carvalho 29/10/2018 14:33

Com o quarto romance – o primeiro publicado com a chancela da Companhia das Letras – terá a jornalista e escritora pretendido produzir um rasgão entre os tempos ancestrais e uma modernidade pré-colapso. Mas tudo o que conseguiu foi romper o pacto ficcional. E, isso, um leitor não perdoa

Não é novidade para ninguém: o romance tem cada vez mais praticantes e continua a projetar sombra grande sobre os restantes géneros – bem mais ajustados a um tempo sem tempo. Mas o lugar de topo que o romance ocupava no discurso da cultura escadeirou-se algures no séc. xix. Entretanto, essa centralidade foi substituída por manobras e ruídos promocionais. 

O título do romance recentemente lançado por Alexandra Lucas Coelho – “A Nossa Alegria Chegou” – ressoa naquele regime auditivo de quem, ao passar numa rua, ouve uma informação num altifalante. E é possível que chegue ao ouvido do leitor comum na modalidade pragmática de um aceno, uma saudação, como se lhe quisesse dizer “bem-vindo a Alendabar!”, um imaginário lugar-promessa de alegria situado algures no planeta Terra. Atento aos mecanismos da promoção livreira, o crítico aguça a orelha, levanta-a. E assim a deve manter porque o livro – definido pela autora como “uma espécie de conto infantil para adultos” – pede escuta. Somos só ouvidos.

Três amigos, todos na casa da juventude, decidem juntar-se num pacto: fazer uma revolução em Alendabar no dia em que começa o outono. O objetivo é libertar o povo nativo da opressão. No mesmo dia, do outro lado do mundo, chega, de carocha, uma mulher com as cinzas do marido e o filho de ambos. Justamente o mesmo dia em que o dono daquilo tudo, “terra, mar e ar”, recebe um convidado, guru da tecnologia. Não vem sozinho: traz a inteligência artificial que concebeu, “bela adormecida” de nova espécie. 

Tudo se passa ao longo de exatas 12 horas de luz, num lugar criado de raiz, um paraíso tomado por um homem a quem chamam Rei. Os capítulos numeram-se de forma decrescente, do 12.o ao primeiro. O sol é, expetavelmente, uma presença constante: “o sol quase em cima da cabeça”, “o sol está uma lança, vertical”, “oito horas para o poente”, “o sol avança sobre as copas”, “é a última hora de luz”. Se excluirmos a fauna, a flora e o que resta de “uma língua perdida” que, se não está já morta, pouco faz mexer a narrativa, debaixo do sol de Alendabar não há nada de novo. E o romance acompanha. Nem espessuras de selva negra, nem funduras a abrirem-se sob os pés, nem alargamento dos limites do horizonte da literatura enquanto trabalho sobre a linguagem. Tão-pouco a queimadura viva das palavras; sequer o baque de uma frase luminosa, substituído por ditames de recorte lúdico e ressonância oca (“O mal de toda a parte está em Alendabar, o mal de Alendabar está em toda a parte” ou “a beleza que resiste é o bem, o bem que resiste é a beleza”). O que abunda, intercalados com cenas dialogadas que são exibições de pobreza expressiva, são tufos de prosa, nem sempre bem aparada, com descidas várias ao grande reservatório do lugar-comum, num movimento que marca o curso maioritário do atual romance português. 

O foco narrativo não se detém, mudando constantemente de cena, em rápidas transições que cortam o espaço às cenas, a linha à história e levam ao leitor o interesse. É claro que o expediente da interrupção corresponde a uma das táticas de manutenção do interesse mais praticadas desde os primórdios, mas apetece dizer que, neste caso, temos uma Xerazade ao contrário, a suspender antes da hora. Parece querer fazer-nos galopar, criar um ritmo envolvente, mas acaba por esbarrar na pressa, que é a figura da impaciência. 

Depois de um arranque fulgurante, com uma cena de interessante geometria corporal, e suficientemente estranho para mobilizar a nossa atenção, logo a narrativa começa a ceder face à suspensão da descrença, em cujos poderes a autora parece confiar cegamente. À medida que vamos virando as páginas dos curtos capítulos, talvez a impressão que mais vai permanecendo seja a da artificialidade que – mais ou menos intensa – vai tomando conta de nós. E a criação de uma fauna e de uma flora próprias, sem paralelo fora dos limites de Alendabar – e apresentadas como trunfos romanescos –, mais contribui para acentuar essa sensação. De cada vez que avistamos novo pássaro, ele parece diretamente saído de um catálogo ornitológico para integrar uma cenografia tropical. O inventário dos peixes – babis, pomeias, tíndaros, peixes-gancho… – produz efeito semelhante. E sempre que topamos com morambeiras, salpiras, semeadas pela narrativa, sentimo-nos num jardim botânico: cada árvore, sua etiqueta dependurada. É como se autora secasse tudo quanto cria. E mesmo a flor azul de um omnipresente cato gigante, esvaziado de seiva, deixa no ar um aroma a plástico. 

Dir-se-ia que a fuga aos confortos da familiaridade referencial é compensada por um esforço descritivo, como se a autora procurasse somar pontos na profusão de detalhes recortados de um fundo exótico, intuindo, talvez, que é justamente no essencial que os perde. O essencial: a solidez da estrutura narrativa (com um encadeado demasiado previsível e um desenlace clássico), o desenho convincente das personagens, a criação do “que não existe para entender o que existe”. O que escasseia em pulsação e imprevisibilidade – vida – sobra em esquematismo temático, numa assinalável sobredosagem: a opressão, o imperialismo, as relações de poder, a liberdade, a resistência, a identidade de género, o abuso sexual, a misoginia, a ecologia, a ameaça das espécies… 

As próprias personagens estão mais próximas da tinta que do sangue. E é talvez por isso que a autora sente necessidade de lhes afirmar a carnalidade: “Então, Atlas tirou a roupa. Parecia saído de uma aventura mitológica, só que totalmente carnal.” Se o Rei se parece com uma delirante personagem de banda desenhada, Ira, Ossi e Aurora são nomes a vestir bonecos. Tudo é desenho e cor. Têm o rigor da ilusão, não chegam sequer a materializar--se. O trio de personagens, irmãos de pacto, aparecem transformados em super-heróis, capazes de resolver, no espaço das 12 horas de luz de um equinócio, os problemas fundos de uma Alendabar oprimida. Que o megafone tenha um papel a jogar na “Grande Guerra de Alendabar” é uma ironia menor. Alexandra Lucas Coelho, que aqui não se esquiva aos confortos das visões simplistas, surge-nos assim como a consciência geral do nosso tempo, espécie de pós-moderno grilo falante. 

O estilo, distante do caudaloso “Deus--Dará”, é sem enleios, direto, de uma legibilidade sem entraves, amiga do consumo passivo. A prosa acompanha essa cadência afirmativa. É sincopada. Feita de frases curtas. Stacatto verbal. Muitos pontos finais. Um estilo pretensamente enérgico, mas que depressa se torna estafante, cansativo porque não há outros registos que se lhe oponham e criem um contraste. Ou melhor, há. 

Em alguns momentos, é como se a autora, desinteressada da própria matéria narrativa, se limitasse a passar-nos um boletim informativo de propósitos didáticos: “elas [as tartarugas] emergiam das águas aos milhares, gigantes de meia tonelada, dois metros de comprimento, trepavam pela areia com as suas patas nadadeiras, as suas cabeças de milhões de anos, cada uma escolhia um lugar para escavar um buraco, enterrava dezenas e dezenas de ovos, cobria-os e voltava ao mar”. Dois parágrafos adiante, nova descarga: “Anos depois, na cidade, aprendeu que só sobrevive um em cada cem bebés-tartaruga. Quando chegam a adultos, fecundam com outros uma mesma fêmea, que no grande calor voltará a Alendabar para enterrar os seus ovos, recomeçando tudo. E se a temperatura for acima de trinta graus, o ovo será fêmea.” 

“A Nossa Alegria Chegou” deixa a sensação de ter sido escrito para ser apenas uma aventura pouco imaginativa, “um contentamento descontente”, uma fantasia sazonal. Um romance-evento.

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