15/12/18
 
 
José Sarmento de Matos. Lisboa perdeu o intérprete da sua verdadeira vida

José Sarmento de Matos. Lisboa perdeu o intérprete da sua verdadeira vida

Diogo Vaz Pinto 28/10/2018 18:26

O olisipógrafo que assinou “A Invenção de Lisboa” morreu esta manhã em sua casa aos 72 anos, vítima de um cancro do fígado que lhe foi diagnosticado há dez anos

 

A História não chega. Por vezes, uma cidade organiza-se num tal leque de influências, enunciando no tempo e no espaço tais fronteiras, que exige ser estudada segundo métodos próprios. Vai ela desarmando quem chega de outras investigações geográficas, e fragiliza o resultado dos estudos comparatistas. Se em Lisboa há um passado habitando o presente, se basta “lascar com a unha uma parede com reboco de cal”, para revelar na sua velha orgânica uma série de camadas, é também sabido que continua a reinventar-se segundo a sensibilidade de quem, a cada despertar, “canta ou o mês antigo dos mitos, ou a cor” que humedece os lábios no rio e vai subindo pelas suas colinas. Por tudo isto, é uma cidade que exigiu uma ciência autónoma: a Olisipografia.

José Sarmento de Matos nunca quis ser outra coisa do que um olisipógrafo. Foi esse o título que exigiu para si, num desafio às dinâmicas de bolor arquivista, sendo este um ramo do saber que nem conta ainda com selo académico. E talvez por isso mesmo este seja um desafio próprio de quem não deixa que o estudo o afaste das ruas, não as troca por outras malhas, nem o pulso tumultuoso da cidade o troca para se fechar com os mapas e outros documentos. Assim, o notável olisipógrafo morreu na manhã de ontem, aos 72 anos, depois de muita deambulação por esta cidade que ainda hoje reclama horas para dormir, ao contrário de outras que se julgam mais cosmopolitas por não se darem descanso. De resto, muito do que de mais vivo Lisboa tem é o seu compromisso com o sonho, e isso talvez tenha inspirado o poderoso verso de Pessoa (nessa estrénua encarnação coeva que foi Álvaro de Campos): “Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras”...

O narrador que melhor soube pôr em diálogo as personagens ancestrais e actuais desta cidade, contando-nos os seus triunfos e dramas, viveu a última década a tentar livrar-se de um cancro no fígado. E há um ano contava ao “Expresso” que já sobrevivera a um cancro, a uma hepatite B, ao “diabo a quatro”. Mas o diabo, como se sabe, é só uma questão de tempo. Morreu na sua casa na Lapa, numa das ruas transversais à Calçada da Estrela, não muito longe do palacete no Bairro Alto onde nasceu e que foi a sua educadora de infância, como contou na entrevista que deu àquele semanário há ano: “Quando entro num prédio, a primeira coisa que faço é bater nas paredes para perceber a estrutura. A partir deste gesto pode-se descobrir muita coisa. Não sei dizer quando é que as coisas começam. A casa onde nasci, da minha avó, que era um daqueles casarões antigos perto do Bairro Alto, é um ponto de partida importante. Sempre tive um fascínio por aquela casa. Ainda hoje fecho os olhos e consigo reconstruí-la nos mais pequenos detalhes”.

Cresceu com o Tejo como vizinho, mas depois da morte da avó, e das partilhas, pelos 12 anos foi com os pais viver para uma quinta da família na serra de Sintra, e contou certa vez como isto o fez sentir-se exilado do mundo, voltando para os livros que lhe ficaram do avô. E daí nasceu o interesse que o levaria à formação em História, que, por sua vez, permitiu que reatasse a relação com Lisboa. Quarto filho de uma família de oito irmãos, e o mais velho dos rapazes, Sarmento de Matos contou à jornalista Isabel Lucas como foi sempre um solitário, e que a biblioteca lhe serviu de recurso para conseguir respostas para as inquietações que lhe provocava o que ia vendo. Antes mesmo de mudar-se para o campo, chegou a conhecer Lisboa de cor, e andava por ela, solto como só era possível nessa década de 1950”. E o afastamento, provocou nele uma “mitificação” da cidade, adiantando que “vir a Lisboa era como vir ‘à terra’.”

Seguiu-se a faculdade, e sendo o mais velho dos rapazes, estava destinado a fazer Direito, seguindo a profissão do avô e do pai. Ainda fez parte da chamada turma de ouro de Direito, sendo colega de Leonor Beleza, Marcelo Rebelo de Sousa, António Mega Ferreira – com este último manteve uma amizade para o resto da vida – até que se matriculou em Arquitectura, o que foi uma respeitável hesitação antes de a trocar por História na Faculdade de Letras, para se especializar finalmente em História de Arte quando o curso abriu na Universidade Nova. Pelo meio houve os três anos de tropa, onde diz ter feito de tudo e mais alguma coisa, e passou ainda pela Direção-Geral dos Assuntos Culturais/Direção-Geral do Património Cultural, tendo também escrito em jornais como o “Semanário” ou “O Independente”. Mas foi Lisboa, que se habituou a redescobrir todos os dias, apanhando em Sintra o comboio das 8h04, para depois apanhar o metro no Rossio e chegar a Entrecampos, que lhe deu um verdadeiro rumo.

Em 1994, quando recebeu a encomenda da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), para escrever o livro “Uma Casa na Lapa”, já Lisboa era esse terreno que o tinha como explorador das suas tantas dimensões. E se naquela obra começou por contar a história de uma casa, como notou Paulo Moura (numa leitura crítica, em 2008, ao posterior volume “A Invenção de Lisboa”), “a narrativa foi alastrando, pela vizinhança, pelo bairro, pela cidade e o seu passado”. Assim, atraído pela abordagem que a cidade lhe pedia, Sarmento de Matos iniciou o seu excurso, um delírio na opinião dos colegas de História de Arte, que viam na olisipografia uma coisa menor.

Como explica na entrevista ao “Expresso”, “no contexto da história de arte, quando se começa a estudar um edifício, esse edifício tanto podia estar ali como noutro sítio qualquer. Mas o meu modo de olhar sempre foi diferente. Olhava para o mesmo edifício e tentava integrá-lo na cidade. Uma casa nunca é um gesto isolado.”

E assim desenvolveu o seu método para a “cidade ondulante”, onde encontrava de tudo, como se lê nas páginas de “A Invenção de Lisboa”: “Lisboa é uma cidade barroca, porque é surpreendente. A cada esquina há uma surpresa. Há ruas estreitas que desembocam em praças desmesuradas, há edifícios monumentais em lugares minúsculos e esconsos. Lisboa tem a mania de meter o Rossio na rua da Betesga. Há sempre coisas escondidas. Guardadas, viradas para dentro. Há paredes povoadas, grandes muros com janelas pequenas, pátios resguardados. Diz-se que são as influências árabes. Na verdade é a cidade romana, que os árabes copiaram. A cidade mediterrânica.”

O desaparecimento de Sarmento de Matos, mais do que a perda de alguém que teve também um papel na evolução da cidade, participando na idealização e construção da Expo 98, com Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira, e que acabaria depois por dar nomes a todas as ruas do Parque das Nações, significa a perda de um intérprete que se inspirou na distinta personalidade de Lisboa para dar um ousado salto enquanto historiador, reconhecendo que cada cidade tem uma vida própria, e para lhe dar um registo à altura, foi aprender com os mestres da crónica: “Fernão Lopes atira-nos isso à cara quando, num rasgo de génio, põe Lisboa a falar. Lisboa é uma mulher que fala com ele e com quem ele fala.” Assim, também a sua “narrativa histórica” assume um carácter autónomo, “um género que permite arriscar, interpretar”, mas que não se confunde com a “divulgação histórica, porque introduz coisas que nunca foram ditas”. E em paga pela curiosidade que levava os historiadores a lerem-no sem o comentarem, antes tomando o seu trabalho como uma brincadeira, lembrou que os testemunhos que dão verdadeiro relevo à História são aqueles que não esquecem como esta “é também uma escrita”. Por mais que se disfarce de ciência, não se apaga o “testemunho nem a experiências individual”. E como “não há verdade sem imaginação” (Charles Simic), a História não passa do acontecimento para a memória sem que haja o talento de inventar essa passagem.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×