23/9/19
 
 
Pedro Ferros 25/10/2018
Pedro Ferros
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Crónica sobre intolerância

Por cada mulher que um aborto putativamente salva há, potencialmente, uma pessoa que não nasce, e há quem pense nelas e faça uma ponderação diferente dos valores em causa, sem ser um monstro

No espaço relativamente curto de cerca de 15 dias, duas (acham elas) das mais iluminadas e brilhantes cabeças pensantes da nossa arreigada esquerda, militante das causas, vieram brindar o país com as suas desempoeiradas e, sobretudo, muitíssimo democráticas, tolerantes e inclusivas opiniões escritas.

É difícil saber – aliás, nenhuma das duas importantes ideólogas permite esclarecer –, em que importantes datas e dias das suas vidas foram ungidas com a omnisciência e iluminação que lhes permite ter como verdade absoluta tudo o que pensam e escrevem, que logo se torna a verdade única e incontestável oferecida aos ignorantes cada vez que as mesmas se permitem comunicar as suas posições muitíssimo assertivas sobre todas e cada uma das suas absolutamente incontestáveis e dogmáticas verdades sobre os relativamente poucos pontos que muito as preocupam.

Por alguma razão a Fernanda Câncio no DN, pessoa a quem a providência divina – entidade com quem ela tanto embirra talvez exactamente por causa disso – foi madrasta na distribuição de uma virtude útil a quem faz jornalismo chamada perspicácia, encontrou outra vez, e como de costume, mais uma importante bandeira a defender pelo laicismo do Estado, e que curiosamente não foi perorar contra o facto de a Câmara de Lisboa ter expropriado particulares para fazer uma mesquita, mas sim porque uma locutora da RTP (que provavelmente padecerá do exotismo minoritário de que padecem, sem que Câncio se tenha dado conta, a esmagadora maioria dos portugueses, de ser crente ou, mas aí seguramente menos, apenas bem-educado e cordato) terá saudado os seus telespectadores com um “até amanhã se Deus quiser” ou fórmula similar.

Estamos relativamente habituados a reconhecer em Fernanda Câncio posições de enorme tolerância e liberdade como as que teve relativamente à liberdade de imprensa que lhe paga as contas (aparentemente não todas, como quis esconder), mas contra a qual atentou, sem sucesso, com uma providência cautelar para que, porventura, não escrevessem sobre ela aquilo que ela escreve sobre todos.

Como estamos, também, a vê-la, ou lê--la, sem grande originalidade, repetida e fastidiosamente, todas as semanas a esgravatar os temas possíveis para conseguir atacar a Igreja, um padre, um bispo ou agora, in casu, uma locutora.

Esta semana, depois de a semana passada se ter insurgido ferozmente e por escrito contra a tal locutora que, pasme--se, contrariamente a ter escrito um novo estatuto editorial da RTP alinhado com a doutrina social da Igreja, apenas se despediu usando uma fórmula de conteúdo religioso cujo uso em Portugal se perde nos tempos imemoriais, Fernanda Câncio vem atacar o bispo do Rio de Janeiro porque terá recebido o candidato Bolsonaro.

É muito natural que, atenta aquela falta de perspicácia que já se lhe apontou no que toca a descobrir por cá (e também lá) o mesmo fenómeno que está a destruir o Brasil, chamado corrupção, aquilo que mais importa para Fernanda Câncio é referir que Bolsonaro visitou um bispo e citar eloquentemente Burke.

É claro que, sobre o facto de Haddad visitar um ex-presidente condenado por corrupção na prisão onde este cumpre pena, para receber conselhos do condenado, tal originalidade ou eventual perversão ética já não lhe suscita nenhuma reflexão sobre o bem e o mal e citações de pensadores famosos.

A verdade, porém, é que do encontro de Bolsonaro com o referido bispo terá saído um acordo sobre os mesmos exactos temas (mas de sentido contrário) que a cansada Isabel Moreira (leia-se o seu artigo no “Expresso”) confessa que a indignam e fatigam, relativamente a todos os que não usam a sua cartilha, não aplaudem os seus progressismos ou não subscrevem as suas ideias sobre os todos e quase únicos temas que parecem atormentar a sua esfalfada existência, desde o aborto à homossexualidade e da homossexualidade ao aborto e pouco mais, a confiar no mesmo.

Gostem ou não, a cansada Moreira e a pouco perspicaz Câncio, por muito progressivo que vejam o mundo, os votos das pessoas – para seus iguais fastídios – ainda valem o mesmo para todos e esta representatividade da democracia também vale para quem seja religioso, para quem acredite na inviolabilidade da vida humana, para quem veja em todos os abortos uma tragédia, e não uma ferramenta de mera emancipação e empowerment, e para quem não pense de forma progressista.

Por cada mulher que um aborto putativamente salva há, potencialmente, uma pessoa que não nasce, e há quem pense nelas e faça uma ponderação diferente dos valores em causa, sem ser um monstro. É do foro da indigência moral, conhecendo a obra assistencial da Igreja, falar nas mulheres que morrem porque abortam (num Estado laico) e não falar em todas as que são salvas pela Igreja e pela sua obra. E é de uma presunção e soberba sem limites o julgamento que Isabel Moreira faz das opções ideológicas de todos os outros, só porque não coincidem com as suas, com que porventura muitos mais não concordam.

E é por isso, tal como o é a tentativa de Fernanda Câncio de controlar, dirigir e censurar a forma como uma pessoa livre se despede dos seus espectadores, que nos antípodas destas sumidades se criam espaços igualmente legitimados para o mesmo discurso do ódio e intolerância, mas ao contrário.

As obstinações censórias e unitárias de Isabel Moreira e de Fernanda Câncio são, na sua militância, tão obstinadas e cegas, mas menos desculpáveis, que as posições, por exemplo, da Inquisição, que certamente tanto odeiam.

E é exactamente este discurso cansado, ideologicamente hermético e também ele muito intolerante que vai (desenganem-se a Isabel Moreira e a Fernanda Câncio) abrir espaço para todos os extremismos de sentido contrário, porque não se iludam, nos seus respectivos campos, Moreira e Câncio não são melhores nem mais tolerantes que Ventura, de quem a primeira fala, são apenas fenómenos iguais mas de sinais diferentes, por muito que não queiram ver.

 

Advogado na norma8advogados

pf@norma8.pt

Escreve à quinta-feira, sem adopção

das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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