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Google. Assumir a censura como necessidade

Google. Assumir a censura como necessidade

Rita Pereira Carvalho 23/10/2018 22:07

O Google tem um guia de censura para os seus funcionários. Chama-se “The Good Censor” e destina-se a “proteger os utilizadores de maus conteúdos” online

Um documento interno do Google, publicado em exclusivo pela Breitbart News, mostra o outro lado do poder dos média digitais e dos perigos da liberdade de expressão quando o seu limite é ultrapassado. O Google e empresas como o Facebook e o Twitter acreditam que o seu trabalho passa por dizer aos utilizadores o que devem ou não pensar, ler ou até acreditar. A apresentação, denominada “The Good Censor” (o bom censor), destinada a consulta interna pelos funcionários da empresa, reconhece o poder das plataformas de tecnologia, incluindo o Google, que se afastaram do seu compromisso original com a tradição e sentido literal do termo liberdade de expressão. 

“Como é que o Google pode proteger os utilizadores de maus conteúdos e, ao mesmo tempo, apoiar a liberdade de expressão?” é a pergunta inicial colocada pelo documento. Se, por um lado, é ideal para a liberdade de expressão, a internet é também ideal para os comportamentos desadequados. E o documento explica a razão pela qual isso acontece. As discussões anónimas são possíveis, a comunicação é rápida e as “normas sociais que mantêm a sociedade unida e impedem que as pessoas se ataquem offline mudam mais rápido quando estão online”, refere o texto, acrescentando que é mais tentador ser desagradável e agressivo quando não há obstáculos para travar as pessoas. “A internet elimina barreiras de comunicação física e os utilizadores são separados dos efeitos das suas ações”, tendendo por isso a desinibir o seu discurso.

O documento é verdadeiro, como a própria empresa confirmou, embora uma fonte oficial do Google garanta que ele deve ser considerado apenas como uma fonte de pesquisa interna, e não como uma posição oficial da empresa.

Como censurar na política? Neste ponto, o Google tem consciência de que as plataformas de tecnologia são usadas por governos estrangeiros para influenciar os utilizadores através da manipulação de conteúdo, e os exemplos são muitos. 

A Alemanha tem das leis mais restritas a nível mundial em relação ao discurso de ódio, colocadas em prática depois da ii Guerra Mundial. E para garantir que as regras são cumpridas quando os alemães estão online foi criada a lei geralmente referida como a lei do Facebook. Se as mensagens no Facebook, YouTube ou Twitter forem classificadas como ódio e permanecerem durante mais de 24 horas online, são aplicadas multas que podem ascender a 50 milhões de euros. De acordo com o documento, os governos estão agora a tomar medidas para tornar os espaços online mais seguros, mais regulamentados e mais semelhantes às leis que nos regem socialmente fora da internet. “Protegidos do discurso de ódio na rua? Agora também estamos protegidos na internet”, diz a apresentação.

O escândalo do envolvimento russo nas eleições norte-americanas de 2016 deixou claro o quão vulneráveis são as plataformas digitais às manipulações externas. Em resposta, o Congresso exigiu respostas das plataformas tecnológicas, que posteriormente implementaram novas políticas para tornar os anúncios mais transparentes. 

O Google reconhece a ansiedade dos utilizadores e dos governos e admite a adaptação da política das plataformas digitais em relação à censura, podendo isso significar adotar uma abordagem mais rígida para conteúdos de ódio, como no Twitter, ou impedir a visualização de vídeos questionáveis, como o YouTube fez.

Em resposta a reclamações públicas sobre a acessibilidade de conteúdos desagradáveis e nocivos, o Google criou uma lista negra de preenchimento automático. Isto significa que é menos provável que as crianças, por exemplo, tenham acesso a links de pornografia. As medidas foram tomadas para bloquear os sites potencialmente prejudiciais e os motores de pesquisa impedem que o tráfego flua para sites sinalizados.

O Google da China É o motor de pesquisa mais famoso e mais utilizado do planeta (a ponto de já ter direito a verbo próprio, googlar), mas não está presente nos quatro cantos do mundo. A China é um exemplo do longo trabalho que o Google ainda tem de desenvolver para poder chegar a todos. A empresa saiu do país em 2010 motivada pelas restrições impostas pelo governo chinês. Agora, em São Francisco, Califórnia, o CEO da empresa, Sundar Pichai, admitiu que está a desenvolver uma nova versão censurada para conseguirem que o governo da China aceite o regresso do motor de busca ao país. O Dragonfly, nome do projeto desenvolvido pela empresa norte-americana, foi revelado em agosto deste ano pelo site The Intercept e, depois da divulgação, alguns funcionários do Google demitiram-se por não concordarem com a ideia de apoiar um governo que promove a censura. Além disso, também o Senado dos Estados Unidos pediu esclarecimentos sobre o caso, mostrando a sua “profunda preocupação” com o projeto do Google. Pichai afirmou que ainda não está confirmada a data de início de implementação da nova versão e que o Google “sempre [equilibrou] um conjunto de valores e também [cumpre] as leis de cada país”.

Se o Google saiu da China por causa das restrições dos conteúdos, agora cedeu e a futura entrada segue as regras impostas por Pequim, que restringe severamente o acesso a conteúdos relacionados com a política nacional, por exemplo. 

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