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Garcia Lopes. Os militares são preparados para a “euforia” e para a “vulnerabilidade”

Garcia Lopes. Os militares são preparados para a “euforia” e para a “vulnerabilidade”

Edilson Coutinho 18/10/2018 22:35

O chefe do núcleo de psicologia do Exército explica que hoje  se verificam casos residuais de stresse pós-traumático

Apesar de o Centro de Psicologia Aplicada do Exército (CPAE) já existir desde 1960, foi com a primeira missão militar em que Portugal participou no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO na sigla em inglês), em 1996, que houve a necessidade de prestar um apoio psicológico aos combatentes de forma mais contínua. Desde então, todas as forças destacadas que saem para zonas onde existe uma presença militar significativa são acompanhadas por psicológicos especialistas em lidar com os traumas de guerra. Ao longo dos anos, o método de acompanhamento foi sofrendo alterações, mas o tenente-coronel Garcia Lopes, chefe do Núcleo de Apoio e Intervenção do CPAE, explica que a essência do auxílio se mantém fiel à origem: acompanhar as forças na pré-deslocação, durante a missão e no pós-teatro de operações.

Como é feito o acompanhamento no período que antecede o deslocamento das forças destacadas?

Durante a fase de pré-deslocamento, que acontece seis meses antes da partida da força, é quando existe um primeiro contacto com o lado emocional dos militares. A prioridade é fazer uma avaliação psicológica de todo o contingente, através de questionários nas diferentes áreas que podem influenciar a posição em clima de guerra: personalidade, ansiedade, stresse, depressão e sintomas de psicopatologia são as principais fragilidades que devem ser abordadas. Existe ainda outro teste em que se tenta encontrar possíveis sinais de stresse pós-traumático que podem existir antes da missão. Todas as respostas são avaliadas e identificam-se os militares que apresentam uma área que necessita de maior atenção. Estes últimos seguem para uma entrevista individual, onde é possível falar abertamente com o militar.

Durante a entrevista individual, como é avaliada a capacidade do militar?

Se existir algum problema na entrevista tenta-se perceber o contexto em que este surge e os especialistas fornecem ferramentas para o militar superar essa fragilidade. Ainda assim, se nessa entrevista surgirem algumas reservas relativamente à capacidade do militar para ir para o teatro de operações, fala-se com o comandante do contingente, mantendo sempre a confidencialidade, mas elucidando com alguns exemplos qual é a vulnerabilidade do militar. Regra geral, o combatente acaba por ficar em território nacional, para futuras missões.

Como são feitas as indicações para quem ficou apto para ir para combate?

Depois da avaliação, e ainda na fase do pré-deslocamento, faz-se um conjunto de palestras ao contingente para preparar o que eventualmente pode acontecer no teatro de operações. Durante a exposição dos temas são abordados vários aspetos: gestão de frente, intervir nos conflitos, perturbação de sono, prevenção de suicídio, abstinência afetivo-sexual e prevenção do abuso sexual, quer como agressor quer como vítima. No caso das militares do sexo feminino há ainda uma palestra específica dedicada à prevenção do isolamento. Apesar de não ser garantido, podem ocorrer situações em que sintam que estejam isoladas – como, por exemplo, irem para combate 150 homens e apenas três mulheres.

Depois das palestras, os combatentes já estão preparados para lidar com os problemas para os quais foram alertados?

Existe uma outra fase que consiste num curso de primeiros socorros psicológicos: são selecionados cerca de 15% dos militares da força que tenham características mais relacionadas com a maturidade, capacidade empática e ligação aos camaradas, de maneira que possam atuar como um apoio no teatro de operações. Uma vez que o psicólogo não está em permanência física, se houver algum acaso que destabilize um militar (como uma notícia vinda de Portugal), o facto de existirem operacionais integrados na força com capacidade para identificar os sinais de instabilidade contribui para uma primeira intervenção. Só se a situação não ficar resolvida é que um psicólogo do CPAE se desloca para apoiar os militares presencialmente.

Quando termina a fase do pré-deslocamento?

O exercício final da força conta novamente com situações simuladas que podem acontecer em campo. O objetivo é testar a reação do grupo militar para ver como estão a treinar, como fazem a patrulha ou o checkpoint – onde se controla o movimento de pessoas e materiais. É também ensaiado um cenário da vida civil como, por exemplo, um acidente ou o falecimento de alguém próximo: o combatente tem de representar uma reação, de modo que os militares que receberam a formação dos primeiros socorros psicológicos possam aplicar os conhecimentos aprendidos.

Como é acompanhada a força que foi projetada para as operações?

Existe sempre um psicólogo específico nomeado para cada uma das forças destacadas. Esse psicólogo faz o acompanhamento através dos meios que temos disponíveis atualmente, como uma chamada de voz ou videochamada. Apenas se desloca para o teatro de operações, no prazo de 72 horas, em casos muito específicos. No entanto, o médico ou enfermeiro, o comandante da força e o militar mais antigo do curso de primeiros socorros cooperam entre si de modo a facilitar o apoio ao longo da missão.

E no regresso a casa?

No último mês da missão, uma equipa de dois psicólogos vai até ao teatro de operações para preparar o regresso a casa. Volta-se a repetir os mesmos inquéritos que foram feitos na fase de pré-deslocamento e chama-se todos para entrevista individual. Avalia-se as respostas, comparando-as com as que foram feitas inicialmente, e se tudo estiver correto termina a intervenção psicológica no teatro. Caso exista alguma destabilização, o militar é referenciado para que no regresso a Portugal continue a ser acompanhado individualmente.

Os militares que não apresentaram perturbações voltam a ter contacto?

Sim. Existe uma espécie de briefing – conjunto de informações – emocional, com reuniões de pequenos grupos de dez a 15 elementos. A ideia é desafiar os militares a falarem sobre a missão e as principais dificuldades. Inicialmente é um ambiente de quebra-gelo porque os militares têm alguma dificuldade em falar. Contudo, vencido esse período de cinco minutos, os combatentes falam sobre as vivências que tiveram no cenário de conflito, partilham os principais problemas e desafios e falam sobre as expetativas de cada um, se foram ou não concretizadas. O mais interessante é eles perceberem que a dúvida de um ou a forma de atuar do outro é comum entre quase todos os camaradas.

De que forma termina oficialmente a missão?

Numa última fase, existe novamente a palestra de regresso a casa. Fala-se do ciclo emocional por que previsivelmente o militar irá passar, com base em literatura científica da experiência das várias forças armadas de todo o mundo. A euforia, gastos excessivos, sensação de vulnerabilidade, controlo de emoções, inquietação, voltar às rotinas da vida civil, encarar responsabilidades e o sentimento de tristeza são algumas das questões abordadas ao longo da sessão. Por isso, é importante que os militares mantenham algumas estratégias de controlo emocional, para evitar comportamentos que podem ser considerados de risco. Os tais casos identificados no deslocamento continuam a ser acompanhados individualmente e é distribuído um email em que os militares têm acesso a um link do programa de apoio aos militares. Lá encontram vários guias para a ansiedade, ataque de pânico, depressão, relacionamento com cônjuges e família. É também disponibilizado um contacto telefónico disponível 24 horas que está na posse de um psicólogo do exército.

Continuam a existir casos de stresse pós-traumático?

Seis meses depois do regresso existe um debate dedicado ao stresse pós-traumático. No entanto, os dados estatísticos do exército revelam que existem casos residuais e que o acompanhamento individual tem ajudado bastante. O que se verifica é que, quando há alguma fragilidade, normalmente ela diz respeito a acidentes da vida civil, para o qual o militar ficou com as emoções mais vulneráveis. Existem ainda casos em que há dificuldade em esquecer as situações vividas ou uma menor capacidade de não estar sempre em alerta na vida quotidiana. Ainda assim, cerca de 1% dos militares que regressam de missão identificam-se com este cenário.

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