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Prémio Leya. Brasileiro Itamar Vieira Junior venceu o concurso literário

Prémio Leya. Brasileiro Itamar Vieira Junior venceu o concurso literário

Diogo Vaz Pinto 17/10/2018 17:48

“Torto Arado” é o primeiro romance do escritor e geógrafo brasileiro, nascido em 1979, e que é também finalista do prémio Jabuti com o livro de contos “A Oração do Carrasco” 

A aguardar uma operação à vista para voltar ao leme das suas incursões de leitor inveterado, Manuel Alegre encabeçou uma vez mais o júri do Prémio Leya, que chegou este ano à sua 10.ª edição. Na sessão em que o romance “Torto Arado”, do brasileiro Itamar Vieira Junior, foi anunciado como o vencedor, Alegre achou por bem esclarecer que foi impedido, pelo tal problema oftalmológico, de ler as sete obras finalistas. Por essa razão, desta vez não votou. Mas se fez o anúncio, como porta-voz do júri, passou depois a palavra a Nuno Júdice, outro dos veteranos no que toca a distribuir benesses e prémios como se o prestígio literário não passasse de um jogo de batalha naval.

O almirantado das letras lusas reuniu-se esta manhã para a cerimónia, na sede do grupo editorial, em Alfragide, para o que é já um ritual, e que convida a puxar de uns versos de Murilo Mendes: “Se sentem sem cerimônia,/ sejam benvindos, merci./ Os mais malucos na frente/ – não têm medo de aplaudir –,/ os ajuizados, no fundo.” Ora, com este género de acções, os grandes grupos buscam contrariar o escasso interesse pelo que vai aparecendo de prometedor nas águas editoriais, armando um espectáculo em volta de um livro e de um autor que só meses depois se poderá ler, avaliar, discutir... Passos sem os quais a designação de vida literária não passa, afinal, de uma vanglória injustifica. E, por isso, talvez seja mais adequado caracterizar aquilo que temos como um limbo literário.

Quanto à decisão do júri, uma vez mais a acta mostrou-se um exercício bastante vago, considerando que, no primeiro romance deste autor que até aqui se tem dedicado sobretudo à escrita de contos, se nota a “solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase nas figuras femininas, na sua liberdade e na violência exercida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade rural patriarcal”. “Tordo Arado” terá conseguido a unanimidade do júri – esse unicórnio que, estranhamente, tantas aparições faz entre nós –, e de acordo com fonte da editora, o livro chegará às livrarias já no primeiro trimestre de 2019.

No comunicado enviado para as redacções, o júri do prémio refere também que, tratando-se de “um romance que parte de uma realidade concreta, em que situações de opressão quer social quer do homem em relação à mulher, a narrativa encontra um plano alegórico, sem entrar num estilo barroco, que ganha contornos universais”. E, por fim, vem a sentença numa formulação de pescada de rabo na boca: “Destaca-se a qualidade literária de uma escrita em que se reconhece plenamente o escritor”

E porque um prémio é a notícia mais fácil de se fazer, é também natural que ganhe expressão na maioria das páginas de cultura, ainda que o desenvolvimento das peças dê dos jornalistas a imagem de macacos sentados a martelar aos teclados um mesmo ditado. E, assim, está garantida a borla publicitária para o grupo promotor. Mas dez anos depois de o prémio ter aparecido, talvez valesse a pena perguntar: porquê prémio? Porquê se, bem vistas as coisas, não passa de um concurso?

Bom, talvez a explicação comece pelo mais óbvio: porque soa melhor, e, hoje, soar é tudo. Como eau de parfum soa melhor que água de colónia. E neste concurso, quem ganha leva 100 mil euros. E quando se diz que é a maior distinção literária para o que apareça de romance inédito no mundo da língua portuguesa, deve vincar-se que se a distinção tem peso é porque ela é gorda, i.e. tem mais ouro na bolsa. Depois, há um parêntesis aborrecido que devia, no entanto, acompanhar sempre a menção a esta avultada soma: é que o regulamento do prémio prevê que este valor seja deduzido daquilo que o premiado tenha a haver pelas vendas do livro, sendo que os 8% (5% no caso de edições de bolso) de direitos de autor só serão readquiridos a partir do momento em que as vendas ultrapassem os 85 mil exemplares. E mesmo que o livro seja alvo de traduções noutros países, também aí o autor tem de esperar que o montante do prémio seja abatido. E a partir daí receberá apenas 60% dos valores que a Leya consiga negociar. Portanto, o contrato é óptimo para o género de escriba que não venda puto.

Quanto ao vencedor deste ano, Itamar Vieira Junior tem 39 anos, nasceu em Salvador da Bahia e é doutorado em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, e é também finalista do Prémio Jabuti, o mais importante galardão brasileiro, na categoria de conto, com o livro “A Oração do Carrasco”. Numa das suas crónicas na “São Paulo Review” este escritor e geógrafo conta das dificuldades com que se deparou ao preparar a tese de doutoramento, e como se sentiu constrangido por ter de traduzir em “linguagem académica” uma “experiência complexa de convivência com uma comunidade quilombola, uma experiência com uma carga quase épica”. Tendo-se proposto escrever uma etnografia, Itamar adianta que, muito embora este seja o curso que, dentro das Ciências Humanas, tem uma maior proximidade com a arte literária (e lembra que os discentes são mesmo instados a ler literatura de ficção para adquirir a capacidade de redigir textos mais desenvoltos), ainda assim, nota como um texto académico teria não só “um prazo de validade”, como seria incapaz de atingir um público mais vasto. Isto leva-o a fazer uma defesa do movimento da arte literária como aquele que melhores condições tem de assimilar o movimento da vida. 

“O que desejava era compor uma narrativa próxima à vida, não de um grupo que leria aquela obra com interesses bem específicos, mas de toda e qualquer pessoa que, por qualquer motivo, o encontrasse”, escreve Itamar na crónica com o título “Por que a literatura?”, e acrescenta: “O inexprimível era a ausência de movimento, o movimento que salta das páginas de uma obra, mesmo quando já se passou muito tempo. Quem duvida que ‘Dom Casmurro’ atravessará a vida das futuras gerações como o enigma que nos atravessa hoje, mesmo passadas tantas décadas de sua publicação? Quem duvida que as histórias daquelas vidas poderiam ser contadas com a linguagem de um poderoso romance?”.

O escritor agora distinguido e, no que toca a  “Torto Arado”, capturado pelo Prémio Leya, conclui aquela indagação enfatizando que “a arte quase sempre está fundamentada numa profunda compreensão do mundo vivido. E hoje percebo que é essa a compreensão que persigo – ou me persegue. (...) Há inúmeros ensaios, textos científicos e literários que, se citados, reduziriam a um exemplo essa experiência tão particular que vivi. Seria um contrassenso, depois de tudo, me render a um pensamento elaborado e deixar que substituísse, em parte, a surpresa própria da experiência, o movimento primevo que parecia embotar minha criação quando tentava escrever algo que gostaria que fosse arte literária.”

Para terminar, agora que o “prémio” leva já uma década rezando por novos talentos que o justifiquem, para não ficar ainda mais claro que não é aconselhável tratar os leitores como fez Pavlov com os seus cães, pois a salivação não é propriamente a reacção que se espera diante de uma obra literária, a boa notícia é que o prémio que contou com 348 propostas concorrentes, tem alargado a sua rede além fronteiras. Nunca como este ano houve tantos finalistas estrangeiros, e chegou romançada de 13 países (parece que até da Islândia e da China vieram manuscritos), sendo que dos sete que chegaram à final, dois eram moçambicanos e três brasileiros.

Quanto aos membros do júri, por estes dias, merecem-nos um compungido sinal de gratidão e os desejos de melhoras, estando possivelmente a recuperar de uma overdose literária. De resto, este ano Pepetela e os professores e críticos literários brasileiros José Castelo e Rita Chaves deram o fora, e foram substituídos pela escritora angolana Ana Paula Tavares, pela jornalista portuguesa e devoradora compulsiva de tudo o que tenha letras Isabel Lucas e pelo editor, jornalista e tradutor brasileiro Paulo Werneck. Quanto aos resistentes, no painel de jurados, além dos referidos Alegre e Júdice (duo-dinâmico da consagração à la carte), mantiveram-se o antigo reitor da Universidade Politécnica de Maputo, Lourenço do Rosário, e o professor de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra José Carlos Seabra Pereira.

 

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