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Vidas ainda suspensas pelas chamas

Vidas ainda suspensas pelas chamas

José Luís Batalha Rita Pereira Carvalho 15/10/2018 20:40

No dia 15 de outubro, o país estava a arder. Três histórias de quem, passado um ano, ainda não tem metade do que perdeu

Estas são histórias de quem ficou e nunca baixou os braços. O concelho de Oliveira do Hospital foi dos mais afetados pelos incêndios do dia 15 de outubro de 2017 e onde se registaram mais mortos. Os que ficam não esquecem o dia em que o fogo lhes tirou tudo. Ficaram com a roupa que tinham no corpo e pensaram em desistir de tudo.

Hélder Pechorro, aldeia de avô

Naquele dia festejava-se o magusto na aldeia de Avô. No coreto, com vista para o rio Alva, tocava a banda e as pessoas comiam castanhas. O fumo era muito, o que era normal, porque na zona costuma haver incêndios e o cheiro a queimado já não faz diferença. O alerta foi dado quando os moradores da Benfeita, uma aldeia no concelho de Arganil, chegaram a Avô. “Às tantas aparecem lá uns seis ou sete carros, vindos do lado da Benfeita. Gente completamente amedrontada e alguém disse ‘Tu não sabes o que vem aí’”, recorda Hélder Pechorro, proprietário de uma pensão que ardeu e de um café que também foi destruído no dia mais negro do ano.

A aldeia de Avô fica no fundo de um vale, é rodeada por montes e, por isso, não era possível perceber se o incêndio estava longe ou perto. Hélder Pechorro e a mulher, Marianna Jansen, deixaram logo a festa e foram para casa que, apesar de ter os terrenos limpos à volta, estava construída na encosta, com pinheiros nas imediações. “A minha mulher, a primeira coisa que fez foi pegar no computador, pegar nos documentos todos que nós tínhamos e meteu tudo num saco de roupa à pressa e pediu aos amigos que vieram connosco para o irem levar lá em baixo à pensão, pensando que na pensão não ardia nada”, conta Hélder. Mas enganou-se, o fogo também chegou ao meio da aldeia. As projeções do incêndio lançavam chamas a mais de um quilómetro de distância. Enquanto ainda não se viam as chamas na encosta, já pequenos focos de incêndio se acendiam e alastravam. “Ainda não se viam chamas e já aqui estavam três fogueiras. Na altura pensei: ‘Já temos menos tempo, mas pronto, também são três fogueiras.’ Mas aquelas fogueiras, de repente, já estavam juntas e já vinha ali um fogo antes de o outro chegar.”

O som das chamas era ensurdecedor, invadia os ouvidos de quem tentava salvar o que era seu. Era o aviso para fugirem. Fugiram. Foram embora e deixaram tudo para trás. A cadela ficou em casa, não conseguiram levá-la na carrinha. “Durante a noite fartei-me de chorar sempre que me lembrava da cadela. Sentia-me responsável”, acrescentando que demorou seis horas para fazer 20 quilómetros, porque ficou com a carrinha presa. Nessa noite, a aldeia ficou deserta, a população foi levada para dois pavilhões longe dali. Só voltaram no início do dia seguinte, quando a luz do dia já permitia ver tudo, o que tinha ficado e o que tinha desaparecido.

A cadela ficou, mas a casa desapareceu. A somar à pensão e ao café, também não conseguiu impedir que as chamas destruíssem a casa. Tinha ainda outros negócios, mas nem esses escaparam. Vendia em feiras biológicas o que tirava da terra, azeite e vinho. Agora não vende, porque ficou tudo queimado.

O pior dia não foi o do incêndio O pior de ficar sem nada é viver sem nada e ter de aprender a estar assim. Mas Hélder encara isso como uma oportunidade e uma aprendizagem. Com a casa completamente destruída, viveu em casa de amigos durante os primeiros meses, mas, depois, Hélder e Marianna decidiram ficar numa casa junto à que tinha ardido. É onde estão hoje. Sem água e sem luz nos primeiros tempos e sem muito espaço para arrumar o que quer que fosse. As roupas ainda continuam em sacos. Para o homem de 59 anos, o pior foi o dia em que se sentiu “miserável”. A chuva era tanta e a casa tinha tantas imperfeições que facilmente se inundou. “A minha mulher põe os pés no chão e era só água. Os sacos com roupa andavam a boiar. Depois não tínhamos onde estender as coisas. Mas o pior para mim foi às 11 da manhã, todo molhado, cheio de frio, tinha de ir a Viseu comprar uma chave para o carro, que era onde faziam mais barato. Depois começo a pensar e, afinal, tenho de calçar os sapatos todos molhados. Foi mesmo a pior altura, eu estava todo molhado e tinha de enfiar uns sapatos todos molhados para ir a Viseu”, diz Hélder, enquanto brinca com uma folha de videira que já renasceu.

Agora, a casa está a ser reconstruída. Foi a primeira casa no concelho de Oliveira do Hospital a começar a ser reconstruída, um processo que levou mais de dez meses. Mas a força de voltar a ter parte do que tinham move o casal, e nenhum deles baixou os braços. Trabalham para voltar a erguer a casa e os negócios, ainda que o prejuízo de uma vida seja difícil de recuperar.

O vizinho do casal, que vivia numa casa deles, alugada, morreu queimado no dia 15 de outubro. Chamava-se Andrew, era inglês, escritor, estava a escrever um livro e “tinha a mania das arrumações”. Não quis sair de casa antes de encontrar os seus gatos. Andrew foi encontrado a 60 metros de casa com a caixa dos gatos, uma em cada mão.

Um ano depois, enquanto recorda o último dia em que viu a sua casa como uma casa, sem o efeito das chamas, passa um avião de combate a incêndios. Hélder aponta para o céu: “Olha, já vai ali um, já deve haver um fogo aqui perto. Isto não para.”

Acácio Alves e Luísa Seixas, aldeia da Bobadela

Os sinos da aldeia tocaram. Quando o som das badaladas se ouve durante muito tempo, é mau sinal. Mesmo assim, o fogo estava longe, afinal nem se viam as chamas. Só que em poucos minutos chegou a polícia. Acácio Alves e a mulher, Luísa Seixas, não quiseram sair de casa, na aldeia da Bobadela, concelho de Oliveira do Hospital. Só saíram mais tarde, e obrigados. Não levaram nada porque tinham esperança de regressar e poder encontrar tudo como deixaram, a loja de eletrodomésticos que têm desde que se lembram e a casa. Enganaram-se. Ainda a meio da noite, depois de Acácio ter tomado alguns comprimidos para se acalmar, “deviam ser umas duas e tal, três horas, ainda vim aqui com a Luísa. Foi perigoso até. O cenário disto era igual aos filmes de guerra, aquele escuro pela noite, veem-se umas pontas a arder e, às vezes, nós dizemos que estão a exagerar a fazer o filme. Mas não. Isto eram pontas a arder em todo o lado. Não havia luz, mas não era preciso, a luz do fogo dava para vermos bem”, disse. A essa hora da noite, o trabalho de uma vida inteira tinha desaparecido – era apenas cinza. A angústia que sentiram quando chegaram e viram a loja em chamas aliou-se à impotência. “Havia aí extintores, que fui buscar, mas aquilo era como uma gota no oceano, não fez nada. Só disse para a Luísa: ‘Olha, vamos embora que isto vai arder tudo, não vale a pena, é dizer adeus a isto tudo.’” Não havia bombeiros e os que passavam não tinham água. Foram embora, passaram por carros ardidos na estrada sem poderem parar para saber se estava lá alguém. Voltaram na manhã seguinte e a sensação de alívio foi mais forte do que a angústia. “Houve um consolo enorme quando vi que a casa não tinha ardido, fiquei contente por isso. Vi aquilo tudo direitinho, foi bom, sentimos que não tinha ardido tudo.”

Mas uma das preocupações no dia 15 de outubro eram os reacendimentos. O facto de os bombeiros não conseguirem chegar a todo o lado, pela falta de água e de comunicações, deu espaço para vários reacendimentos. E isso aconteceu com Acácio e Luísa. Viram o incêndio recomeçar e a sua casa, que se salvara à primeira, acabou mesmo por arder.

“Há um ano sem ter nada” Dois dias depois, Acácio instalou um contentor à frente da loja ardida, com uma placa que dizia “estamos a trabalhar”. Nenhum dos dois baixou os braços. A força para reerguer o que desapareceu continua mais forte do que as chamas que lhes destruíram tudo. Improvisaram uma loja onde têm os eletrodomésticos para venda. Enquanto mostram as instalações, comentam que, além do pouco espaço que têm, o frio no inverno foi difícil. Mas logo a seguir colocam a esperança na voz, sorriem e dizem que quando a loja estiver pronta, vão voltar ao que era.

Em material ardido, o prejuízo ultrapassou os 200 mil euros. A indemnização do seguro foi de apenas 40 mil, já que o seguro, admite Acácio, não estava bem feito e só cobria os grandes eletrodomésticos. Mas as paredes também precisaram de ser reerguidas, e aí perdeu--se a conta às viagens até à CCDR. “Pediam documentos daquilo que nós tínhamos em stock. Se ardeu tudo, como é que tínhamos papéis?”, explicou Acácio. Depois de dez meses, finalmente conseguiram o apoio de 85% para a reconstrução do estabelecimento comercial.

Casaram em Angola, mas é ali, na loja, que são felizes. “Há um ano sem ter nada”, mas em janeiro espera ter tudo pronto. A casa foi recuperada apenas com o dinheiro deles e com a indemnização do seguro, e parte do recheio foi oferecido por pessoas que quiseram ajudar.

Hoje, Acácio ainda não consegue controlar as lágrimas e diz que “é difícil de descrever. Mesmo nós vivendo aquilo, as palavras que temos para compor essas imagens faltam”. As recordações, essas, persistem.

Paula Lameiras, Vila Franca da Beira

Arderam as medalhas, os rótulos, e tudo o que era capaz de se transformar em cinza ficou em nada. Paula Lameiras não gosta de dizer que tinha uma fábrica, mas sim uma pequena queijaria familiar onde produzia queijo da serra da Estrela certificado. Ainda que de reduzidas dimensões, a Queijaria dos Lameiras era sua e estava ali a tradição que os antepassados lhe deixaram. Se soubesse, naquele dia não tinha voltado para casa, recorda Paula, que tinha regressado do hospital no dia do incêndio e se preparava para renovar os equipamentos da queijaria. Arderam todos, os novos e os usados. Estava em casa com o sobrinho que, há um ano, tinha apenas poucos meses. “Deitei-me dez minutos e escuto uma explosão muito grande, a casa tremeu toda. Foi naquela garagem ali, que já está reconstruída, explodiu lá um jipe e uma caldeira de aguardente. Quando abri a porta, vi tudo a arder. Estava o fogo já aqui por cima e ali de lado. Foi pegar no menino e fugir.” Essa noite foi talvez a pior da sua vida. De manhã, apercebeu-se: “Foi tudo, desapareceu tudo, não ficou nada. Não ficaram recordações, não ficou... nada.”

Desistir ou continuar? Um prejuízo que passa os 400 mil euros. Da queijaria, ainda não recebeu nada. “Só as câmaras novas tinham custado 10 mil euros”, disse Paula. Nos primeiros dias pensou em desistir, na CCDR os obstáculos eram muitos, pediam papéis que tinham ardido. Nessa altura, queria largar tudo e ir trabalhar para o estrangeiro, onde estão os irmãos. Acabou por não ir e, um ano depois, a queijaria começa a ganhar forma. Um ano sem produzir queijo e um ano que trouxe o dobro do trabalho. Quem sempre lhe deu força foram os filhos, que nunca deixaram que a mãe desistisse. A filha, estudante de Psicologia na Universidade Miguel Torga, em Coimbra, queria desistir do curso para ajudar a mãe, mas a faculdade deu uma ajuda e reduziu as propinas para metade.

Atrás da queijaria, Paula Lameiras faz a reconstituição do incêndio – tudo o que ardeu e como ardeu. No final, recorda o seu cão, que não conseguiu salvar. Se não tivesse o sobrinho ao colo, tem a certeza de que teria arriscado a vida para ir buscar o cão. “O pior de todos os prejuízos é tudo o que perdemos e não vamos recuperar.”

 

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