11/12/18
 
 
José Paulo do Carmo 12/10/2018
José Paulo do Carmo

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Algarve em outubro

Decidimos assim, à própria da hora. Com a meteorologia a prometer o último fim de semana de sol e logo com um feriado à mistura. Típico de amigos, sobretudo homens, sem grandes planos, arrancam e vão. É exatamente assim que somos. E foi por isso que após uma quarta-feira bem passada, calcorreando a pé as ruas de Lisboa e ouvindo as histórias que o nosso amigo Gigi tinha para nos contar, decidimos fazer-lhe uma surpresa e aparecer no Algarve no dia seguinte, para onde havia regressado nessa mesma manhã. E lá passámos o dia a ignorar os telefonemas e as mensagens dele para não termos de lhe mentir. Mal o VR acabou o trabalho (já passava das 21h30) arrancámos à pressa, sem grandes malas mas com uma vontade enorme de chegar.

À nossa espera já se encontrava o amigo Jean, que aguentou a cozinha do restaurante aberta para que pudéssemos deliciar-nos com os maravilhosos petiscos que sempre prepara para nós. Tábua de presunto e umas ostras , um choco com a sua tinta e, para finalizar, uma feijoada que nos foi posta na barra já passava da uma. Só aí atendemos o telefonema do nosso amigo, desvendando o mistério para que pudesse dormir em paz. No dia seguinte estaríamos juntos. A conversa estendeu-se mais um pouco no restaurante por entre histórias e risadas, até que recolhemos a casa.

 No dia seguinte lá fomos para a praia já a pensar no almoço, quando nos encontrámos com o nosso anfitrião, que nos recebeu como só ele sabe - ritual que estendemos aos dois dias seguintes. Ali, as refeições sabem a mar, as bebidas a amizade, e o peixe, a cada dia que passa, parece ainda mais especial. Tudo escolhido a dedo. O ambiente descontraído e divertido vicia-nos a alma e faz--nos ter saudades mal passamos a ponte que nos leva para a outra margem.

Dias passados a dar mergulhos neste Algarve tão especial, a ouvir histórias de quem não se cansa de as contar. Quem tem mundo é assim, há sempre uma novidade prontinha para nos saltar da memória. Aquela viagem, o leilão de vinhos, a experiência naquele sítio. Sempre iniciada por um não que quer dizer sim. É sempre melhor que o dia anterior. Dias que passam depressa porque sabem bem. Sabem bem demais (como se o bom alguma vez fosse demais, mas tão apanágio dos portugueses). Estarmos com quem faz gosto em nos receber e a quem adoramos fazer a surpresa da visita por entre um berbigão ao natural ou no arroz, um ceviche de atum à séria ou um lavagante que nos mergulha no paladar. “Gigi l’amoroso” como banda sonora e um ambiente de estrangeiros que sabem apreciar o nosso Algarve, muitas vezes bem melhor do que nós. Para eles, a vida ali é mais simples, sem telemóveis e com o que realmente interessa, a suave tranquilidade do bater das ondas lá ao fundo.

Fomos informados entretanto que o DJ China , nome conhecido na praça, festejava os seus 30 anos de carreira, a que juntava uma festa em que fazia questão de recordar os tempos da Kadoc. Como a pessoa à frente do espaço é um amigo de longa data a quem há algum tempo não fazíamos uma visita, resolvemos juntar o útil ao agradável e passar por lá. O Luís Evaristo de outros tempos estava ali novamente, atencioso e meticuloso, e fez questão de nos tratar com sabor a saudade. A festa foi o que nós precisávamos e o que os organizadores mereciam. Cheia de gente, com um toque malandro que só as noites algarvias sabem impor. Pessoas que gostam de dançar e que invadem a pista com alma, com vontade de viver. Caras conhecidas e outras novas que se misturavam de forma perfeita. Gente de outros tempos e a juventude de agora. Todos ao mesmo ritmo, ao mesmo nível, com a mesma vontade de absorver cada batida. A música estava excelente, embora pudesse ter recriado mais os clássicos de 30 anos de carreira, mas isso são pormenores. Quem lá foi prestigiou o homenageado e a casa, que se lançou numa festa já em outubro quando dizem que, lá por baixo, as coisas só funcionam em agosto. Uma estrutura que se lançou ao desafio não tanto pelo dinheiro, mas para dar e receber a magia dos sentidos. Por nós, valeu bem a pena, estivemos lá mesmo à frente e só nos arrancaram de lá a contragosto quando fechou. Apetece sempre mais, mas é bom assim. Fazem falta mais festas destas e o Algarve fora de época tem-nos surpreendido. Obrigado aos que nos receberam, que nos aturam e nos dão o prazer da sua amizade. Este fim de semana deixou água na boca. Regressei para ver o Benfica e terminei em beleza. Venham mais destes!

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