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Média. Quando os jornalistas são alvos a abater

Média. Quando os jornalistas são alvos a abater

Ricardo Cabral Fernandes 11/10/2018 22:33

O assassinato da búlgara Viktoria Marinova veio alertar para os riscos crescentes para a profissão. Pauline Adès-Mével (RSF) denuncia a impunidade de quem mata 

Flores, velas e fotografias em memória da jornalista búlgara Viktoria Marinova encheram esta semana o Monumento da Liberdade em Ruse, na Bulgária. Marinova foi a terceira jornalista assassinada este ano num país da União Europeia. Estava a investigar um esquema de corrupção de desvio de fundos europeus com, alegadamente, implicações no governo búlgaro. Foi violada, agredida na cabeça e estrangulada, tendo o seu corpo sido abandonado no rio Danúbio, perto de Ruse. Tinha 30 anos e era mãe de uma menina. 

Há muito que Marinova denunciava o estado da liberdade de imprensa no seu país. Trabalhou para o canal regional búlgaro TVN e tinha o seu próprio programa chamado “Detektor”, onde denunciava casos de corrupção. Depois do primeiro episódio, onde entrevistou dois jornalistas de investigação sobre corrupção, o programa terminou abruptamente. A jornalista garantiu que não ia desistir de procurar a verdade e denunciar a corrupção no país. Continuou a fazê-lo até perder a vida na semana passada. E não foi a única a correr perigo. Atanas Chobanov, do Bivol, um site de investigação, revelou esta semana que a redação recebeu várias “ameaças credíveis” sobre os esquemas de corrupção que estavam a investigar, passando-as às autoridades. 

“Viktoria deu uma voz às pessoas. Apenas posso dizer coisas boas sobre ela. Estou-lhe grata por me ter apoiado”, disse Nadezhda Dimova, de 44 anos e colega jornalista, ao “Guardian”. “Ela inspirou-me não apenas como jornalista, mas como ser humano”. “Viktoria Marinova não era uma investigadora profissional, mas arriscava falar sobre isto [corrupção] e dava a oportunidade para outros a discutirem”, acrescentou Chobanov. 

Há quem não veja qualquer relação entre o homicídio e o jornalismo. É precisamente a posição do ministro do Interior búlgaro, Mladen Marinov, que, em conferência de imprensa afirmou “não haver qualquer ligação com o seu [Marinova] trabalho”, sugerindo tratar-se de um caso de criminalidade comum. Ontem, um homem, de 29 anos, de nacionalidade búlgara, foi detido em Hamburgo, na Alemanha, por, alegadamente, ter sido o assassino. 

Mas há quem peça mais. “É muito importante que a União Europeia peça ao governo búlgaro que conduza uma investigação aprofundada do homicídio e lhe diga que não espera apenas que seja apanhado o autor material do crime, mas quem esteve por detrás dele”, afirmou Pauline Adès-Mével, responsável da delegação dos Repórteres Sem Fronteiras para a União Europeia-Balcãs, ao i. “Não basta uma investigação rápida e uma detenção”, acrescentou.

Marinova veio juntar-se a mais dois jornalistas europeus assassinados num ano. Em fevereiro, o jornalista eslovaco Ján Kuciak foi morto com a sua namorada e, em outubro do ano passado, já tinha sido assassinada a jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia num atentado à bomba. Também estava a investigar um caso de corrupção que ia até ao topo do poder político maltês e estava relacionado com os Panama Papers. A morte de Marinova veio alertar para o aumento do risco de se ser jornalista, na UE e no resto do mundo. 

Também esta semana, o jornalista saudita Jamal Kashoggi, de 59 anos, conhecido opositor do regime de Riade que vivia no exílio, desapareceu sem deixar rasto depois de ter entrado no consulado saudita em Istambul. Queria assinar os papéis de divórcio para se poder casar com a sua namorada turca Hatice Cengiz, mas nunca mais foi visto. As autoridades turcas acreditam que terá sido assassinado dentro do edifício, mas o governo de Riade mantém que o jornalista deixou o edifício com vida. Entretanto, a polícia turca está a analisar as imagens de mais de 150 câmaras de vigilância, enquanto o jornal turco “Sabah” avançou que identificou 15 membros de uma equipa dos serviços secretos saudita que, alegadamente, estará envolvida no desaparecimento. 

Com o caso a subir de tom e a aproximar-se de uma crise diplomática, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, exigiu à Arábia Saudita que prove a saída do jornalista do consulado. Confrontada com essa exigência, Riade decidiu deixar as autoridades turcas revistarem o edifício.

Mais de meia centena de mortos Ao longo deste ano, pelo menos 58 jornalistas foram assassinados, com outros  dez jornalistas cidadãos (que não têm carteira profissional) e quatro assistentes a terem o mesmo destino, segundo dados dos Repórteres Sem Fronteiras. Os jornalistas presos ultrapassam em muito os números dos mortos, com 155 detidos, a que se juntam mas 142 jornalistas cidadãos e 19 assistentes. 

Um aumento em relação aos dados da organização internacional disponibilizados para 2017. Não menos que 55 jornalistas e sete cidadãos jornalistas foram mortos, enquanto os assistentes foram 12. Um dos anos mais mortíferos para os profissionais do jornalismo foi 2012, quando 87 jornalistas e 22 cidadãos jornalistas perderam a vida. 

Questionada sobre se existe impunidade para quem persegue e tira a vida a jornalistas, Adès-Mével não hesitou em responder afirmativamente e que “tem aumentado”. “Tivemos três homicídios em Estados da UE. No final do mês faz um ano que o assassinato [da jornalista maltesa] foi cometido. O governo tem impedido qualquer investigação ou inquérito público ao que aconteceu. Queremos justiça e o fim da impunidade. O caso de Malta é o mais óbvio de impunidade”, explicou. 

E se a impunidade, continua a responsável dos RSF, aumenta, as causas não se ficam atrás, com o crime organizado a conseguir desenvolver-se e a influenciar governos. “A forma como o crime organizado tem colaborado com os governos é uma das possíveis explicações”, explicou a líder da delegação europeia, referindo ainda que “os governos preferem que os jornalistas fiquem calados e que não escrevam” sobre casos que os possam fragilizar.

Se há poderes políticos que tudo fazem para protegerem os seus membros, as consequências para os regimes democráticos poderão ser nefastas. “A democracia está em perigo”, alertou Adès-Mével. “Se a liberdade de imprensa não é respeitada e se os líderes políticos continuam a intimidar e a insultar os jornalistas, um dos pilares da democracia vai deixar de existir”. 

Entre os países mais perigosos para os jornalistas, segundo o World Press Freedom Index de 2018, dos RSF, encontra-se a Coreia do Norte, a Eritreia, o Turquemenistão e a Síria. Em primeiro lugar entre os mais seguros estão a Noruega, a Suécia e a Holanda. Já a Bulgária está em 111.º lugar, Malta em 65.º e a Arábia Saudita em 169º. Portugal figura no  14.º lugar do ranking mundial. 

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