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Daniel Mendelsohn. Puxar o lustro a Homero sem académicas pomadas

Daniel Mendelsohn. Puxar o lustro a Homero sem académicas pomadas

Teresa Carvalho 11/10/2018 15:24

Centrado na Odisseia, o mais recente livro do classicista e crítico literário americano - misto de memórias, ensaio crítico e diário sentimental de uma viagem - mostra-nos que nem a velha epopeia é coisa morta nem um regresso é uma viagem ao contrário

 

Não há certame, feira ou festa onde não faça a sua aparição. De tão visível, de tão exposta, já quase ninguém dá por ela. Nunca a literatura terá sido tão desconsiderada como hoje. Depois da consagração oitocentista, que a fez subir a altos cumes, julgou que poderia bastar-se a si mesma. Vontade de autonomização e água benta cada um toma a que quer, e a literatura optou pela porção homérica que a formulação de Mallarmé tratou de servir: “Sim, que a literatura existe e, por assim dizer, sozinha, à excepção de tudo” (La Musique et les lettres, 1894). Bem enganada estava. A sociedade burguesa (utilitária), à qual devia a sua alta posição, afastou-se, cansada de se perder em caminhos opacos, farta de puxar por si. A partir daí, foi o descalabro: desvalorização, descaso, descrédito. 

Quando se trata de procurar sujeitos de culpa para o tombo é comum ver surgir, entre lombadas, uma figura cujo desenho, altamente parodiável, toda a gente tem na cabeça: cérebro monumental, ajustado ao acervo que é preciso arrecadar, testa quase sempre enrugada, em concentração, olho filológico; todo óculos e modos formais. Agarra-se às raízes das palavras como as cadeiras ao poder, e circula, em perpétua disponibilidade, entre conferências e palestras. 

Vive afastada da espuma dos dias, enroscada no silêncio, a pensar, a teclar, a coligir, a detalhar pequenas minudências para indexação posterior em bases de dados de produção científica, coisas assim áridas que não se dão a ler ao leitor de um jornal sem um bom digestivo literário. Nesse pequeno mas importante mundo, onde a moeda da comunicabilidade parece ter deixado de ter valor de circulação, não avança sem o amparo da teoria - espécie de muleta de arranque -, não dá um passo sem antes ter produzido, pelo menos, três notas de rodapé, duas vénias autorais e um bocejo em quem o lê. E talvez por isto o ensino da literatura esteja sempre atrasado relativamente ao que se vai produzindo. É o intelectual da literatura, o literato, o especialista. O “chato”, essa figura não propriamente menosprezível nestes tempos de consumos culturais cada vez mais rarefeitos. 

Com a sua vasta erudição e a sua laçada de minúcias tem força bastante para esganar vários autores numa só tese (a rigidez vocabular e sintáctica também ajudam). Na sua pior versão, faz tara da probidade científica e do rigor pedagógico, ambicionando esgotar uma temática da forma mais desconcertante possível: fazendo-nos perder o interesse, que se vai esvaindo na enxurrada da terminologia deveras especializada. De quando em quando, lá deixa cair uma piada insípida, como se quisesse indemnizar-nos de tamanha maçada. 

O autor de “Uma Odisseia”, um universitário norte-americano, professor de Humanidades no exclusivo Bard College de Annandale-on-Hudson, esquiva-se ao retrato. É o exacto reverso daquele género de classicista que percorre todos os escaninhos do léxico académico com a mesma determinação com que - pudéssemos nós - mandaríamos desatar sobre ele as fúrias de Éolo. Daniel Mendolsohn é o anti-chato. Não que o possamos supor naquela posição da raposa que não chega às uvas. Nada disso: as uvas estão mesmo ali, ao alcance da sua mão especializada, habituada a percorrer todo o parreiral sem grandes golpes de ginástica; conhece-lhes as formas empedernidas, os tons sisudos, o sabor agreste. Boas razões para que este especialista nos clássicos gregos preferira passar pelo tradicional terreno académico como cão por vinha vindimada. Mendelsohn dá às epopeias clássicas, e particularmente à Odisseia, um tratamento que vai contra tudo o que a tradicional cautela universitária tem por costume desaconselhar - da desformalização da dicção, que neste seu livro toma direcções coloquiais sem nunca perder a elegância da formulação, à intensidade apaixonada da razão, comunicada com a naturalidade de um estilo fluente. Neste sentido, o subtítulo “Um pai, um filho e uma epopeia” é já todo um programa de degelo.

As viagens mais interessantes acontecem-nos, por vezes, ao pé da porta. A viagem que este livro descreve começa em 2011 quando Daniel Mendelsohn, ao preparar-se para dar a um grupo de estudantes pré-universitários um seminário sobre a Odisseia, recebe um pedido invulgar: o pai, Jay Mendelsohn, um cientista reformado então com 81 anos, com quem sempre mantivera uma relação algo distante, quer juntar-se ao grupo. A promessa de ficar sentadinho a um canto, a ouvir silenciosamente, quebra-a ele bem cedo, para gozo do leitor, tornado elo da corrente de divertimento que “rumoreja” pela sala: “No primeiro dia de aulas, a sua mão ergue-se e ele começa a contestar praticamente tudo o que eu disse”. Ao longo de cruciais 16 semanas participará da discussão do velho poema. A cada investida épica do professor Mendelsohn, responde o pai com pertinentes observações que deixam malparados os créditos heróicos de Ulisses: “Outra razão por que não posso chamar herói a Ulisses, disse ele, é que ele está sempre a ser ajudado pelos deuses! Tudo quanto faz, qualquer bocadinho de sucesso que tenha, é, realmente, porque os deuses o ajudam. […] O meu pai estava radiante. Exactamente! Sem os deuses, ele é incapaz. ” Das mais desencontradas interpretações há-de nascer o reencontro entre pai e filho. Juntos, partirão num cruzeiro pelo Mediterrâneo que visa refazer o roteiro de Ulisses. Rompe-se o silêncio, encolhe a distância que sempre existiu entre os dois, regressa-se a casa. 

Publicado entre nós pela Elsinore, com tradução de Paulo Osório de Castro, “Uma Odisseia” é um daqueles raros livros que inclui uma espécie de bem-disposto manual de instruções (“a Odisseia não é desprovida de sentido de humor”, lembra o helenista). Quer dizer: vem com tudo o que é preciso saber sobre o poema de Homero para que “Uma Odisseia” funcione. E pode até dar-se ao luxo de descartar a tralha técnica: mapas, notas & comentários, remissões bibliográficas, dáctilos e espondeus (não sei se estão a ver… ) e outras coisas remotas que nos estoiram com a moleirinha. As notas de rodapé, reduzidas a um aparato minutíssimo, parecem reagir, elas próprias, contra o discurso académico. 

Ver desmontar o poema de Homero e, simultaneamente, assistir à montagem das peças que compõem este livro, a fazer pensar num estupendo lego para adultos, é uma intensa comoção. A análise crítica não carrega de erudição o livro, pelo contrário, é o combustível da memória com que se viaja por uma paisagem composta de acontecimentos, episódios, cenas dignas de Homero, amor e desapego, silêncios, interditos, admiração mútua. Escrever uma odisseia assim é um exercício arriscado: é revelar ao público que os intelectuais académicos não são assim tão intelectuais como isso. E nem todos andam cá para produzir muita parra. 

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