17/10/18
 
 
António Galamba 11/10/2018
António Galamba

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Agueiros de outono

Em rota de convergência para a apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2019, muitos são os protagonistas a remar contra a corrente de retorno que, por regra, os conduziráa áreas ao largo da praia ou para águas mais profundas

A desconformidade de um vendedor de castanhas ativado na rua quando o termómetro regista quase 30 graus só tem paralelo com os profícuos agueiros de outono que pontuam a nossa realidade.

Um agueiro é um corrente de retorno, geralmente forte, formada por uma massa de água trazida para a costa pelas ondas e que retorna para o mar pelo local que lhe oferece menos resistência. É um risco sério em algumas das praias portuguesas, mas parece que a realidade assumiu essa dinâmica balnear.

É claro que alguns, seguindo os conselhos para enfrentar o fenómeno, tentam lateralizar essa corrente de retorno, mas os sinais de algum retorno persistem na degradação de alguns indicadores económicos, numa certa leviandade no acesso ao crédito para o consumo e no prenúncio de mudanças na conjuntura favorável dos últimos anos.

Perante tantos agueiros e os respetivos sinais, continuamos a ter um país a várias velocidades, uma urbana e uma rural, o que não seria grave se isso não tivesse grandes consequências na vida concreta das pessoas, tal como continuamos a ter uma gritante dualidade entre o público e o privado, entre os que estão no sistema e os que continuam fora do sistema, enfim, num quadro de desigualdade de atenção e de ação em que os discursos políticos são amiúde desmentidos pela realidade.

É de agueiro constatar no futebol que os mesmos que incendiariam o ambiente com uma reiterada agressão unilateral, agora, quais moralistas impolutos, proclamam que “o futebol não pode ser uma guerra”, como se não tivesse havido um ontem persistente e não houvesse um amanhã que tem de repor muita coisa fustigada pela ofensiva. Mais do que proclamações líricas, este é o tempo dos atos concretos. Podemos não nos rever em tudo, mas há um sentido comum e há memória do que foi conquistado e do que foi beliscado em desespero.

É de agueiro constatar que, apesar de ainda não ter chegado ao fim a época crítica dos incêndios florestais – sendo, no distrito de Lisboa, o mês de outubro de especial risco, como se viu no Parque Natural de Sintra-Cascais, este ano, com os investimentos adequados, não existem relatos de falhas relevantes do SIRESP. Espera-se que quem abocanhou a Altice, no final possa reconhecer que as falhas corriam por conta da falta de investimento do Estado português. Espera-se que à semelhança do agueiro, depois de um ano menos grave que o anterior, o foco na prevenção não seja colocado à margem da vontade política e dos investimentos. Houve um estado de necessidade, a prioridade deve ser mantida.

É de agueiro persistir em não querer ver que há uma corrente de transformação dos equilíbrios políticos em Portugal e no mundo que não se enfrenta apenas com umas benesses para os tradicionais nichos eleitorais do setor público na expectativa de que os bolsos com mais trocos tolerem quase tudo, ou com soluções circunstanciais para crescentes sentimentos enraizados nas pessoas, de saturação com uma certa forma de fazer política, à falta de senso, de explicação e de escrutínio em boa parte da ação política. Por exemplo, aceitar a existência do mercado como parte integrante das dinâmicas de uma comunidade implica não transigir na perturbação do papel fundamental da regulação, seja pelas nomeações que se fazem ou pelos bloqueios que existam ao seu pleno funcionamento como garante de equilíbrios e boas soluções.

Em rota de convergência para a apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2019, muitos são os protagonistas a remar contra a corrente de retorno que, por regra, os conduzirá a áreas ao largo da praia ou para águas mais profundas. No mar, a menos que mudem de atitude nadando nas laterais da corrente, pode acabar mal. Na política, depois da proposta inicial, só lhes restará ou a margem de manobra das especialidades para afagar o ego dos apoiantes da solução governativa ou uma certa sensação de terem metido água. Estar no mesmo barco é coisa muito diferente.

Os que se indignam com as soluções democráticas do Brasil, é bom que tenham presente que na Europa e em Portugal, antes das eleições legislativas, existirão eleições para o Parlamento Europeu, com riscos similares em relação a dinâmicas políticas e sociais já ocorridas noutras latitudes. É que, depois, de muito pouco valerá lamentar a expressão do pulsar eleitoral dos vários “ismos” em presença.

 

NOTAS FINAIS

Penoso 1. É confrangedor o nível de impreparação e superficialidade de alguma imprensa no tratamento de algumas questões. Manter diretos de ocorrências durante horas sucessivas não desculpa que uma jornalista justiceira confunda postes de telecomunicações com postes de alta tensão numa área ardida, como não atenua a deriva de penalização mediática do estatuto de arguido em relação a terceiros quando a esmagadora maioria dos principais jornalistas, em especial os da pseudoinvestigação, são também arguidos. Em desespero, agora até fontes revelam.

Penoso 2. Proliferam os moralistas, os treinadores e os “achistas” de bancada. Se pudéssemos exportar esse ativo nacional de saber sempre o que se devia fazer, de ter uma opinião pela rama e de exercitar uma liberdade de expressão inconsequente na ação e nos resultados, certamente que a balança comercial nunca seria problema. Há os que já fizeram, os que nunca fizeram e os que acham que sabem tudo e sabem sempre como os outros deveriam fazer. Este é o tempo de estes últimos se chegarem à frente, para fazer.

Penoso 3. Com tanta profusão de despesa anunciada, é penoso continuar a constatar os garrotes de cativações e retardações em vários serviços públicos, em contexto urbano ou em meio rural, no interior do país. O discurso político teima em seguir para o interior do país por estradas secundárias, provavelmente esburacadas.

Escreve à quinta-feira

 

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