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Dormio. Cientistas desenvolvem forma de ver o que sonhamos

Dormio. Cientistas desenvolvem forma de ver o que sonhamos

Rita Pereira Carvalho 10/10/2018 22:52

Há séculos que artistas usam truques para registar os seus sonhos, mas agora há um dispositivo capaz de os guardar. O Dormio foi desenvolvido por uma equipa do MIT 

Sentava-se numa cadeira com os braços suspensos enquanto segurava uma pedra em cada mão. Descansava nessa posição e, quando estava prestes a adormecer, deixava cair as pedras, o que fazia com que despertasse novamente. Esta era a receita de Albert Einstein, um dos grandes expoentes da física, para conseguir inspiração para as suas teorias recorrendo à hipnagogia. Mas o que é a hipnagogia? Trata-se do estado diferenciado de consciência que surge na transição entre a vigília física, quando estamos acordados, e o sono, caracterizado pela semiconsciência. De facto, é durante a fase do sono, quando a nossa consciência está desligada, que surgem as imagens e os sons na nossa tela mental. Esta tática era usada para estimular e expandir a capacidade de inventar já que, neste estado, o cérebro é conduzido pela criatividade. 

Einstein não foi o único génio a adotar esta estratégia. Salvador Dalí, o pintor surrealista, também recorria à hipnagogia, que o inspirava para muitas das suas pinturas. Ora, a linha entre o estado de vigília e o sono é muito ténue e, por isso, é tema que envolve muitas perguntas e poucas respostas. No entanto, tal como a criatividade e os sonhos, que nunca param, a ciência também não. Uma equipa de investigadores liderada por Aaron Horowitz, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT na sigla em inglês), desenvolveu recentemente um dispositivo capaz de manter vivas as recordações dos sonhos, chamado Dormio. 

O processo é simples: basta colocar a luva - que é uma espécie de interface funcional do sono em forma de dispositivo -, fechar e apertar a mão ainda acordado para que, à medida que se vai adormecendo, a força se torne, naturalmente, cada vez menor. É nessa altura que o Dormio deteta, através da frequência cardíaca e da elasticidade muscular, que a pessoa está a passar da fase de descanso para a fase do sono, a chamada hipnagogia ou o primeiro estágio do sono, e impede a pessoa de dormir através de um lembrete, já que o dispositivo está sincronizado com uma aplicação instalada num robô. A partir daqui, os cientistas são capazes de influenciar o sono e tirar todas as informações. 

De acordo com o MIT, é a primeira vez que é abordado este estado de consciência, tão subutilizado e pouco estudado, essencial para a memória, a aprendizagem e a criatividade. “Neste projeto exploramos formas de aumentar a criatividade humana, estendendo, influenciando e capturando sonhos no estágio número um do sono”, explica o site do Dormio. 

A diferença entre o Dormio e a receita de Einstein é sobretudo a tecnologia. Agora, com a luva “mágica”, os sensores ativam a aplicação no telemóvel, que faz perguntas relativas ao sonho e grava as respostas antes de a pessoa entrar em sono profundo. Não é preciso pensar muito, apenas responder, prosseguir para a fase de sono profundo e, no dia seguinte, analisar as respostas. Nesta fase, as alucinações fugazes misturam-se com a realidade e é possível manter conversas das quais ninguém se lembra quando acorda.

Resultados e questões A equipa do MIT testou o Dormio com um grupo de seis voluntários e a maioria relatou que se lembra da frase-gatilho e das imagens resultantes do estado de sonho. Depois da utilização do dispositivo, os participantes realizaram um teste chamado “alternative uses task” para medir o grau de criatividade. Ainda que este não seja um processo simples e linear, a maioria revelou resultados acima da média. “Descobrimos que todos os nossos sujeitos, de facto, sonhavam sobre temas escolhidos pelos investigadores antes do sono e que o uso ativo da hipnagogia com o sistema Dormio pode aumentar a criatividade humana, medida pela flexibilidade, fluência, elaboração e originalidade do pensamento”, revelaram os cientistas responsáveis pelo Dormio. 

Controlar os sonhos pode ser aliciante, mas a ciência ainda não esclareceu todas as dúvidas em relação a este assunto. Segundo Valdas Noreika, da Universidade de Cambridge, “as grandes questões são se nos tornamos mais criativos nesse estado de consciência e porque é que, nalguns casos, a hipnagogia leva a um sonho pleno e, noutros casos, ao sono sem sonhos”. 

Os sonhos e o subconsciente levantam diversas discussões entre a comunidade cientifica. Tomás Vega, um dos investigadores que desenvolveram o Dormio, acha que algumas dessas questões têm a ver com a capacidade de inserir ideias nos sonhos de outros ou de manter em sigilo determinados sonhos. Vega deixa a pergunta: “E se eu sonhar que quero matar alguém e outra pessoa tiver acesso à gravação onde eu digo isso? Podem julgar-me pelos meus sonhos?” A verdade é que, ao contrário de Einstein, que guardava os sonhos para si, o dispositivo Dormio não os deixa morrer.

 

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