11/12/18
 
 
Carlos Zorrinho 10/10/2018
Carlos Zorrinho
opiniao

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Paradoxos da mobilidade

Os recentes avanços anunciados em Portugal no apoio ao uso dos transportes públicos e nos incentivos à mobilidade limpa são excelentes exemplos do caminho que tem de ser percorrido

O Parlamento Europeu aprovou regras mais apertadas para forçar a redução de emissões de CO2 para a atmosfera pelos veículos ligeiros de passageiros e comerciais novos na União Europeia. Depois do Acordo de Paris, para tentar limitar o aquecimento global e a panóplia de catástrofes que ele tem provocado, todos os setores têm vindo a reduzir, com maior ou menor êxito, as suas emissões, com exceção do setor dos transportes.

Um pouco por todo o globo, a indústria automóvel tem procurado respostas, quer melhorando as performances dos motores tradicionais, quer desenvolvendo soluções híbridas ou motorizações elétricas que, se forem alimentadas com eletricidade limpa, proveniente de fontes renováveis, são o remédio mais eficaz para reduzir as emissões de CO2 e de outros gases nocivos para a saúde.

A União Europeia, que foi pioneira na dinamização do Acordo de Paris para mitigar as alterações climáticas, tem sido também a zona do globo onde a indústria automóvel tem tido mais dificuldade em dar o salto tecnológico necessário.

O nosso modelo social, que valoriza, e bem, as garantias de emprego e de contratualização nas cadeias de valor, retira alguma flexibilidade à indústria automóvel europeia. Este é, portanto, um caso em que as políticas públicas podem e devem ajudar a impulsionar uma transição justa, através de um forte programa integrado de incentivos quer à modernização das empresas em toda a fileira automóvel, quer à qualificação dos trabalhadores, para assegurar a manutenção dos postos de trabalho.

A revolução necessária na mobilidade não se pode restringir, no entanto, à conformidade ambiental das motorizações. O trânsito e o estacionamento nas grandes cidades (e mesmo nos polos urbanos médios) são cada vez mais insustentáveis, ao mesmo tempo que, nas zonas mais despovoadas, quem não tem meios para adquirir viatura própria sofre grandes constrangimentos para se deslocar.

As metas aprovadas pelo Parlamento Europeu terão ainda de ser negociadas com o Conselho e perderão, provavelmente, alguma da sua ambição. Contudo, se deste processo resultar o lançamento de um programa europeu eficaz para corrigir os paradoxos da mobilidade, em que milhões vivem asfixiados pela pressão do excesso de veículos, e outros milhões presos pela sua falta, o esforço terá valido a pena.

Os recentes avanços anunciados em Portugal no apoio ao uso dos transportes públicos e nos incentivos à mobilidade limpa são excelentes exemplos do caminho que tem de ser percorrido. Importa também desenvolver sistemas sustentáveis de transportes de proximidade capazes de servir as populações rurais, em particular no país rural e interior.

A solução não é deixar de produzir veículos na Europa, até porque, se isso acontecer, acabaremos por importar mais carros produzidos fora do nosso território. A solução é produzir veículos adaptados aos novos desafios ambientais, aos espaços onde vão ser usados, aos modelos de transporte que vão servir e que sejam capazes de competir globalmente e aumentar a criação de riqueza e o emprego de qualidade na União Europeia.

 

Eurodeputado

 

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