15/12/18
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 10/10/2018
Eduardo Oliveira e Silva

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Se Vieira da Silva assumisse a pasta das Finanças, seria um filme de terror

Se quase nada funciona direito na Segurança Social, o que seria com ele no lugar de Mário Centeno?

1. Face à mais do que previsível saída de Mário Centeno do governo depois das legislativas, Marques Mendes aventou domingo a hipótese de Vieira da Silva ser um dia o ministro das Finanças. A ideia é aterrorizadora, e não por ser uma antevisão de uma eventual vitória do PS nas legislativas, que as sondagens admitem. Nada disso. O que está em causa é o perfil da criatura. Vieira Silva é o ministro da Segurança Social e do Emprego. Se é certo que o emprego tem melhorado, não é menos certo que essa tendência não tem rigorosamente nada a ver com ele, mas sim com uma conjuntura económica favorável, alavancada no turismo, nalgumas indústrias e na capacidade de sobrevivência dos desempregados. O contributo de Vieira da Silva está mais em habilidades estatísticas do que no terreno. Mesmo assim, tem de se admitir que o IEFP funciona. Já os serviços da Segurança Social, que Vieira da Silva comanda, estão um caos. São uma área em que tudo falha. O atendimento é caótico. As reformas levam meses a serem despachadas. As penalizações são absolutamente brutais. Basta dizer que, por exemplo, quem tenha 42 anos de descontos e 64 de idade leva um corte de cerca de 20% na sua reforma por causa da soma de uma penalização e do chamado fator de sustentabilidade, que Vieira da Silva introduziu no tempo de Sócrates, de quem era especial amigo e com quem convivia, até que desapareceu, em valentes patuscadas. Vieira da Silva é o típico político de partido e de amigalhaços. Basta ver quem ele colocou em institutos como o Inatel e na Santa Casa da Misericórdia para perceber isso. E a circunstância de a filha estar também no governo não é coisa que certamente diminua a sua influência. Há não muito tempo, este ministro foi alvo de notícias a propósito de ligações à Raríssimas e às circunstâncias em que aquela IPSS funcionava. Não aconteceu nada e o Ministério Público não viu problemas, mas politicamente ficou uma nódoa indelével. De hoje para amanhã, manter no governo, e logo nas Finanças, um perfil destes seria perpetuar uma prática de cortes de expetativas legítimas e legalmente sustentadas, em benefício de uma política desarticulada, passadista e penalizadora de quem trabalhou, descontou e aforrou. Um político assim é um filme de terror. Quem tiver dúvidas que veja o que ele fez nas outras áreas em que foi ministro, como a economia, logo na altura em que ela colapsou.

 

2. Azeredo Lopes é um político em estado de coma, depois das suas posições atabalhoadas e erráticas na sequência do surrealista caso de Tancos. Falhou tudo o que podia ter falhado neste triste assunto. E nem a circunstância de ser uma pessoa de bom trato pessoal pode safar o ministro desta morte lenta. Desde o início, mostrou-se totalmente incapaz de controlar e esclarecer o assunto. Como logo aqui se escreveu, Azeredo Lopes deveria ter sido remodelado por António Costa. Melhor ainda: deveria ter saído pelo seu próprio pé para evitar tudo aquilo a que temos assistido e que afeta o governo, as Forças Armadas e o seu próprio comandante supremo que, em Portugal, é o Presidente da República.

 

3. O problema da modernice é quando se torna saloiice. A Web Summit é um paradigma. O evento é importante, mas os números que o enfeitam são uma falsidade. Portugal não tinha de gastar 110 milhões para manter o evento cá. Lisboa vale por si própria e passou a ser uma cidade mundialmente incontornável. A Web Summit veio para cá por causa de alguns políticos anteriores, mas sobretudo de empresas incansáveis e especializadas: a Abreu, a Top Atlântico, a Citur e a Events By TLC. São elas que trazem milhares e milhares de congressistas e que, na prática, nunca tiveram apoios significativos. E foram elas que criaram o lastro para que viesse a Web Summit, sem menosprezar o trabalho político feito, por exemplo, por Mesquita Nunes. Se dessem a essas empresas um terço dos apoios dispensados diretamente à Summit, veriam a dimensão do que poderíamos trazer até Portugal, e não necessariamente a Lisboa. Quando se fala de descentralização, eis algo que não devia passar em claro. O que se passou com o apoio à Web Summit é eleitoralismo e, sobretudo, demagogia caríssima. A Web Summit é um pico de alguns dias, enquanto há empresas e empresários, normalmente jovens (como os do surf e dos desportos de ar livre), que são incansáveis a trazer grandes eventos e congressos durante o ano todo. Esses, sim, merecem apoios, carinho, condecorações e certas facilitações por parte do Estado, da autarquia lisboeta e das suas freguesias centrais (como Belém e Alcântara), que recebem milhões da taxa do turismo, mas não sabem recolher o lixo e lavar os passeios.

 

Jornalista

 

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