17/10/18
 
 
Carlos Carreiras 10/10/2018
Carlos Carreiras

opiniao@newsplex.pt

O fogo não vence sempre

Devemos admitir que as difíceis condições operacionais foram atenuadas pela extraordinária resposta das populações. Na Charneca, Almoinhas Velhas, Figueira do Guincho e Malveira, os cidadãos foram sempre parte ativa da solução, nunca do problema

Quando na noite de sábado recebi a chamada, intui que não seriam boas notícias. O vento forte soprava um fogo do topo da Peninha em direção ao Guincho e tínhamos acabado de debelar um outro foco de incêndio no nosso Parque Natural, uma das joias ambientais de Portugal. A chamada confirmou as minhas suspeitas: o parque estava novamente a ser atacado. E com maior intensidade.

O ano passado, tinha assistido impotente aos fogos que consumiram hectares e hectares de terra do meu país. Vi o desespero na cara dos meus compatriotas. Partilhei a tristeza dos meus colegas autarcas que viram as suas terras engolidas pelas chamas. Quase perdi a fé no Estado quando tudo parecia ter falhado.

Por eles, por nós, desta vez tinha de ser diferente. O fogo não podia voltar a ganhar. Em Cascais, assim nos ajudassem a sorte e a proteção divina, tínhamos de ajustar as contas com a História. Estávamos preparados para fazer diferente. Trabalhámos muito ao longo do(s) ano(s) para manter a nossa serra limpa e ordenada. Treinámos os nossos bombeiros e fizemos simulacros, não regateámos compra de equipamento ou proteção individual. E sim, também aprendemos com a experiência dos que antes de nós caminharam nos trilhos da adversidade.

Em poucas horas, mais de 700 bombeiros reuniram-se para fazer frente a um mar de fogo. Vieram de todo o lado, não regatearam apoio e solidariedade. Nenhuma palavra é suficientemente grande para lhes agradecer. Peço-lhes que num modesto obrigado encontrem a gratidão de 210 mil cascalenses.

Enquanto os bombeiros se agigantavam contra as chamas, as restantes forças de proteção civil, forças de segurança e, mais tarde, forças militares faziam o que tinha de ser feito. Estabeleciam perímetros, criavam bolsas de segurança e porta a porta sensibilizavam as populações para a hipótese de evacuação. Tudo num ambiente de enorme serenidade, com o inferno à espreita. Quando a calma se sobrepõe ao desespero, ficamos um passo mais perto do objetivo: proteger pessoas, animais e bens. Isso foi conseguido pelas nossas competentes forças de segurança e Proteção Civil.

Devemos admitir, porém, que as difíceis condições operacionais foram atenuadas pela extraordinária resposta das populações. Na Charneca, Almoinhas Velhas, Figueira do Guincho e Malveira, os cidadãos foram sempre parte ativa da solução, nunca do problema. O que é extraordinário: é que, apesar de tudo o que viram e ouviram nos últimos meses, as pessoas mantiveram a confiança nas instituições. Acreditaram no Estado, local e central, confiaram que ele não lhes faltaria nem falharia. E ele não falhou nem faltou. Um capital enorme de confiança é de energia cidadã que temos obrigação de manter.

O Estado esteve bem presente. Comigo, como é minha obrigação, na linha da frente. Com os meus colegas inexcedíveis, de várias divisões e departamentos municipais, a dar apoio direto às populações. Mas também com o Presidente da República, o primeiro-ministro e o ministro da Administração Interna em contactos permanentes para acompanhar a evolução da situação e prestar o seu apoio ao concelho. Cascais, que tantas vezes foi solidária com o país, recebia de volta essa solidariedade através dos mais altos representantes da nação. Não esqueceremos isso.

Com o raiar do sol chegaram os prometidos meios aéreos. Com o vento a amainar e as cargas diluvianas despejadas pelos bombeiros do ar, a batalha virou a nosso favor. Eram 10h50 de domingo, o fogo era dado como controlado.

Balanço feito pelos especialistas: 47 pessoas evacuadas que em pouco mais de 12 horas regressaram às suas casas em segurança; 18 feridos ligeiros – destes, apenas um civil, e nenhum inspirando cuidados de maior; zero habitações perdidas; danos patrimoniais menores; 485 hectares de parque natural queimados, num total de 3200 de área verde.

Este incêndio ficará guardado na nossa memória. Mas não entrará na História pelas mesmas razões dos que o antecederam. Houve coordenação. Houve meios. Houve resposta. Houve solidariedade do público e do privado – a propósito, um reconhecimento justo à Altice e ao SIRESP, parceiros que estiveram à altura dos acontecimentos e das responsabilidades. Em resumo: houve Estado. Como país, cumprimos onde os cidadãos do país se tinham habituado ao falhanço, com as consequências dramáticas que conhecemos. E isso é uma boa história, é uma boa notícia, por mais que em tudo nos esforcemos por encontrar casos e casinhos.

Fizemos o que devia ser feito. Afinal de contas, houve um incêndio cujas causas as forças de investigação procuram apontar. Todavia, provámos que com preparação e meios, com coordenação e boa vontade, a tragédia dos incêndios não é uma inevitabilidade.

Este foi o tempo de combater o fogo. Daqui para a frente, é o tempo de redirecionar a nossa energia individual e coletiva para a reposição da normalidade.

Depois de reunidas as equipas, já está em curso a limpeza do terreno e o abate das árvores queimadas. Com recurso ao banco genético vegetal autóctone e mobilizando a boa vontade dos cidadãos que, desde a primeira hora, procuram formas de ajudar, daremos início a uma grande ação de voluntariado para reflorestar o nosso parque natural, com início já no próximo sábado, 13, a partir das 9h30, na duna da Cresmina.

Como presidente da câmara, e atuando com o mais decisivo de todos os poderes políticos, o poder da caneta, assinei um despacho que reforça a blindagem do parque natural e estamos dispostos a ir ao limite que a lei nos permita. Comigo, terreno ardido não é, nem será, para betão. Começaremos a recuperação do parque uma semana depois da ignição do fogo para sinalizar muito claramente a nossa prioridade: reflorestar, replantar, recomeçar.

Obrigado a todos quantos estiveram connosco. Que a mensagem de Cascais, de esperança na adversidade, de resiliência na dificuldade, dê ânimo a quem passou pelo trauma dos incêndios.

 

Escreve à quarta-feira

 

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