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9 de Outubro de 1959. O capitão Silva Pais andava preocupado

9 de Outubro de 1959. O capitão Silva Pais andava preocupado

Afonso de Melo 09/10/2018 22:47

Lisboa a contas com a crise do leite. E com as moscambilhas feitas por alguns vendedores que aldrabavam bilhas e medidas. Já os vagabundos eram perseguidos sem piedade

Novidade! Leite engarrafado!!!

Pois, pois: um luxo que punha os lisboetas a falar nos cafés e nas esquinas. E as comadres de janela para janela.

E há que dizer que isto acontecia em plena crise do leite. Mas já lá vamos.

A notícia agradável vinha assim publicada: “Vamos ter, ainda este mês, leite pasteurizado em garrafas de litro, de meio litro e de quarto de litro, posto à venda por uma importante empresa que tem estado a fazer estudos sobre o caso e vai utilizar maquinaria moderna e todos os preceitos de higiene. O leite é transportado da fábrica até às leitarias, cafés e confeitarias, em carros frigoríficos de modo a evitar qualquer alteração.”

A propósito, muito a propósito.

Porque o capitão Silva Pais andava preocupado. 

O capitão era diretor dos Serviços de Fiscalização. Ora, as brigadas que tinha posto em ação por toda a cidade de Lisboa tinham-se deparado com muitas moscambilhas. Imaginem que havia bilhas de leite viciadas: fundos falsos com a altura de dois e três dedos, de propósito para defraudar os clientes. Escandaloso! 

E medidas aldrabadas. O sr. Alberto Fernandes Graça teve as suas bilhas apreendidas. E não tergiversou. De nada lhe valeria, apanhado como foi com a mão na massa, ressalve-se aqui a expressão. Já uma vendedeira ambulante foi mais lesta: deu às de Vila Diogo, mas deixou ficar para trás não só a bilha como também o dinheiro da jorna.

Números Afirmava o sr. dr. João Augusto Marchante, presidente da Junta Nacional dos Produtos Pecuários, que os vendedores de leite em Lisboa atingiam já os 1700 ou 1800, embora só 1500 estivessem legalizados.

Ora, isso não evitava desagrados.

“Esta manhã houve, realmente, uma falta de 800 litros de leite em virtude de este se ter alterado por causa das condições climatéricas. Mas esta falta foi, na realidade, insignificante se tomarmos por base os 100 mil litros de leite que Lisboa consome diariamente. Hoje já chegaram 5 mil litros de leite do Norte e manhã vêm 10 mil litros de Aveiro e mais 3 mil de Santarém e Vila do Conde, o que perfaz a totalidade de 13 mil litros. E posso garantir que, atualmente, o leite que Lisboa recebe em nada se assemelha ao que até há bem pouco a população da capital estava a beber. O produto tem melhorado consideravelmente.”

A distribuição também exigia intervenção. Exigia-se uma determinada área entregue a cada vendedor. Havia às vezes prédios fornecidos por quatro ou cinco leiteiros, o que era um desperdício de tempo.

O sr. dr. Marchante não tinha dúvidas: “Impõe-se, para defesa dos próprios vendedores, uma melhor organização na sua distribuição. Os postos abastecedores têm os seus horários de abertura e encerramento e não podem exceder os períodos desses horários por causa do Instituto Nacional do Trabalho, que já tem multado alguns dos empregados dos postos. Vamos ter de conciliar as coisas da melhor maneira possível.”

Quem se estava nas tintas para todas estas preocupações era, por exemplo, o sr. Evaristo Carreiros Faria, envolvido novamente na falsificação de medidas e detido em consequência. Não se livrou de passar umas horas na companhia de um conhecido cadastrado, o Baboseiro, de nome de batismo Manuel Domingos dos Santos, capturado em pleno ato de vagabundagem. Ah, pois... Não era apenas o leite e seus derivados que preocupava os agentes da justiça em Lisboa. Uma batida levada a cabo durante a madrugada identificara vários indivíduos:”Não têm modo de vida definido nem residência certa, e contam com antecedentes policiais.” Numa casa devoluta escondiam o fruto da sua atividade: dois cordões de ouro com cerca de 30 gramas; uma máquina de filmar Kodak Browning de oito milímetros com estojo de cabedal; um relógio despertador e dois relógios de pulso próprios para senhora; uma bússola de campismo; duas pulseiras de prata dourada com berloques; alfinetes de peito de prata, um representando um navio, o outro representando uma vindimadeira; uma medalha de ouro com a imagem de Nossa Senhora de Fátima; um anel de ouro com pedra. 

Objetos concentrados na Secção Central onde poderiam ser resgatados pelo seus devidos proprietários se conseguissem provar que eram seus os pertences. Bem como um nunca mais acabar de calções de banho, fatos de praia, apetrechos para pesca submarina, raquetes para ténis e badmínton: tudo recuperado após a prisão de indivíduos que atuavam nas praias da Costa do Sol, dedicando-se ao furto do que encontravam no interior de carros estacionados.

A vendedeira de leite que se dedicava a falcatruar as medidas das bilhas não apareceu para reclamar nem as bilhas nem o dinheiro. Pernas, para que as quis! Já as preocupações do capitão Silva Pais não pareciam largá-lo. Não eram dias bem passados.

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