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Capítulo Proibido. Três histórias de Nodeirinho

Capítulo Proibido. Três histórias de Nodeirinho

DR Ana Petronilho Felicia Cabrita 03/10/2018 21:38

O i está a revelar em exclusivo e na íntegra o capítulo vi do relatório do investigador Domingos Xavier Viegas. Foi esta parte do documento que o governo decidiu não divulgar mas que serviu de base à acusação do Ministério Público

As três histórias de Pedrógão Grande reveladas hoje pelo i demonstram que, num país onde o Estado não consegue assegurar a defesa dos cidadãos, o futuro do homem é muitas vezes obra do acaso. A forma como grupos de amigos ou familiares se separaram para tentar sobreviver e escapar ao fogo revela não só que não houve no terreno qualquer tipo de autoridade que os orientasse para um caminho livre de perigo como que o instinto, perante o medo, nos leva muitas vezes a tomar a opção errada.

Exemplo disso é o primeiro caso, em que três mulheres, podendo ficar numa casa com construção segura e uma piscina onde podiam defender-se das chamas, decidiram fugir nos seus carros, onde encontraram a morte. Estas histórias dramáticas integram o capítulo vi do relatório dos peritos liderados pelo investigador Domingos Xavier Viegas que o i tem vindo a publicar. O documento foi encomendado aos investigadores pelo governo mas, por decisão política, nunca chegou a ser divulgado. Da análise do professor catedrático sobre as 66 vítimas de Pedrógão Grande pode concluir-se que muitos dos que sobreviveram à tragédia do verão de 2017 optaram por se refugiar em lavadouros públicos, fontes e piscinas.

Grupo de Nodeirinho

“Este acidente envolve um grupo de pessoas, com relações de parentesco ou de amizade entre elas. A Maria Luísa Araújo Courela Antunes Rosa (68 anos), mãe de Sara Alexandra dos Santos Peralta Antunes (33 anos), vivia em Adega, próximo de Vila Facaia. Vasco Antunes Rosa (74 anos), residente em Nodeirinho, era o pai de Duarte Antunes e amigo de Maria Luísa. A Sara Elisa Dinis Costa (35 anos) vivia em Vila Facaia, na casa que fora dos seus pais e participava em ações de formação em Pedrógão Grande. Tinha um filho, o Dinis, com 7 anos A Sara Antunes era casada com o Duarte Antunes.

O Duarte, a Sara Antunes e o Rui Alexandre, um amigo de Sara Costa, vivem na região de Lisboa, mas vinham com frequência para esta zona, para conviver com a família e os amigos. O Duarte dispõe de uma casa de família em Adega e todos gostavam da vida do campo, que consideravam ser um escape para o stress da vida urbana.

No dia 17 o Duarte, a Sara Antunes, o Rui e a Sara Costa estavam na casa de Duarte em Adega e haviam ido ao início da tarde à Sertã fazer compras. Nessa altura aperceberam-se do incêndio que se estava a desenvolver em Escalos Fundeiros, constatando que o mesmo estava quilómetros de distância. Nessa altura apenas lhe atribuíram a importância de um mero incêndio florestal, como tantos outros, e nada de mais.

Por volta das 17 horas regressaram a Adega pelo IC8 e viram claramente duas colunas de fumo distintas, que progrediam de certa forma rapidamente na direção de Adega. Ligaram então para o Vítor Guterres, que reside em Atalaia, e rapidamente se apresentou em Adega. Com a sua experiência de lidar com incêndios, aconselhou os amigos a fazerem preparativos para defesa da habitação e combate ao incêndio.

O Rui e o Duarte mudaram de roupa, vestindo umas calças de camuflado, calçando umas botas de tipo militar e camisolas de manga comprida. Vieram colocar os carros em segurança no largo do café de Adega. Nessa altura avistaram a única viatura de bombeiros em todo o tempo e neste local. Tratava-se de um veículo florestal de combate a incêndios que estava parado, provavelmente a atestar de água.

No regresso a casa pediram à Sara Antunes e à Sara Costa que levassem a autocaravana, uma Volkswagen Transporter, e os três cães de médio porte, que eram animais de estimação do Duarte, e se dirigissem a casa de Vasco Rosa, em Nodeirinho, onde deveriam estar mais em segurança.

Efetivamente em Nodeirinho Vasco Rosa dispõe de uma propriedade ampla, num terreno em declive suave, com uma casa de construção antiga e bem conservada em baixo e outra, de construção mais recente, na parte de cima, que designaremos por casa nova. Entre as duas casas existe um espaço com uma piscina de dimensões médias, que se encontrava cheia de água. O espaço envolvente das casas está demarcado de um dos lados, por um muro de pedra e alvenaria, com cerca de dois metros de altura, que constitui em si igualmente uma boa proteção contra o fogo. Do outro lado existe uma cerca metálica, com uma rede. Na parte de cima do terreno existe um pinhal e ao lado das casas existe um olival, que é ladeado por uma estrada de terra, que dá acesso às casas de Vasco Rosa e de um vizinho, que não estava no local nessa tarde.

A Maria Luísa e o Vasco encontravam-se em casa, na altura em que a Sara Antunes, que conduzia a autocaravana, e a Sara Costa chegaram à propriedade. Tudo indica que deverão ter estacionado a viatura na garagem da casa nova, em cima. Nesta garagem, que é ampla, encontrava-se o carro de Vasco Rosa e a autocaravana deve ter sido estacionada de traseira, estando pronta a sair, em caso de necessidade.

Embora a dimensão da propriedade fosse de molde a proporcionar espaços onde se poderia permanecer em segurança, a opção que as quatro pessoas que estavam na propriedade nesta ocasião tomaram não foi a de se refugiarem em locais seguros. O espaço entre as duas casas e, em especial a piscina, oferecia condições de sobrevivência boas para o conjunto de pessoas, mas por qualquer razão não fizeram uso delas.

O fogo terá entrado no pinhal na parte superior da casa, propagando-se a uns anexos e outros materiais que estariam na parte superior da casa nova, que em breve começou a arder.

Com a aproximação do fogo, o Vasco Rosa foi tentar apagar uns focos de incêndio que tinham começado a cair no olival ao lado da casa. Embora estivesse calçado apenas com chinelos e vestisse uns calções e uma T-shirt, foi sozinho enfrentar o fogo, primeiro com uma mangueira e mais tarde com um ramo, que utilizava como batedor.

Entretanto as três senhoras, provavelmente assustadas com a entrada do fogo na casa onde estavam, decidiram fugir. Entraram na autocaravana com a Sara Antunes ao volante, a Maria Luísa ao seu lado e a Sara Costa na parte de trás, onde estariam também os três cães. Logo na saída da garagem o caminho desce uns 50 metros até á porta da propriedade do vizinho e depois inflete em angulo reto, para a esquerda, em direção à estrada alcatroada, do limite da aldeia de Nodeirinho. Com a visibilidade reduzida pelo fumo e, muito provavelmente com a presença de chamas, a Sara Antunes perdeu o controlo da viatura e não fez a curva para a esquerda, em direção à saída.

Ao seguir em frente a autocaravana embateu com o lado direito no muro da propriedade vizinha e o seu lado esquerdo ficou encostada a um pinheiro ali existente. Nesta circunstância infeliz, as três portas de acesso à viatura ficaram impossibilitadas de abrir. Admitindo que não tenham ficado afetadas pelo embate ou pelo fumo e fogo, a Sara Antunes e a Maria Luísa, teriam enormes dificuldades para sair do carro naquelas condições. Efetivamente os seus corpos foram encontrados dentro da viatura.

A Sara Costa, que ficara na parte de trás da autocaravana conseguiu abrir uma janela lateral ou traseira e sair da viatura, que entretanto deveria ter começado a arder. Com o desespero tentou abrir a porta de acesso à propriedade do vizinho, para se poder refugiar atrás do muro, sem o conseguir. Foram encontradas marcas de sangue, que se supõem ser da Sara Costa, junto desta porta, que podem ser devidas a algum ferimento que tivesse contraído no embate, na saída da viatura ou na tentativa de abrir esta porta.

Como não o conseguiu a Sara Costa foi refugiar-se por trás ou em baixo da viatura, junto de um suporte para transportar bicicletas. O seu corpo foi encontrado neste local.

O Vasco Rosa acabou por não resistir à inalação de fumos e ao calor que o combate às chamas envolveu. O seu corpo foi encontrado deitado no chão, não muito longe do muro. Não apresentava queimaduras e a vegetação em sua volta não se encontrava queimada, indicando que terá sucumbido devido à inalação de gases e ao calor. Deve notar-se que tinha sido sujeito a duas intervenções cirúrgicas, com transfusão de sangue, nos meses antecedentes, o que poderia indicar alguma dificuldade da sua parte para suportar um esforço como o que terá tido que fazer, nas condições em que teve de enfrentar este incêndio.

Entretanto o Duarte e o Rui Alexandre tinham estendido umas mangueiras para defender a casa do Duarte e os seus anexos. Fizeram um grande esforço, correndo de um lado e de outro, mas em determinada altura faltou a água e devido à violência do incêndio tiveram que desistir. Decidiram refugiar-se no Café Adega, que se situa a uns 150 m da casa. Nessa altura veio um vento muito forte que os obrigou a ajudarem-se mutuamente ao caminhar em direção ao café.

A chegarem ao café, encontraram cerca de 20 pessoas que ali se tinham refugiado. Entre elas estavam pelo menos duas crianças e um senhor que deixara o seu carro estacionado em frente ao café, mas do outro lado da estrada. Como o fogo vinha desse lado o carro ardeu completamente. Felizmente não tiveram a mesma sorte os cerca de dez carros que estavam estacionados no logradouro do café. Se algum destes carros se tivesse incendiado a segurança das pessoas dentro do café estaria seriamente comprometida, tanto mais que no exterior havia uma grade com bilhas de gás cheias, que eram vendidas no café.

A Maria de Lurdes do Carmo e o seu marido, Luís Coelho, donos do café de Adega confirmam que a chegada do incêndio ao café se deu pouco depois das 19h15, porquanto a Lurdes estaria a confecionar uma refeição que estava encomendada para as 19h30, mas naquela hora faltou-lhe a eletricidade, o que prejudicou o seu trabalho.

Dentro do café começou a sentir-se muito calor e havia fumo. O Rui ajudou os donos do café a fechar as janelas para evitar a entrada de mais fumo e a fornecer garrafas de água e toalhas molhadas às pessoas que estavam ali, para protegerem as vias aéreas. Tentaram contactar a Sara Costa e a Sara Antunes pelo telemóvel, sem sucesso. Quando mais tarde chegou uma coluna de oito ambulâncias acompanhada pelo adjunto de comando de Castelo Branco, pediram-lhe para contactar o PCO, para ver se sabiam de algo, mas esta comunicação não foi bem conseguida.

Foram então diretamente para Nodeirinho e depararam-se com os corpos das três mulheres e de Vasco Rosa, sem vida próximo da casa. Contactaram as autoridades para virem guardar o local e tomar conta da ocorrência, mas estas não compareceram.

O Rui permaneceu durante toda a noite no local, em homenagem à memória dos entes queridos que ali estavam e também para os preservar da curiosidade das pessoas, nomeadamente da comunicação social. No dia seguinte, compareceu a GNR para delimitar a área. Já na parte da tarde, compareceram as autoridades judiciais que efetuaram o levantamento dos corpos”.

 

Sidnel e Rodrigo

Baseado no depoimento de Ana Sofia Gomes

“Ana Sofia Gomes era casada com Sidnel Belchior Vaz do Rosário (38 anos). Viviam na região de Lisboa, mas vinham com frequência à região de Pedrógão Grande, concretamente a Nodeirinho, onde Ana Sofia havia adquirido e recuperado uma casa tradicional no centro da aldeia.

Os pais do Rodrigo Miguel Cardita Rosário (4 anos) haviam celebrado o seu matrimónio no início de junho e estavam ausentes do país, em viagem de núpcias. Tinham confiado o seu filho ao Sidnel, irmão do pai, e à Ana Sofia.

O Sidnel a Ana Sofia, vieram de Lisboa na quinta-feira, dia 15, depois de recolherem o Rodrigo e tencionavam regressar no domingo dia 18. Acompanhava-os um casal amigo.

No dia 17, de manhã os cinco tinham-se deslocado no Citroën C3 ao Fundão, de onde seguiram para a Covilhã, onde almoçaram. A meio da tarde regressaram pela via rápida, tendo apanhado alguma chuva na viagem, devido à trovoada. Na viagem deram-se conta do incêndio em Escalos e pararam na barragem do Cabril. Ali viram os dois Canadair e os helicópteros de combate ao incêndio abastecer de água. Tratava-se de uma experiência para todos e, em particular, o Rodrigo estava muito excitado por poder ver os aviões de tão perto, a fazer aquelas manobras.

No trajeto pelo IC8 viram alguns bombeiros. Voltaram a casa pelas 19 horas. Estiveram a organizar as compras que haviam feito e a Ana Sofia ia começar a preparar o jantar. Houve uma falha repentina de eletricidade, mas voltou rapidamente. Nessa altura sentiram o cheiro do fumo e vento.

Pelas 19h30 o Sidnel disse que ia até o cimo da aldeia para ver como andava o incêndio. Já ia com o carro em andamento quando o Rodrigo disse que queria ir com o tio. Os tios disseram ao menino para ficar em casa, mas ele insistiu e entrou no carro.

O Sidnel seguiu pela rua que passa diante da capela de Nodeirinho, em direção ao acesso da EN236-1. Segundo o testemunho de Aníbal Nunes, pai de Bianca e Marcelo, o carro de Sidnel passou por ele logo seguido do carro de Afonso Conceição.

Segundo podemos admitir os dois carros terão prosseguido por mais um ou dois quilómetros, mas, com o fogo por todo o lado, deverão ter decidido voltar para trás. Nesta inversão de marcha o Afonso Conceição passou a seguir na frente. A cerca de 90 metros da primeira casa de Nodeirinho, da família de Aníbal Nunes, numa curva para a esquerda, havia um tronco de pinheiro caído na estrada. Quer fosse para se desviar deste tronco, ou por ter perdido a visibilidade, o Afonso Conceição chocou com uma árvore situada na berma direita da estrada, imobilizando-se.

O Sidnel vinha atras de Afonso e, ao encontrar a estrada obstruída com este carro e porventura pelo tronco de pinheiro, teve de parar o carro. Não cremos que tenha havido um embate entre os dois carros. Se tivesse havido, certamente não teria sido violento, pois é natural que tivessem de viajar a pouca velocidade, por causa do fumo.

O Sidnel e o Rodrigo terão permanecido no carro, ou saído pouco depois de pararem e permaneceram próximo do carro. O Sidnel terá tentado fazer uma ou mais chamadas para a Ana Sofia e chegou mesmo a atender uma chamada dela, um pouco mais tarde, dizendo-lhe que já ia para casa, dando a entender que já estariam a regressar. Esta chamada descansou a Ana Sofia que inicialmente julgou que estariam de volta para casa.

Entretanto a Ana Sofia pediu ao casal para se manterem em casa no seu quarto de dormir, pois lhe parecera ser o local mais seguro. Com uma mangueira foi molhando sobretudo na parte de trás do quintal. Deslocava-se entre a rua em frente da casa e o quintal. Caiam muitas fagulhas e ocupava-se em apagar as que criavam focos de incêndio perto da casa. Estava particularmente preocupada com a casa dos pais, que ficava anexa e tinha algumas partes, de construção mais vulnerável. Em determinada altura viu a Gina passar.

Tinha sempre a esperança que o Sidnel voltasse para casa com o Rodrigo, de um momento para o outro, por isso queria manter a casa em segurança para os acolher. Como estavam a demorar considerou que não tinham tido possibilidade de voltar a casa e que se teriam afastado do fogo para algum lugar.

Em determinada altura sentiu um tornado de vento, primeiro com areia e depois com cinzas, fumo e chamas. Pouco depois faltou a água e um dos anexos começou a arder.

Uma vizinha ter-lhe-á gritado para se irem embora. A Ana Sofia estava preocupada com uma bilha de gás que tinha na cozinha, pois não conseguia retira-la para um local mais seguro.

Numa das vezes que estava na estrada em frente de casa, viu aproximar-se um homem que trazia uma lanterna fixa na cabeça. Pensou que fosse um bombeiro e perguntou-lhe se trazia um carro de água. O senhor disse-lhe para vir atrás dele. A Ana Sofia foi buscar os amigos e foram andando para a parte de baixo da aldeia, chegando ao tanque. Ali umas quinze pessoas estavam dentro de água e outras estavam por perto. Viu a Gina e o Marcelo e apercebeu-se que estavam queimados, sobretudo a Gina. Como o seu telefone tinha bateria e rede, fez algumas chamadas para o Sidnel e emprestou o telefone para outras pessoas fazerem contactos, em especial para pedir socorro para a Gina e o Marcelo. Numa das vezes em que o seu telefone andava de mão em mão - não consegue precisar a hora - recebeu uma chamada, quando tentou atender, viu que era do Sidnel, mas não conseguiu falar. Tentou retornar a chamada, mas não obteve resposta. Apesar disto, a Ana Sofia ficou satisfeita por saber que o Sidnel tinha conseguido ligar-lhe. O Marcelo Nunes referiu-nos que se apercebera que a Ana Sofia manifestara um grande contentamento ao ter percebido que o Sidnel lhe atendera a chamada. Passado algum tempo, com o muito uso que lhe foi dado, a bateria do telefone acabou e ficou sem poder ligar.

Um enfermeiro prestou socorro á Gina, que foi levada por um carro particular, perto da 01 hora, juntamente com o Gonçalo, para Pedrógão Grande. As ambulâncias pedidas desde as 21 horas apenas chegaram pelas 03h30.

Cerca das 02 horas começaram a dizer que tinha aparecido uma senhora queimada na parte de cima da aldeia. Um senhor que estava ali com um carro monovolume ofereceu-se para levar o enfermeiro para prestar socorro a essa pessoa. A Ana Sofia pediu-lhe que a levasse também, o que ele fez.

Ao chegarem à casa onde a Felismina Conceição estava a ser assistida, a Ana Sofia saiu do carro e prosseguiu a pé até que se deparou com o Citroën. Andando um pouco mais encontrou marido, que estava e o pequeno Rodrigo. O Sidnel tinha o telemóvel na mão.

Este acidente levanta a questão da possibilidade de se ter evitado estas mortes caso tivesse havido um socorro eficaz em tempo efetivo”.

Afonso Conceição

Baseado no testemunho de Ana Maria Conceição

“Afonso dos Santos Conceição (75 anos) e Felismina Conceição. Viviam em França com a família, mas sendo da região de Pedrógão Grande, vinham regularmente a Portugal. Tiveram uma casa em Vila Facaia, que tinham vendido há uns dois anos. Quando vinham a Nodeirinho usavam uma casa, situada perto da capela, cedida por um familiar para residirem. Saíram de França no dia 14 e tencionavam permanecer duas semanas na aldeia.

No dia 17, ao final da tarde, decidiram retirar-se da aldeia, para fugir do incêndio, no seu carro, um Peugeot 106. Não se sabe a hora exata, mas presume-se que fossem cerca das 20 horas. Segundo o testemunho de Aníbal Nunes, que os viu passar perto da Capela de Nodeirinho, quando iam a sair e ele se dirigia para baixo, teriam saído logo depois do Sidnel e do Rodrigo.

Como se viu no caso de Sidnel, não temos uma indicação exata do percurso destes dois automóveis, mas é muito provável que a algumas centenas de metros de distância da aldeia, tenham decidido voltar para trás. Faz-se notar que o Sidnel não ia propriamente a fugir da aldeia, ao passo que o Gonçalo certamente tencionava ir para Figueiró dos Vinhos, para um lugar mais seguro. Ao ver o Sidnel voltar para trás, terá decidido fazer o mesmo. Como a estrada em que seguiam era muito estreita, enquanto o Sidnel fazia a manobra, o Afonso, que conduzia um carro mais pequeno, terá conseguido fazer inversão de marcha também, passando a ir na frente, na viagem de regresso.

Como já se relatou, na estrada de acesso a Nodeirinho, numa descida, ao fazer uma curva para a esquerda, o Afonso embateu num pinheiro, no lado direito da estrada. Logo em seguida terá chegado o Sidnel que ficou na traseira do seu carro.

Presume-se que o Afonso terá ido ajudar a Felismina a sair do carro, uma vez que o seu corpo foi encontrado junto da porta do lado direito do carro.

Entretanto a Felismina conseguiu afastar-se do carro, com muitas dificuldades, pois havia fogo e calor em toda a volta. Sofreu queimaduras, mas foi andando até à primeira casa da aldeia, que dista mm metros do local onde o carro embatera. Tratava-se da casa de Aníbal Flenriques Nunes, mas nessa altura não havia pessoas em casa para a acolher.

Depois de esperar um pouco, foi andando, com extrema dificuldade até a casa seguinte. Segundo alguns depoimentos ter-se-á arrastado pela estrada, até chegar a esta casa que dista cerca de 90 metros da anterior e portanto 170 metros do local do acidente.

Nesta casa foi finalmente acolhida, pelos donos, sendo que já se encontravam lá outras pessoas que tinham pedido auxilio. Nesta casa foi atendida por um enfermeiro que vive em Nodeirinho. Foi levada para o Hospital Universitário de Coimbra onde se manteve até meados de julho.

Quando a situação clínica de Felismina estabilizou e pôde ser transportada, foi transferida para uma unidade de queimados em França, encontrando-se atualmente numa unidade de cuidados continuados próximo da família da filha.”

 

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