6/12/19
 
 
Maria Helena Magalhães 03/10/2018
Maria Helena Magalhães

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Puritanismo? Irreflexão? Afinal, onde está a verdade?

A exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures” é excelente! O estardalhaço que se gerou à sua volta é despropositado, folclórico e não abona nada a favor de uma instituição tão prestigiada como a Fundação de Serralves, nem a favor do demissionário diretor e curador da exposição.

A exposição de Robert Mapplethorpe em Serralves tem sido notícia recorrente não pelos melhores motivos. Trata-se da primeira exposição em Portugal do renomado, e controverso, fotógrafo americano do final do séc. xx (1946–1989), apresentada como uma retrospetiva alargada desta figura incontornável da fotografia contemporânea. O rigor estético e a beleza das suas composições, quase exclusivamente a preto-e-branco, deixam(-nos) uma impressão profunda e indelével. O próprio afirmaria que, para ele, fotografar era um exercício de composição: “É algo completamente controlado. Não há instantâneos. Nada é casual. Há uma performance entre mim e o sujeito fotografado” – in brochura da exposição, com referência ao catálogo cuja publicação, aquando desta visita (25 de setembro), não tinha ainda data anunciada (?!). A exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures” é excelente! O estardalhaço que se gerou à sua volta é despropositado, folclórico e não abona nada a favor de uma instituição tão prestigiada como a Fundação de Serralves, nem a favor do demissionário diretor e curador da exposição. Só amachuca, desnecessariamente, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS). Não obstante, a exposição tem registado enchentes. E está-se mesmo a ver porquê…

A demissão do diretor do museu, João Ribas, no dia a seguir à abertura da exposição, desencadeou explicações por parte da administração quanto à acordada interdição do espaço reservado às imagens de “caráter sexualmente explícito” e à redução do número de fotografias expostas, menos 20 do que as anunciadas. Por seu lado, no comunicado divulgado na passada quarta-feira, João Ribas afirma ter-se demitido por não aceitar “pressões ou imposições que limitem a sua autonomia técnica e artística e se traduzam em comportamentos de inadmissível repreensão da livre expressão das obras de arte ou das mensagens”. Ora, a ser verdade, tudo terá acontecido antes da inauguração. Por que razão, então, se terá demitido logo no dia seguinte? Não o devia ter feito antes? Não podia aguardar o fim da exposição? Não sabemos.

Se a administração não interveio na seleção das obras a expor – João Ribas terá tido total liberdade na escolha das 179 fotografias cedidas pela Fundação Mapplethorpe, com todas as despesas inerentes a essa cedência –, se, posteriormente, o curador decidiu não expor 20 fotografias, propôs que as “obras mais sensíveis” ficassem numa sala reservada e acabou a anunciar a exposição como se não houvesse nada disso, é caso para perguntar: perante tal inconstância, não seria de iniciar, sem alarido, um processo de substituição? Mas, afinal, foi ele quem, intempestivamente (?), bateu com a porta! Porque será que arriscou a mais do que provável hipótese de danos reputacionais? Alguma coisa aqui não bate certo…

Ainda na mesma quarta-feira, soube--se da morte de Helena Almeida, essa extraordinária artista plástica portuguesa que, ela também, deixou marca insigne na fotografia, na pintura e no desenho contemporâneos. Há cerca de três anos (17/10/2015–10/01/2016), Serralves organizou uma exposição retrospetiva, ótima, de Helena Almeida, curiosamente cocomissariada por João Ribas, já então diretor-adjunto do MACS. Foi um memorável momento de arte. Sem ruído.

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