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Lux Frágil. Uma luz que se vê no escuro

Lux Frágil. Uma luz que se vê no escuro

Davide Pinheiro 02/10/2018 19:58

Há vinte anos, o Lux Frágil não estava só a abrir portas. Estava a participar na inauguração de uma nova era para a cidade. Lisboa era bem mais cinzenta e isolada e Manuel Reis, o Lux aproximou-a do mundo. Um templo de prazer que nunca se esgotou na função hedonista e ainda hoje serve de laboratório de ideias e lugar de afetos criativos

É uma discoteca mas nunca foi só uma discoteca. Onde se ouve música de dança, nas suas variadíssimas formas, mas nem só o corpo dança. À noite, no apogeu da madrugada, mas é provável que o prazer se prolonge ad eternum. E talvez daí surjam ideias luminosas. Novos mundos. Mantras por inventar. E a reunião no escritório tenha de ser adiada para hora a combinar mais tarde. 

Na apresentação da exposição “Paradisaea”, a retrospetiva de vinte anos do Lux no Hub Criativo do Beato para ver até 11 de novembro, o designer Fernando Brízio notava, após percorrer o espólio de cerca de vinte mil fotografias de Luísa Ferreira, as mudanças nas pessoas. “Os divórcios e o envelhecimento”, descrevia. E, claro, os romances que ficaram por contar. Alguns não chegaram à manhã seguinte, outros deram em casamento, mas esta é, antes de mais, uma história de pessoas para pessoas que acreditaram na liberdade para poder fazer uma diferença.

Para Rui Vargas, DJ residente que, tal como Zé Pedro Moura e Leonaldo de Almeida, ainda viveu os tempos do Frágil, “o Manuel Reis nunca pensou o Lux como uma discoteca. Foi sempre mais um laboratório onde as pessoas interagem e se provocam. Aconteceu com DJ, músicos, artistas plásticos, realizadores...”. Por isso, o Lux nunca foi “apenas uma discoteca onde se vendem copos e se ouve música alta” mas uma “montra para artistas da cidade e não só”.  

Trabalharam com o Lux artistas plásticos como Joana Vasconcelos, que chegou a estar à porta, e João Pedro Vale; criadores de moda como Filipe Faísca, Alexandra Moura e Lidija Kolovrat; designers como Ricardo Mealha; e até um jovem Vhils como VJ há cerca de dez anos. A nata artística, e não apenas a musical, das fardas à decoração, todos os pormenores eram pensados por Manuel Reis em comunicação com os autores das peças que também eles contribuíram para criar uma personalidade. Uma catedral reconhecida internacionalmente, mandatória no roteiro não só de turistas mas também de artistas de tendência ousada e transformadora.

Rui Vargas, que é também, um dos programadores do Lux reconhece “a aprendizagem de toda a gente”, desde 1998, “a pensar como mover uma pista de dimensão com a música que acreditamos ser a melhor”. Acreditando que “seria possível fazer as coisas de forma diferente” numa “cidade fechada sobre si mesma” que então se abria a um novo mundo. O Lux não esteve só nesse processo de mudança e diálogo. A Lisboa Capital Europeia da Cultura ‘94 serviu de prólogo à Expo 98. E quando a exposição mundial se aprestava para passar a história a 30 de setembro, o Lux era inaugurado um dia antes no antigo edifício do Cais doTrigo, propondo-se não só a ser um farol hedonista, como a conectá-la com a zona oriental – uma visão de Manuel Reis adiada pela cidade durante algum tempo que o presente confirmou. 

De um concerto privado de Prince, madrugada dentro, à euforia das primeiras noites dos 2 Many DJs, Tiga, Four Tet, Ricardo Villalbos ou a embaixada DFA presidida por James Murphy, há um histórico de estreias, apostas bem sucedidas e relações solidificadas ao longo do tempo com nomes de referência que fazem do Lux uma capital. Sem fronteiras sonoras, defende Rui Vargas. “Nós viemos do Frágil num tempo em que não havia a imagem da música de dança enquanto música eletrónica. Tivemos bandas de rock e de hip-hop; ciclos de jazz. Concertos de fado, de ópera e de música clássica”, recorda. “Nunca nos quisemos limitar, mesmo na eletrónica quando havia correntes dominantes. Sempre quisemos ir além”, diz. Do óbvio, acrescentamos. 

Para além do ruído e das luzes, há uma equipa estável desde a abertura de portas que é todas as semanas o garante de uma identidade. “O Lux é uma família”, confirma Rui Vargas. “Arrancámos com sete DJ residentes e ainda estão todos cá. Isso tem paralelo em outras áreas [dentro da equipa]”, explica. “Somos muito exigentes uns com os outros, mas leais e companheiros. Temos essa inquietação do desconforto. De querermos fazer sempre melhor”, sublinha
Em nome de ManuelReis, fundador e agitador da cidade, morto a 25 de março deste ano, quando a mostra do 20.º aniversário já estava em ser preparação.  “Ainda estamos a viver um luto”, reconhece Rui Vargas. “Não diria que estamos a aprender pelo próprio pé”, continua, mas “o véu da tristeza” ainda cai sobre os ombros. 

E vem-nos à memória uma frase batida: a vida é toda para diante. “Um luto a olhar sem olhar para trás” para tentar fazer “a melhor festa de sempre”. Hoje, dia de semana para testar a resistência dos corajosos e aventureiros, apenas acessível através de um original convite que, segundo a arte de reciclar de Andy Warhol, recria uma pequena board informática. O Lux continua a ser um ideal de vida, movido pela música e por expressões artísticas que se inter-relacionam. 

Em tempos, as festas impunham um rigoroso e extravagante dress code. Ora inspirado na cinematografia de Fellini,  ora na obra de Almodóvar, ora na “Alice no País das Maravilhas”, recriada por Tim Burton. 

Por banalização, imitação, cansaço ou falta de resposta, hoje não é assim. É um tempo diferente mas a festa continua a ser motivo de cobiça, dos gabinetes ministeriais às redes sociais. E outras celebrações têm deixado lastro. A de David Bowie, na hora da morte. A deGrace Jones, como personificação da liberdade individual. 

Quando se diz que é um lugar elitista, Rui Vargas discorda. “Não concordo com essa impressão. Todas as pessoas são bem-vindas”, realça. “A nossa proposta não agrada a toda a gente. Logo aí há uma seleção natural mas o Lux é uma porta aberta a todos”. 

Sem referir diretamente o caso de Patrícia Mamona, a atleta olímpica que recentemente criticou o Lux nas redes sociais por ter sido barrada à porta quando estava com um grupo de amigos, e que motivo uma rara resposta pública do clube, Vargas limita-se a responder que “a seleção aposta em quem sabe ao que vem para se divertir”, diz. “De pernas abertas”, como a peça erigida para receber os convidados no décimo aniversário do Lux, simbólica da liberdade criativa e, não menos importante, sexual. E amanhã quando as luzes se acenderem e sol nascer sobre Santa Apolónia? “É uma postura pessoal mas não faço muitos planos. Nunca pensámos por objetivos para o Lux. Fazemos muitas coisas por instinto. E tentamos fazê-las da melhor forma”, conclui.

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