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Lado negro. Preços das casas disparam nas grandes cidades

Lado negro. Preços das casas disparam nas grandes cidades

Dreamstime Sónia Peres Pinto 27/09/2018 20:57

Preços das casas não param de aumentar, tanto para a compra como para o arrendamento. Grande parte deve-se ao turismo e os centros históricos são os mais penalizados

O turismo continua a dar cartas e o sucesso é inegável, mas o crescimento deste setor “feriu de morte” o mercado da habitação, principalmente nas grandes cidades, como Lisboa e Porto. E os números falam por si: só no primeiro trimestre deste ano, os preços das casas subiram 12,2% em Portugal, depois de já terem aumentado 10,5% em 2017.

De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o preço médio na capital é de 2581 euros por metro quadrado, enquanto no Porto o valor desce para 1379 euros por metro quadrado, bem acima do valor mediano, que está fixado nos 930 euros por metro quadrado. Ainda assim, segundo o organismo, há freguesias nestas duas cidades em que os aumentos ultrapassaram os 40%, e cujo preço por metro quadrado chega a ir além dos quatro mil euros.

E a pressão dos preços não se verifica apenas nas grandes cidades. Agora o cenário repete-se também na periferia. Uma realidade que é reconhecida pelo CEO da Century 21, Ricardo Sousa, ao admitir que muitas famílias, apesar da sua preferência pelo centro da cidade, estão a adquirir casas noutras zonas das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. “Estas transações fora das cidades estão a concentrar-se nas zonas servidas por metro, comboio e barco, estando já a criar uma pressão nos preços dos imóveis nestas localidades”, diz ao i, Ricardo Sousa.

Em causa estão acima de tudo os preços. Segundo o responsável, os portugueses procuram adquirir habitação por um valor médio, a nível nacional de mais de 138 mil euros, enquanto a oferta se situa numa média de 173 mil euros.

A opinião é unânime junto dos vários responsáveis do setor, que vão ao encontro do que foi dito, recentemente, pela Comissão Europeia. A CE alertou para as preocupações que suscitam os preços especulativos do mercado imobiliário português e para a crescente dificuldade das famílias no acesso à compra de imóvel. Bruxelas culpa, em parte, o turismo por este cenário. “[O boom turístico está] a puxar pelos preços não só nas zonas mais turísticas, mas também nos bairros residenciais, com impacto na capacidade de as famílias comprarem casa, particularmente as que têm menores rendimentos”, disse na oitava avaliação pós-programa.

Esta dificuldade no acesso à habitação já é reconhecida pela Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP). Ao i, Luís Lima garante que “é efetivamente cada vez mais difícil a compra de casa”.

E as perspetivas não são animadoras: recentemente a Standard & Poors (S&P) divulgou um relatório onde estima que os preços vão subir 9,5% este ano mas que nos próximos anos – em 2019, 2020 e 2021 – vão aumentar menos, respetivamente, 7%, 6% e 5%.

“Tragédia” no arrendamento O cenário repete-se no mercado de arrendamento. Arrendar uma casa em Portugal tem um custo mediano de 4,39 euros por metro quadrado, mas os preços variam muito de região para região. Em Lisboa, o município mais caro do país, os preços sobem para 9,62 euros por metro quadrado, mas poderão subir ainda mais consoante a freguesia. Mesmo assim, a freguesia mais barata de Lisboa tem rendas superiores em 55% em relação à media do país. Já o Porto tem rendas superiores em 54% ao que se regista no resto do país.

Esta pressão de preços acaba por levar muitos proprietários a não quererem renovar os contratos, já que os valores dos contratos antigos são muito inferiores. Uma situação que ganha maiores contornos no caso dos bairros históricos. E este cenário já se consegue traduzir por números: 34% das casas no centro histórico de Lisboa são ocupadas por turistas e, em alguns casos, estima-se que possa vir a superar o número de residentes. “Está a assistir-se a uma intensa pressão dos senhorios sobre os inquilinos mais fragilizados para que estes abandonem as suas casas”, permitindo aos donos rentabilizá-las em operações de alojamento local e defendendo que esta atividade só faz sentido se for “devidamente regulada”, diz ao i, Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

Sucesso puxa pelo emprego Apesar do cenário negro no mercado de habitação, o mesmo não acontece na restauração. O número de trabalhadores em hotelaria, restauração e cafetaria, cresceu 16% em 2017 face ao ano anterior, para mais de 323 mil postos. Feitas as contas corresponde a 120 novos postos de trabalho por dia.

Segundo os dados do INE, o só setor dos restaurantes gerou 35 mil novos postos de trabalho (aumento de 16,1%) e o setor do alojamento 9 mil (mais 14,5%). Ainda assim, está longe das necessidades do mercado. Segundo um estudo feito pela AHRESP, o setor precisa de mais de 40 mil trabalhadores.

Mas os problemas não ficam por aqui. Em entrevista ao i, Joaquim Ribeiro, vice-presidente da AHRESP, chegou a admitir que, além de falta de mão-de-obra, também há falta de mão-de-obra qualificada. “Este é um setor que tem evoluído e há áreas que já são mais atraentes, como é o caso do chefe de cozinha. Hoje em dia, ser chefe é sexy, mas todas as outras áreas que também são fundamentais, nomeadamente o serviço de mesa, não tem este apelo por parte das pessoas. Atualmente, qualquer jovem sente o apelo de ser chefe de cozinha, transformou-se numa profissão sensual, havendo já alguma oferta a esse nível. Mas para a cozinha em si, o serviço de mesa e tudo aquilo de que precisamos, não existe mão-de-obra. E a oferta que existe tem grandes défices de qualificação”, salienta.

De acordo com o responsável, para combater esta lacuna, em Lisboa e no Porto já se encontram muitos trabalhadores que não são do país e são contratados para exercer estas funções por não existem trabalhadores para o fazer. Uma solução que nem sempre é bem vista pela associação. “A AHRESP não tem nada contra os trabalhadores estrangeiros que eventualmente possam exercer esta função, mas interessa-nos em primeiro lugar ter trabalhadores portugueses”, afirmou.

 

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